21/05/2004
Número - 369

 

          

Francisco Simões

 

DA MORTE À VIDA

Eu nunca julguei que soubesse tudo dessa vida, de forma alguma. Afinal eu seria um bobo, um néscio, se me imaginasse como alguém capaz de dar lições de bem viver, ou de distribuir conselhos e alertas sobre as armadilhas que nos são reservadas no transcorrer de um tempo que cada um de nós tem que cumprir neste plano que habitamos.

Eu próprio tive, e ainda estou tendo, muitas lições, só procuro ser um bom aluno, nada mais do que isso. Algumas dessas lições são difíceis, até nos machucam muito, deixam marcas, porém há que aprendê-las. Não dá para fugir nem nos é permitido “gazetear” as aulas. E se o fizéssemos, apenas teríamos a perder.

Passado, presente e futuro, hoje vejo assim, de certa forma se misturam, se entremeiam. Separá-los, ou ignorar um deles ao atingirmos o outro, nada soma, pelo contrário. Acreditem, certas coisas pode-se dizer até que são cíclicas, ou que se realizam ou se repetem numa determinada, ou pré determinada ordem.

O ontem, o hoje, o amanhã, a princípio parecem coisas estanques e tão separados um do outro. Mas só parecem. Se observarmos com atenção e abertos mesmo ao que alguns logo afirmarão ser o imponderado, perceberemos que não apenas os seres vivos, mas também muitos fatos, acontecimentos, como que se reciclam, ainda que incluídos numa planificação, talvez cósmica, de evolução.

Assim parecem seguir também a vida e a morte, trilhando na mesma senda, uma não dissociada da outra, uma esperando pela outra, ambas integrando a mesma realidade. Viver e morrer, talvez apenas uma mudança de estado, de freqüência, de plano, num universo muito para além de nossas fronteiras físicas. É minha opinião por determinadas experiências, e não pretendo polemizar sobre isso.

Quando comecei a escrever este texto eu meditava justo no que acima explano e, de certa forma, advogo. E também me recordava que há quase um ano eu entrava em um hospital, no Rio de Janeiro, ainda de manhã bem cedinho. Era o Hospital da Ordem Terceira, no bairro da Usina.

Naquela manhã eu fui ver a morte bem de perto. Nunca me acontecera isto, daquela forma, em toda a minha vida. Eu a tive nos meus braços enquanto ela, a morte, a pouco e pouco extinguia uma vida. Vida tão valiosa para mim que eu pagaria qualquer preço, se houvesse, para não perdê-la. Mas, o destino não é um jogo, é uma sentença que parece nada nem ninguém pode alterar.

Naquela manhã eu estive com a morte nos meus braços vendo-a levar o que nenhum milagre, de tantos que eu implorara, dia após dia, noite após noite, conseguiu manter comigo. Dizem que milagres acontecem, mas não sei a que regras obedecem, a que sentimentos atendem, já que fé e esperança nunca nos faltaram. Palavras de consolo só me aturdem mais do que me aliviam. Cada um deve aprender com a sua dor.

Curiosamente, no mesmo dia em que começava a escrever esta crônica, recebi mensagem da amiga Efigênia Coutinho, do excelente site “Távola Literária”, na qual ela dizia: “A dor tem a medida do abismo! A gente nunca esquece, é uma eterna Saudade, sempre.” Absolutamente certo.

E hoje escrevo também porque ontem, pela manhã, tive que voltar a outro hospital, aqui em Cabo Frio. Desta feita eu fui ver... a vida. Uma pequenina vida que chegava para este mundo tão conturbado, tão violento, nascendo como uma de tantas esperanças que devem nascer por este país afora diariamente.

Ela tem nome, claro: Eduarda. Olhei-a demoradamente, observei seu rostinho lindo, seus pequenos braços, sua mãozinha que se mexia suavemente num espreguiçar angelical. Eduarda tinha os olhinhos cerrados, certamente sonhava com anjos que a teriam acompanhado até nosso mundo.

Enquanto a mirava, encantado, foi inevitável eu me render à emoção. Senti meus olhos umedecidos num confuso sentimento de amor, felicidade e também de saudade, muita saudade. As imagens se fundiam e confundiam em minha mente. Havia sorrisos e lágrimas. Havia uma dor cansada e surda e também paz, muita paz.

Meu bom amigo Edinho e sua esposa, Adriana, transbordavam de alegria. A avó materna mostrava todo o seu desvelo e felicidade.

Ontem, naquele hospital, eu tive nos braços a vida, uma nova vida que nasceu, ou renasceu, que estava sendo por demais esperada. O amor se materializava mais uma vez. Amor que é a mola mestra da vida. Amor que sobrevive à morte, que ultrapassa limites, que segue na eternidade. O amor para além das palavras e dos desejos.

Da vida à morte é, digamos assim, a ordem natural de toda existência. Da morte à vida é, especialmente para os espiritualistas, o continuar, o moto perpétuo do reviver pela reencarnação. Cada um, entretanto, no seu livre arbítrio, assume, dentro de sua visão, de suas experiências, do seu aprendizado, a fé que lhe fala ao coração. Eu tenho minhas convicções e respeito a todas, até a que nega Deus.  



(21 de maio/2004)
CooJornal no 369


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br