11/06/2004
Número 572

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

PODEM ME VAIAR

Amigos, prometo que darei todos os motivos para que vocês me presenteiem com uma estrondosa vaia. Eu fui e continuo a ser um idiota, bobo, tolo, fraco, imbecil completo. Modéstia à parte, claro. Então, preparem alguns ovos e /ou tomates, mas vejam que estejam estragados, hein, afinal nossa vida não anda nada fácil como nos quer fazer crer a “malan filosofia” do planalto.

Eu venho de um tempo bem depois da extinção dos dinossauros, para aquém da aventura heróica do Noé que salvou tantos animais para que os homens pudessem depois se divertir e vestir-se melhor, extinguindo-os. Não cheguei a assistir Roma pegando fogo, pois nasci bem depois de Nero, mas a tempo de ver Roma se curvar ao Falcão.

Sou antigo, mas menos que a corrupção e a hipocrisia reinantes desde que o Sr. Cabral fincou seus lusitanos pés nas lindas praias onde hoje se chama Porto Seguro ( e hoje haja praia para tantos pés no verão por lá). Mas, o fato é que sou velho, conservado, mas não iludido.

No tempo do qual eu vim a grande maioria das famílias tinha a educação como prioridade, não só para as crianças, não. Faziam questão de que nós, os filhos e netos, tratássemos nossos pais, avós, tios, e mesmo vizinhos e visitas por “senhor”, “senhora”. Nos obrigavam a dizer sempre “por favor” e a tomar a bênção dos mais velhos.

Tinha sempre alguém pronto a nos dar conselhos, a dizer : “sabe, quando eu tinha a sua idade…” etc. E eu, bobo, tolo, idiota, ouvia com atenção, seguia alguns conselhos e imitava alguns exemplos que os tais, mais velhos, insistiam em nos dar.

Sabem que eu, mesmo fazendo uma ou outra travessura de criança, jamais respondi mal, ou ofendi, ou levantei a mão para meus pais ou avós? Nunca falei palavrão na presença de garotas, é verdade. Às meninas eu dava atenção, carinho na esperança de a eventualidade me oferecer algum novo namorico.

Estão começando a acreditar que eu era mesmo um idiota, um paspalhão? Pois bem, tem mais. Como fui crescendo um parvo submisso, meu idiotismo se desenvolvia a grande.

Mas um dia me rebelei. À mesa, num jantar, soltei minha revolta há tanto tempo contida liderada por uma coragem que até hoje não sei de onde surgiu. Gente, tomei uma surra de cinto do meu avô. E o coroa me adorava. Eu era o primeiro neto de uma fila de mais 9 que mamãe e papai, não tendo tv nem computador, mas muita disposição, foram procriando nas caladas das horas mortas enquanto este imbecil sonhava com os anjos.

Aquela foi a única surra que tomei. Meus pais eram visceralmente contra a violência e meu avô também, naquela noite porém contam que eu passei dos limites. Meu avô até chorou depois, arrependido. Pensam que eu fugi de casa, fiz cara feia para meu avô, revidei com palavras malcriadas de desforra ou ímpetos de represália? Qual nada, este covarde ainda prometeu não fazer de novo. Nem ao menos repetir um ano na Escola, ficar para segunda época (isto feria e muito o orgulho de meus pais), quanta incompetência!

Nem consegui ficar “abalado psicologicamente” ou adquiri um desses traumas juvenis tão comuns hoje em dia. Se conseguisse teria ido à forra fazendo meus pais gastarem algum com um psicólogo ou um especialista em pedologia. Ora, mas eu nem exigia uma mesada!

Querem mais? Vão preparando os ovos e os tomates. Este adolescente-canastrão, este jovem-logro ainda por cima foi trabalhar, cumprir horário, ter patrão, isto aos 17 anos e por iniciativa própria, usando mal sua energia e não sabendo usufruir da situação econômico-financeira privilegiada de sua família.

Bolas, como fui burro e essa contrição não prova que me curei, que sarei da imbecilidade de ser um filho exemplar, da parvoíce de nutrir hábitos sadios, da necedade de um inepto que nem foi capaz de se impor como um autêntico “aborrescente” desses tempos modernos. Não passei de um paspalho adomado.

Como invejo o desprendimento, a ousadia, a intrepidez de parte dessa juventude dos novos tempos e da forma como impõem suas idéias, seus desejos e princípios, atropelando conselhos e posturas que julgam ultrapassados e fora de moda.

É isso aí gente, apesar de tudo que digo aqui continuo escravo dos velhos hábitos que meus pais e meus professores plantaram em minha educação, moldando este meu caráter e esta personalidade que, por alguns critérios atuais, revelam minha incurável parvoeira.

Realmente não tenho mais jeito, custei muito a acordar e agora tenho que carregar este fardo de tratar por senhor ou senhora pessoas que, mesmo não sendo idosas, minha psique está condicionada a lhes dispensar tanto respeito.

E é “por favor” aqui, “com licença” acolá, “sua bênção” mais adiante, que me percebo um total fracassado dos tempos modernos. Não tive forças para reagir, não sirvo de exemplo, assumo-me como um pústula da educação vigente, um espantalho para os modos atuais, um triste e perigoso cancro em certos relacionamentos familiares que nos rodeiam.

Claro que não evidenciam uma regra geral mas, são tantas as exceções a esta, que quase definem um padrão a modelar novas regras. E eu não aprendi nada de novo com elas. Por isso eu mereço. Vamos lá, podem me vaiar.
(janeiro 2001)

 


(11 de junho/2004)
CooJornal no 372


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br