04/06/2004
Número - 371

 

 

          

Francisco Simões

 

PENSA NISSO

Ah! Essa soberba que evita o espelho porque foge da verdade. Ah! Essa altivez que usa os ombros como um muro que limita seu preconceito no olhar.

Ah! Essa arrogância que já rastejou para sair da sombra em busca do sol. Ah! Essa vaidade tão tola, mas tão tola, que pode acabar sozinha rodeada de tolices outras tão irmãs, tão iguais, tão vaidosas também.

Ah! Esse desdenhar que pisa nas flores, despreza o luar, zomba do pôr-do-sol. Coitado, carrega no peito, erguido, um motejo que critica, que censura, e continua fugindo do espelho.

Ah! Esse escárnio que nem disfarças porque está impregnado em tua pele, em tuas células, e exala em teu suor. Ele te cega o rumo, te ilude na verdade, e também cava o abismo que um dia terás que ultrapassar. Conseguirás?

Calaste tua consciência ou a corrompeste? Está na moda, não é? Quer dizer, na moda de um viver no qual não coloco meus passos, do qual mantenho a maior distância possível, mas há quem goste, quem participe deste tipo de “banquete”. Com certeza não estás só.

Não tenhas a pretensão de saber demais ou de conhecer tudo. Lembra-te que o mestre Jorge Amado, na modéstia que sempre o tornou ainda mais virtuoso para além do imenso talento, sempre se disse um aprendiz de escritor, até à morte. E ele era Jorge Amado. Tu, como te chamas mesmo?

Seja em que degrau tu te encontres, procura não subestimar ou menosprezar os que estão em degraus abaixo de ti. Lembra que já deves ter por ali passado, a menos que tua vaidade, tua soberba, inadvertidamente te tenham alçado a um vôo para o qual não estarias preparado. Isso é um perigo, ainda mais se acreditaste numa impostura, porque não consultaste nunca o espelho.

Também não tenhas pressa em ultrapassar aqueles que se encontram em degraus para além de ti. Respeita-os, ouve-os, aprende com eles. Verás que tua caminhada, ou tua subida, às vezes dependem e muito de algum gesto amigo, ou daquela mão solidária e desprendida que decerto te aplaudirá, mesmo se a ultrapassares, mas por teu merecimento, claro.

Dizem que a pressa é inimiga da perfeição, eu prefiro acreditar que a tal perfeição não existe. Olha bem em torno de ti. Se temos virtudes, também acumulamos sempre alguns defeitos, perigoso é não querermos reconhecê-los. Perfeição, se existir, só a imputo à Natureza, mas mesmo nela se sobressaem defeitos vários.

E quanto à pressa, cuidado com o tombo. Há sempre um vírus da imodéstia de plantão para te passar rasteira, mesmo que julgues estar plenamente protegido, digamos assim, com teu antivírus atualizado. Pois é.

As tuas tristezas e os teus sucessos compartilha-os com os amigos. Saberás se tens realmente amigos e reconhecerás quantos e quais verdadeiramente o são. Entende bem, eu digo compartilha-os, não os atires na cara deles. Tudo depende de como ages, de como apresentas teus momentos de dor ou de imensa felicidade. Oferece-os e aprende a esperar o apoio ou os aplausos. Nunca os imponhas.

Já ouviste falar em solidariedade? Sabes que ela é incompatível com preconceito, com intolerância, com subestimação? Se consegues ultrapassar esses sentimentos nada nobres, pelo menos em alguns momentos, foste capaz de exercer então o solidarismo. Tomara que o tenhas feito, assim teu viver não terá sido totalmente inútil.

O dicionário define assim o solidarismo: “doutrina que dá prioridade à solidariedade como princípio moral, situando-a acima da justiça, ou da caridade.” É importante conhecer-se esta definição, para não confundirmos habituais esmolas com solidariedade. Ser solidário é algo muito mais amplo, tem um alcance muito maior.

Se tiveres dificuldade em entender eu poderia te indicar excelentes professores ou professoras que costumam se dar, doar grande parte de sua vida, semeando felicidade, amor, muito amor, e paz. Conseguir o sorriso de uma criança para a qual o mundo virou as costas, ou a sorte foi uma madrasta muito cruel, é muito mais que um simples prêmio, é um retorno de felicidade que preenche nossa alma.

O mesmo vale para pessoas idosas, especialmente aquelas que a própria família “esqueceu” em asilos. Olha, elas são em número muito maior do que tu possas imaginar, acredita. Um pouco de amor, de atenção, lhes devolve o sorriso e lhes reacende a vida.

Lê este pensamento atribuído a Sally Kock que eu retirei de uma das edições do site “Minuto de Sabedoria”, no qual sou cadastrado. Mas lê com atenção e mente aberta. Diz ele: “Grandes oportunidades de ajudar outras pessoas aparecem de vez em quando, mas as pequenas estão em torno de nós, todos os dias.”

Espero não te ter cansado demais nem pretendo passar a imagem de alguém perfeito, absolutamente. Conviver com nossas virtudes e nossos defeitos, sabendo dosá-los, reconhecê-los sem se deixar vencer pela vaidade excessiva das virtudes, nem se deixar derrotar pelas imperfeições, é que ajuda a estabelecer a linha mestra de um viver digno, solidário, respeitando e se fazendo respeitar. Este exercício eu pratico.

Sobre amizades, eu te lembro que nosso querido poetinha, o grande Vinicius de Moraes, costumava dizer que a gente não as conquista, mas... as reconhece. Profundo, não é? Tanto assim que, mesmo eventualmente tentados a discordar dele, a mim, pelo menos, me falta atrevimento para tanto. Atrevimento, ou talvez incompetência mesmo, sem falsa modéstia. Pensa nisso.

 

(04 de junho/2004)
CooJornal no 371


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br