28/05/2004
Número - 370

 

          

Francisco Simões

 

VIDA, SEM VIDA

Há alguns dias atrás, um bom amigo, da velha guarda, lá pelas tantas da noite que se revestia de um frio suficiente para sentirmos ainda mais presente aquela companheira solidão, enviou-me uma mensagem. Eu li, reli e reli e fui vencido pela emoção.

Não era uma simples mensagem, ela continha poesia que falava de saudade, e esta, dava para se perceber, no silêncio das palavras, que gritava. Seu brado ecoava num coração onde o amor permanecia fiel às lembranças, às tantas recordações de uma vida inteira. Amor que se resignava ao destino sem se deixar vencer pela dor.

Olhei para o relógio e vi que os ponteiros se abraçavam para logo a seguir se separarem. Aquela imagem, aparentemente fora do contexto, em verdade também se inseria na alma das palavras que o amigo me escrevera. Vencia-se mais um dia, ultrapassávamos a meia-noite.

O tempo, que não olha para trás, jamais pararia para ler, sentir, ou ouvir o silêncio que, ao mesmo tempo que se conformava com o que lhe restara, certamente falava por uma lágrima que vencera o isolamento para afirmar que o amor continuava vivo.

É o amor que ultrapassa os limites do eterno e ruma ao infinito para o grande reencontro de vidas. O verdadeiro amor não morre nunca, apenas espera.

Mas, na mensagem o amigo escrevera apenas isto: “Seis meses... Quanta vida sem vida...” Olhei em volta de mim e senti o mesmo, o mesmo, sim, num espaço de tempo que se alargara um pouco mais... 10 meses.

A noite sempre nos revela, nos faz ouvir aquele eco que ressoa em nossas entranhas, que vibra nas profundezas de nossos sentimentos, emoção que se manifesta, que pulsa na vida incompleta pelo vazio, pela ausência tão sentida da existência partida, repartida, pelo espaço onde hoje não floresce a vida.

Meu pensamento voou rápido levando a minha solidariedade. Com certeza meu amigo estava só. Esta era também a minha condição no mesmo momento vivido por ambos. Lembrei-me de outra noite em que eu não conseguiria dormir se não expressasse o sentimento que me chicoteava a alma duramente. Era muito tarde para incomodar alguém com um telefonema e muito cedo para esperar que o sol renascesse e a vida voltasse a circular no meu condomínio.

Sentei-me em frente à tela do computador e comecei a digitar palavras, tal como fez o meu amigo, só que eu iniciava um texto, uma declaração, quase um testamento em que a herança deixada era uma imensa saudade. Assim comecei a escrever “Companheira Solidão”:

“Nunca me senti bem estando totalmente sozinho. Não nasci para ser solitário. Gosto sim de ter alguns momentos de isolamento, sabendo, porém, que no quarto ao lado, na sala ao lado, ou logo para além da porta do meu escritório, mesmo havendo silêncio, ali também há vida, uma espera, um reencontro, uma solitude acompanhada.”

Meus dedos não paravam movidos pelo intenso desejo de falar por mim. Mais adiante me recordo de ter escrito: “Lembrei-me de repente de uma quadrinha que escrevi em setembro/1999: “O perto é tão longe, presente, / Que o longe é estar perto sozinho, / Saudade é sentir bem de frente / A vida tão fora do ninho.”

Naquela noite eu sobrevivia quase três meses após se terem cumprido os desígnios de Deus. Não consegui o milagre pretendido, tive que me contentar com as cinzas da... vida, sem vida, como me escreveu agora o bom amigo.

“Seis meses... Quanta vida sem vida...” Tornei a ler a mensagem, calado, com os pensamentos embaralhados, com as mãos imobilizadas. O que eu poderia dizer para ele, o que adiantaria qualquer coisa que eu lhe dissesse, que diferença faria? Afinal, ele já dissera tudo, já se expressara com a alma e o coração.

Suas palavras não deixavam dúvidas: o amor sofria, a paz se calava, a fé buscava o consolo, a vida sentia falta. Ele... bom, ele estava só e certamente o estaria em tantas outras noites, em tantos outros meses. A mesma vida tem sido também a minha professora. A lição é difícil, muito difícil, e temos só uma opção: aprendê-la.

Melhor do que eu, o meu bom amigo sabe disso. Nos momentos mais críticos, quando meu horizonte parecia se desfazer em desesperança, foi a ele que recorri. Sua longa experiência de vida, sua força espiritual, seu profundo conhecimento do ser humano, me ajudaram a segurar a fé, a não despir a esperança do seguir em frente.

“Seis meses... Quanta vida sem vida...” E eu lembrei de outro trecho do meu texto “Companheira Solidão”. Eu me reportava justamente ao tempo, e dizia: “O tempo não era importante pois não remediaria nada, nada mesmo. Ser hoje, amanhã, ou sei lá quando, não fazia diferença. O vazio permaneceria intangível, porém mais presente que nunca. Era para valer, doía na alma, invadia minha paz, torturava o coração, seqüestrava a esperança.”

As palavras do meu bom amigo ecoavam em minha mente, faziam uma ponte em meu coração para alcançar o tempo, um tempo inalcançável. Ambos sabemos disto. Ele poetara com a saudade que lhe doía naquele instante bem no fundo de sua alma: “Quanta vida sem vida...”

Associei-me a ele, mentalmente, no vazio do espaço antes compartilhado. Tornei-me societário na solidão, no desalento, nas recordações nostálgicas, com o partilhar um viver que só um grande, um eterno amor, nos ilumina, amordaça o desespero, nos torna às vezes próximos do que parece que já perdemos. E assim seguimos vivendo.
  


(28 de maio/2004)
CooJornal no 370


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br