18/06/2004
Número - 373
 

          

Francisco Simões

 

CÚPULA OU CÓPULA?

E aconteceu mais uma reunião, de tantas outras já realizadas, do chamado G-8. Sabem quem são eles, não sabem? Pois é, segundo a pauta de suas cimeiras, eles deveriam se preocupar e arrumar soluções para os imensos problemas daqueles que eles classificam, sem nenhum preconceito, claro, de “o resto do mundo”.

Eles são apenas 8, os 7 países mais ricos do mundo e a Rússia, recém convidada. Do outro lado desta linha divisória, situam-se, sei lá quantos, mas garanto que são dezenas de nações, a grande maioria à mercê daqueles senhores, alguns que já foram, no passado, por eles explorados, esbulhados, espoliados, enfim, “colonizados” em todos os sentidos. Muitos ainda hoje o são, com ou sem a tal de “globalização”...

Quando os 8 se reúnem, seja onde for, ocorrem sempre inúmeras e gigantescas manifestações contra eles. As pessoas os xingam, os malham de toda forma, pedem que voltem para casa, os chamam de tudo que não presta. Pensam que eles se importam? Ora, o ruído nem chega até onde se reúnem, podem crer.

Mas, por outro lado, não será injusto não quererem conceder àqueles poucos senhores o direito de tomarem litros de uísque e muitas garrafas de vinhos franceses da melhor qualidade, enquanto se debruçam sobre os problemas dos mais pobres e indefesos do mundo? Queriam o que, que eles ficassem a comer brioches enquanto se preocupam com o destino dos países mais pobres, muito pobres e miseráveis mesmo?

É verdade que pouco ou quase nada se tem aproveitado dessas chamadas “reuniões de cúpula”, a não ser a oportunidade que eles têm de se reencontrar, de se banquetear, comendo e bebendo lautamente, e deixando para a sobremesa a verdadeira pauta que, às vezes até por falta de tempo e de disposição, acaba afogada na calda de pêssegos, de figos reais, de morangos silvestres, etc.

Os que protestam do lado de fora, com grandes e barulhentas manifestações, geralmente não são esquecidos, pois sempre lhes mandam servir cassetadas a granel, gás lacrimogêneo temperado com pimenta, pataços com ferraduras douradas, etc.

Alguns são detidos porque afinal exageram na agressão à polícia, lógico. Esta, coitada, armada apenas até os dentes, cabeça, peito, costas, mãos, pernas, com a cobertura de tanques ou carros que lançam fortes jatos de água nos arruaceiros. Já estes, violentos, atiram perigosas pedras contra a força policial! Um absurdo.

Pois houve mais uma reunião do G-8 recentemente. Até a escolha do local mostra como, mesmo eles se desentendendo quanto a um ou outro tema, sobra sempre uma solidariedade para dar força a um dos amigos do Grupo, claro. Esta nova cimeira foi, não sei se apenas por coincidência (e eu aqui a maldar, ora...), numa cidade americana. Perceberam a sutileza, ou não? Não me digam que não, por favor?!

Assim, como a pesquisa para as eleições não está nada favorável, o da casa pode mostrar ao “resto do mundo” que em política externa, apesar de tudo (e botem tudo nisso, amigos, ufa...), das críticas acirradas, ele, pois ele mesmo, ainda goza de muito prestígio. Isto é o que se chama, da parte dos outros 7, do G-8, de cínica e despudorada solidariedade. E nós ficamos aqui a acreditar no que uns e outros disseram contra as guerras recentes, os crimes de guerra, estupros, torturas etc.

Segundo notícias advindas de Savannah, EUA, onde se realizou a tal cimeira, “Dirigentes do G-8 chegaram a um acordo para anistiar parte ''substancial'' da dívida iraquiana de US$ 120 bilhões.” E este tal “acordo” não foi tão tranqüilo quanto possa parecer, não senhor. Houve reações várias, cada um querendo ceder menos. Pois é.

Curioso, invadem o país numa decisão unilateral, usando pretextos depois provados que mentirosos, torpes, com a senhora ONU lavando as mãos solenemente, causam uma imensa destruição por todo o território do Iraque, matam, prendem, estupram, torturam, e relutam em sair de lá, (que se dane a antigamente respeitada autodeterminação dos povos...) e ainda devem achar que estão sendo magnânimos!!

Por favor, sem mais aquela de que o objetivo era retirar do poder um ditador cruel, sangüinário etc e tal. Cansei de conversa fiada. Sadam foi, era e ainda deve ser tudo aquilo sim, mas não agora, não uma descoberta recente. Ele agiu da forma mais covarde, mais abjeta, mais criminosa, justamente quando era amigo dos senhores mais poderosos deste G-8, e deles recebeu armas de toda espécie, além de um mal disfarçado “perdão” quando suas tropas eliminaram muitos dos curdos, justo com armas químicas... E estas, ele as recebeu de quem?!

E outra notícia daquela cimeira afirmou: “Os líderes do G-8 - os sete países mais industrializados do mundo e a Rússia - já estão perto de fechar um acordo sobre um plano para impedir a proliferação de armas nucleares, segundo revelou uma alta autoridade do governo americano.”

Mas como? Se o próprio governo americano, historicamente, virou às costas e se recusa a deixar fazerem inspeções em seu arsenal nuclear? Se romperam tratados, cuspiram no Tribunal Penal Internacional, se recusaram a assinar o Acordo de Kiotto, sobre a defesa do meio ambiente? Pensam que enganam a quem? Talvez a muitos desatentos eleitores americanos, aí sim eu entendo. Eleições à vista!

Essa lenga-lenga de impedir proliferação de armas nucleares, roda, roda, volta às manchetes, aos discursos, mas não se iludam, não passam de “boas intenções”. Eles sequer têm controle de tantas dessas armas, que andam por aí em mãos criminosas, desde que a União Soviética faliu!! É só ter memória.

Enquanto isso, a “preocupação” com os países mais pobres, terceiro mundo, miseráveis, à míngua de tudo, certamente nem constou da pauta. Daí eu perguntar: Essa foi uma reunião de cúpula ou de cópula?? E nós, oh..... Santa hipocrisia!

Mas não vou terminar este texto sem apresentar-lhes alguns parágrafos que retirei da matéria da jornalista portuguesa Maria João Guimarães, de 10.06.2004, publicada no jornal “O Público”. Por favor, leiam:
“Centenas de crianças começaram a já sentir os efeitos da falta de comida na região do Darfur, no Sudão. Ontem, um menino de dois anos, Ikram, foi enterrado num campo da região. A correspondente da BBC no local diz que no mesmo campo há 400 crianças que já não conseguem comer.
No dia do funeral de Ikam, a mãe de Joseph, da mesma idade, tentava fazê-lo engolir algum alimento. Mas Joseph não conseguia manter nada no estômago há dias. Já nem sequer tentava levar à boca qualquer pedaço de comida, conta a repórter da BBC, Hilary Anderson. A mãe sentava-se ao pé dele, mas já nada podia fazer.
E centenas de crianças estão na mesma situação. As suas famílias foram parar ao campo depois de fugirem de milicianos árabes pró-governo de Cartum, acusadas de forçarem os africanos negros para fora das suas terras. As viagens até aos campos duravam muitas vezes dias, dias sem comida. A mãe de Adam, nove meses, conta que caminhou durante dez dias, sem comer, para chegar ao campo. "Estavam a queimar a aldeia. Estavam a queimar as crianças", contou. O mesmo repetiu-se de aldeia em aldeia; os campos estão cheios de pessoas; a comida não é suficiente.
Na semana passada, um responsável da USAID, a agência norte-americana encarregada da ajuda humanitária, tinha afirmado que mesmo com o envio imediato de ajuda poderiam morrer até um terço de milhão de pessoas. "Se não chegar essa ajuda, poderemos perder um milhão".

Sem mais comentários.


 

(18 de junho/2004)
CooJornal no 373


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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