11/06/2004
Número - 372

 

 

          

Francisco Simões

 

A ROSA

Tantas são as desgraças acontecendo por este mundo afora e mesmo perto de nós, à volta de nós, tantos os desmandos que levam ao descrédito autoridades que deveriam zelar pelo seu povo, pelo seu país, que há momentos em que fico muito triste e chego a pensar que o mundo não vai mais desentortar.

Tantas as ambições dos mais poderosos que não hesitam em usar de sua força destrutiva para subjugar outros povos, seja pela guerra, seja pelo poder econômico. Tamanha a sua insensibilidade que pouco se importam com o mal que causam a milhões de pessoas pelo mundo afora.

Cínicos, despudorados, impudicos, reúnem-se periodicamente sob o pretexto de “ajudar” àqueles que sobrevivem à míngua de quase tudo, mas, regando palavras com vinho da melhor qualidade, em verdade só atiram migalhas. Pouco se importam com milhões de vida que se apagam anualmente pela fome, por doenças várias, vampiros que são a sugar tudo que podem de quem já pouco lhes tem para oferecer.

Maquinam pretextos os mais absurdos, os mais inacreditáveis, permitindo que sua própria gente acredite que a violência que transportam para terras distantes é sempre necessária e usada em defesa de seu povo, de sua nação. Abutres, mentes inescrupulosas que só contabilizam vidas que se perdem do seu lado. Do outro é sempre conseqüência do inevitável. Se puderem torturam, e quem tortura mata por prazer, por distração, num mero jogo assassino e covarde. E o fazem impunemente.

Isto ocorre porque acima deles parece não mais existir nenhum poder, hoje em dia, neste planeta que resiste lindo, que os possa frear, que os possa impedir. Rasgam tratados internacionais, cospem nos direitos de qualquer nação, julgam com suas regras próprias, mas não admitem ser julgados. Estão acima de todas as leis.

Estes senhores da vida e da morte, cada vez mais audaciosos, mais arrogantes, têm ignorado solenemente brandos puxões de orelha, que mesmo quando eventualmente lhes sejam aplicados, o são com tal pusilanimidade que devem ruborizar aqueles que deveriam ao menos fingir que, como povos, somos todos iguais perante a ONU...

Os que a comandam, que já tiveram de nós o maior e mais absoluto respeito, hoje parecem marionetes dos que tudo podem, tudo fazem, em tudo mandam. Só não perderam seu ar austero, mas não assustam mais aos que vivem a fazer cara feia para quem bem entendem. Fecham os olhos constantemente aos mais absurdos crimes de guerra, num silêncio cúmplice e desolador. Quando falam, nada dizem, pelo menos não a quem devem dizer. Parece que se renderam.

Vejo proliferar o preconceito, a xenofobia, uma mal disfarçada perseguição a certas raças e credos, e a crescer, naturalmente, no sentido contrário, um forte desejo de vingança apoiado numa violência que estarrece pelo auto sacrifício de seres humanos, mas que, para muitos, é a única “arma” que está ao seu alcance, a única de que dispõem. Vejo crianças que não jogam bola, nem levantam pipas, antes que aprendam isso já têm uma arma na mão ou amarrada ao seu corpo.

O que mais nos abate é perceber que as pessoas se vão acostumando e se rendendo a essa realidade. Parece que a olham até com alguma indiferença, como que a dizer: que tenho eu a ver com isso? Tudo, têm tudo, amanhã ela pode estar no seu quintal ou na sua sala de estar. Amanhã, de repente, até você a pode praticar em sua defesa ou de sua família. Esta vem sendo a roda-viva que nos apavora, nos deprime, nos intimida.

Reconheçamos que tem havido também uma forte mudança de atitudes, de hábitos, de costumes que vêm gerando deterioração do ambiente familiar. Sem nenhuma cerimônia andam se impondo, de mãos dadas, a impudícia, a corrupção generalizada, uma perversa injustiça social, um constante agravamento do tráfico de drogas, um forte sentimento de egocentrismo, uma inversão de valores em todos os níveis.

E muitos de nós vão se deixando contaminar por este clima geral de desajustes e desordens. Alguns julgam que ter uma arma o torna intocável pela violência, por exemplo. Ledo engano. Eles, sem nem perceber, acabam por incrementá-la, agravando situações, as menos expressivas, por se julgarem imbatíveis e com as leis nas próprias mãos. Isto faz, ter uma arma.

Muitos carregam consigo a violência, no olhar, no agir, no falar. É a violência personalizada que caminha ao nosso lado, nas ruas, por exemplo. E que ninguém me venha com panos quentes, porque aquilo que costumávamos colocar como exceção, hoje, quase está se tornando em regra, para muitos seres humanos, ou já desumanos.

Por outro lado, quando nossa esperança de um mundo melhor, partindo do próprio ser humano, parece querer se desvanecer, meu bom amigo Manuel dos Santos, de Portugal, que tanto tem colaborado com meu trabalho, mandando-me importantes matérias da imprensa européia, agora me enviou mensagem com estas palavras: “Como o mundo é belo! Fotografei esta maravilha num jardim público de Córdoba (Espanha). Emociono-me toda vez que olho para ela.”

Anexo me chegou a foto, por ele feita, de uma linda rosa vermelha. Quantos de nós ainda param para olhar um jardim, para curtir a beleza de um pôr-do-sol, para corresponder ao sorriso de uma criança, para relaxar com a visão grandiosa e ao mesmo tempo poética do mar? Não temos tempo, estamos quase sempre com pressa, muita pressa, ou então com medo, muito medo. E assim acabamos também deixando passar a vida, pois o tempo, este nunca olha para trás.

Mas, meu bom amigo Manuel comoveu-se diante de uma rosa, sem perder sua capacidade de indignação ante os que pisam nas flores, torturam, matam, escravizam, até pela fé. Acredito assim que o mundo ainda pode escapar do poderio destrutivo dos homens, dizem que feitos à imagem e semelhança de Deus, mas a se comportar como o pior, o mais feroz, o mais satânico dos belzebus. Amigo, obrigado pela rosa.

 

Leia, ainda, nesta edição: PODEM ME VAIAR

 

(11 de junho/2004)
CooJornal no 372


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br