25/06/2004
Número - 374

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SER OU NÃO SER?

O que sou, o que somos afinal, agora? Nosso sol se apagou mas a vida continua. Somos sobreviventes de uma decisão paralela do destino que a ninguém consulta e que jamais pode ser contestado? Será isso?

Seremos o silêncio da voz que a sina calou? Seremos talvez a sombra solitária à procura da vida ceifada em pleno esplendor? Ou quem sabe o verso que perdeu a rima, ou a poesia desencantada com o sentido do belo que o vulgarismo desvirtuou?

O que sou, o que somos afinal, agora? Deveremos carregar a cruz da saudade levando conosco o conformismo sem o direito de questionarmos regras, valores e dogmas pré estabelecidos? Será isso a maturação do espírito? Calar e viver é a ordem da prudência, do bom senso, da felicidade? Não soa meio autoritário?

Aí nos dizem: “Enquanto estás vivo, sente-te vivo.” Ou então: “Não vivas de fotos amareladas”. Estas são palavras atribuídas à Madre Teresa de Calcutá que recebi de um amigo. Claro que o sentido dessas palavras é mais amplo que nossa angústia particular, que nossa mágoa íntima, mas no que a ela se pretende aplicar, esta não pode contrariar as afirmações acima? Não teria o direito mínimo de contestá-las?

Palavras que consolam visam a dar lenitivo, mitigar certas dores, certos sofrimentos. Nós as usamos socorrendo pessoas queridas, e comumente também as auto aplicamos. Palavras que consolam funcionam como certos livros de auto ajuda. Estes, todavia, a mim, pelo menos, não convencem. Não gosto deles. Iludem mais do que ajudam. Tentam nos anular no direito de buscarmos explicações por nós mesmos.

Sob certos aspectos, nossas dúvidas, nossos questionamentos, carregam apenas o anseio do encontro com a verdade, sem mistificação, sem disfarces, sem máscaras. Mergulhamos em meditação sem contemplar o que esteja escrito. Damos asas à nossa mente e a deixamos vagar sem rédeas, sem amarras, sem grilhões. Aceitar por aceitar, além de simplório, é negar uma das virtudes da natureza humana.

A fé que cobra a obediência cega, a crença conformista, trabalha na contramão do desenvolvimento, do crescimento do ser humano em todos os aspectos, assim penso. Quantos não matam em nome de um deus em que crêem cegamente? Quantos não agradecem ao seu deus o lhes ter permitido mutilar e assassinar milhares de inocentes numa guerra santa ou numa vingança cruenta, tantas vezes mentirosa e hipócrita?

Se nos julgamos muito distantes daqueles a que minhas palavras se referem acima é porque não queremos ver. Quantas vezes já aplaudimos e justificamos atos incompatíveis com os ensinamentos desta ou daquela doutrina que professamos? Quantas vezes “pecamos por palavras ou obras”, apoiados em que o “arrependimento” posterior sempre nos purifica pelo perdão?

Não, eu não fugi do assunto, ao contrário, cerquei-o por vários lados, assim creio. Afinal é comum dizermo-nos fiéis quando a infidelidade de pensamentos, palavras e obras é tão comum em nosso viver diário. Todavia temos a nossa fé, não temos? A professamos, não? Percebemo-nos crentes e almejamos a salvação, certo? Mas, lembramos de fazer um exame de consciência, digamos, diário? É um ótimo exercício.

Então retorno à pergunta inicial: O que sou, o que somos afinal agora? Nosso sol se apagou, mas a vida continua. Bastará prosseguir vivendo? Só isso? Carregando nossa solidária saudade, nossa solitária amizade por tantos sóis e tantas luas até que o tempo em nós também desabe?

Olhar para a frente abandonando às nossas costas a felicidade e também um certo rastro de sofrimento? Ignorar e seguir, seriam estas então as “sábias” palavras de ordem? O viver justifica, só para sermos felizes? O que diremos às nossas consciências? Não as carregamos conosco mesmo após termos partido desta vida?

Podem as dores, os infortúnios, as amarguras serem todas colocadas na mesma medida? Existiria uma regra geral enquadrando todos os sofrimentos do mundo? Egoísmo não seria fugir dos sentimentos mais doídos agarrando-se no agora como uma tábua de salvação? É isto ser feliz, depois? Lançamos o antes ao ostracismo, reescrevemos nossa história, e viva a vida?

Pode até ser, quem sabe, talvez seja sim, mas com certeza não devemos atirar ao mesmo saco todas as emoções humanas. Nos tirariam até o livre arbítrio da decisão de como conduzir nossas vidas no depois, até porque cada um há de ter a sua maneira pessoal de amar, de sentir, de se expressar, de manifestar sua dor e conviver com ela.

Confesso não sentir simpatia por fórmulas feitas, por decisões superiores que não me permitem argumentar ou indagar, venham de onde vierem, por condenações à revelia de um julgamento, enfim, por serem ditados comportamentos à luz de exemplos que nem sequer provam-se verdadeiros. Talvez eu esteja aqui a bancar o São Tomé, pois então que seja.

Esta é a minha opinião, fruto de muitas reflexões. Tenho tido tempo e motivação para isso. Respeito as opiniões em contrário.

(Outubro / 2003)


(25 de junho/2004)
CooJornal nº 374


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br