18/06/2004
Número - 373
 

          

Francisco Simões

 

SENSIBILIDADE CANINA

Há exatos dois anos eu escrevi a crônica “Amigo pra cachorro”. Falava de um cão vira-lata que surgira em nosso condomínio, aqui em Cabo Frio, viveu em nossa comunidade por muitos anos e que daqui só saiu para morrer.

Seu nome era “Branquinho”. Todos os moradores se afeiçoaram a ele e pode-se dizer que o adotaram. Uma história comovente que gerou muitos comentários emocionados.

Aquele cão só faltava mesmo falar, pois até dançar com as pessoas ele dançava. Às vezes parecia ler e entender nossos pensamentos. Quem quiser se lembrar de Branquinho, ou conhecer sua trajetória de vida em nosso condomínio, pode ler a crônica inclusive no meu site pessoal.

Já li e ouvi dizerem que várias raças de animais têm o dom da clarividência bem desenvolvido. São dotados de uma visão particularmente especial que nós, seres humanos, não temos. Por exemplo, enxergar objetos e/ou pessoas em outras freqüências que nossos olhos não podem alcançar pelas limitações do nosso viver neste plano chamado físico. Entre esses dizem se incluírem os cães e os gatos.

Todavia, por que eu volto a escrever sobre a raça canina? Discordâncias à parte, porque tenho uma afeição muito grande por cães, assim como por cavalos, o que herdei de meu avô Simões. Por outro lado, sou dos que consideram que o cão seja mesmo o maior amigo do homem. Há inúmeros exemplos que comprovam esta tese.

Mas, quero mesmo é chegar em Sacha, uma cachorrinha da raça poodle, de pêlo branco, pertencente à minha vizinha do outro lado da rua privativa de nosso condomínio. Ela é uma graça, carinhosa, e adora agradar as pessoas que a tratam bem, mas tem um certo horror por crianças, facilmente explicável.

Ocorre que meu afilhado, Yuri, desde bem pequeno, hoje com nove anos, neto desta vizinha, tinha o hábito de colocar Sacha na coleira e submetê-la à verdadeira tortura de correr junto com ele pela rua. A coitadinha reclamava, tentava se livrar daquilo, mas não conseguia. Toda vez que ela o via tratava de se esconder embaixo de algum móvel.

Yuri, por seu lado, adorava botar medo na coitadinha, só por brincadeira, e dava boas risadas quando a via fugir dele, assustada. Minha esposa, no entanto, tinha um carinho grande por Sacha. Esta, quando a via, logo corria em sua direção. Às vezes vinha até perto da porta de nossa sala e ficava aguardando o aparecimento de Zezé.

Se esta lhe colocava a coleira ela não se importava, pelo contrário. Explico: Sacha sempre ficou muito presa dentro de casa, raramente tinha chance de ir à rua. Ela sabia que quando minha esposa lhe punha a coleira é porque iria levá-la a passear um pouco, geralmente pelas ruas próximas ao condomínio.

O passeio era tranqüilo e minha esposa sempre respeitava os desejos de Sacha quando esta parava, fosse para o que fosse. A caminhada era retomada só quando a cadelinha assim desejava. As duas se entendiam perfeitamente bem.

Na primeira vez que vim passar umas semanas em Cabo Frio, após a partida de Zezé deste nosso plano físico, ocorreu algo que me comoveu por demais. Eu abrira o portão da garagem e saíra com a mangueira para regar as flores do jardim. Sacha estava deitada na calçada da casa de minha vizinha em frente.

Ao me ver, ela imediatamente levantou-se e correu, mas na direção da porta social de nossa casa. Brinquei com ela, mas Sacha me olhava apenas muito rapidamente e logo voltava seus olhos para nossa porta. Deitou-se no pequeno degrau de subida e a fitava como que a esperar que a mesma se abrisse a qualquer momento.

Ela não sabia, com certeza, do que acontecera com minha esposa, pelo menos o bom senso assim me afirmava. Continuei a molhar as plantas enquanto que Sacha permanecia imóvel com seu olhar fixo na porta de nossa casa. Seu rabinho, agitado, denunciava um certo sentimento de ansiedade.

Ocorre que era comum, antes, Zezé sair por ali, quando eu me punha a regar o jardim. Estaria ela se lembrando deste fato? Haviam se passado muitos meses que não voltáramos a Cabo Frio face ao estado de saúde de minha esposa. Um longo período, mas não suficiente para apagar da memória de Sacha a imagem da boa amiga e de algumas de suas rotinas.

Fiquei com meu coração ainda mais apertado ao ver aquela cena. Senti pena da cachorrinha a quem eu não poderia, nem saberia como explicar o que se passava. A emoção foi muito forte e vocês hão de me dar razão. Sacha não desistia de esperar que a sua boa amiga aparecesse a qualquer momento. A saudade estava acumulada em seu pequenino coração. Esta cena se repetiu mais umas duas vezes.

Na noite de Natal, Sacha protagonizou uma cena de ciúme curiosa. Eu estava na casa da minha vizinha, a Marly, dona de Sacha, como fizera antes, durante anos, junto com Zezé. A cachorrinha estava acostumada a sentar-se sempre no colo de minha esposa em busca de carinho. Desta feita, estando eu sozinho, foi Kiki quem se aproximou de mim, outra cadela pequenina da raça yorkshire, pertencente à Vânia, mãe do Yuri.

Enquanto eu acariciava os pelos de Kiki, Sacha apareceu e, ao ver aquela cena, rosnou “ameaçadoramente”. Fiz-lhe um sinal e ela alojou-se no sofá, do meu lado esquerdo, oposto ao que estava Kiki. Dividi então o meu carinho entre as duas, mas percebi que Sacha olhava insistentemente na direção de Kiki, como que a querer ter a minha atenção somente para ela.

Nunca antes eu merecera tanto prestígio da parte de Sacha. Será que, para além da minha presença física, ela percebia alguém mais junto a mim, em outra dimensão?!

(Fevereiro / 2004)

(18 de junho/2004)
CooJornal no 373


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br