25/06/2004
Número - 374

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SAUDADES DA GAROTA DE IPANEMA

Eu amo o Rio de Janeiro. Escolhi para viver lá desde abril/1960. A maior parte do tempo morei no bairro de Ipanema, onde ainda vivo, agora, porém, muito menos do que antes. Desde que fiquei viúvo optei por estar a maior parte do meu viver nesta querida Cabo Frio. Vou ao Rio eventualmente resolver assuntos pessoais e volto logo.

Nas minhas pequenas estadas em Ipanema já contei alguns episódios em textos divulgados nesta internet. Se houve momentos alegres, infelizmente não pude fugir daqueles que hoje temos que aceitar pela realidade que os governos permitiram fosse implantada na, sempre eterna, Cidade Maravilhosa, apesar deles.

Recentemente, ao passar duas semanas no Rio, logo no primeiro dia em que fui às ruas, à tarde, resolver vários assuntos pessoais, além de passar na maior papelaria do bairro e visitar duas de suas livrarias, também paramos para um lanche rápido na Casa das Empadas. Recomendo.

Já havia escurecido quando iniciamos o retorno à casa. Eram 18:30 horas. D. Marlene, minha dama de companhia, lembrou que precisava comprar algo no supermercado. Pedi que fosse sozinha e decidi descansar um pouco as pernas em um dos bancos à porta do estabelecimento. Sentei-me ao lado de uma senhora e peguei meu celular a fim de fazer uma ligação para um amigo.

De imediato a senhora me perguntou: --“O senhor vai usar o celular?” Era tão evidente que nem coube minha confirmação. Insistiu a senhora: --“Cuidado, meu senhor, muito cuidado.” Fiz aquela cara de quem ouviu mas não entendeu. --“Sabe o que estou fazendo aqui? Estou esperando o meu filho. Ele vem me pegar às 19 horas.”

Faltavam 15 minutos e eu continuava não entendendo absolutamente nada que vinha das palavras da boa senhora. Perguntei o que se passava com ela, a esta altura já guardando o meu celular e desistindo da ligação. Prosseguiu ela: --“Meu filho vai me levar para a casa dele, vou dormir lá e depois ver como resolver os problemas que me foram criados hoje no assalto de que fui vítima aqui em Ipanema.”

Bem, ser assaltado no Rio, hoje em dia, com todo o respeito, não é privilégio de ninguém. Eu mesmo já o fui, fora algumas ameaças. Minha curiosidade aumentava para ouvir a história daquela senhora: --“Imagine, meu senhor, que, de repente, fui abordada por algumas pessoas que me levaram o celular, dinheiro, documentos, tudo que puderam. Foi tudo muito rápido. Não havia nenhum policial por perto.” Bem, se houvesse, aí é que ficaria difícil de crer naquela história, eu que o diga...

E a senhora continuou: --“Eu não ofereci resistência, mas tomei um susto imenso pois nunca se sabe o que podem fazer com a gente nessas ocasiões. Quando me recuperei fui até à delegacia mais próxima registrar o ocorrido. Outro sofrimento, fiquei lá por horas sem sequer me darem atenção. Desrespeito total e ainda nos olham como se nós fôssemos o marginal, um absurdo.”

Ocorreu-me fazer uma pergunta à senhora: --“Desculpe, mas, quantos homens eram, no seu assalto, ou eram menores?” E ela respondeu de pronto: --“ Não amigo, não eram homens, eram só mulheres, todas mulheres...” Foi o primeiro relato que eu ouvi envolvendo apenas o sexo e as armas femininas numa abordagem daquelas.

Depois, relembrando o fato, comecei a sentir saudade da Garota de Ipanema. Daquela que despertou tão fortes sentimentos de amor e de desejo em Vinicius e Jobim. E não apenas neles dois, é claro. Ela ainda vive e continua muito bonita na excelência de sua maturidade. Maturidade que é quase eterna, não importa o tempo, pois até este se rende à sua beleza, ao seu charme, ao seu esplendor.

Mas, Ipanema sempre teve não uma, porém muitas garotas que mereciam o mesmo destaque, e quantas. Garotas tão lindas, tão cheias de graça, andando no doce balanço das ondas do mar, como as descreveu nosso saudoso poetinha Vinicius de Moraes, através da musa maior que acabou por se eternizar realmente como a Garota de Ipanema. Nas areias da praia elas reinavam soberanamente e não precisavam fugir de “trombadinhas”, nem temer arrastões, ou mesmo balas perdidas.

Garotas de Ipanema, por outro lado, que não competiam com os homens, por exemplo, em fisiculturismo. Que não precisavam ouvir nem proferiam tantas palavras de gosto bem duvidoso, ao balizar-se pelo calão das mesmas, como tem sido comum presenciar-se, ao se estar na praia. Rotular isto de modernismo é contentar-se com uma degradação de costumes que segue vários caminhos e chega até à violência atual.

Claro que as garotas de Ipanema exibem, e sempre exibirão, uma beleza dificilmente superada em qualquer parte do mundo. A mulher brasileira, de uma forma geral, assim é vista por quem sabe distinguir o belo, do apenas bonito, ou do gracioso, ainda que lhes queiram imputar “duas polegadas a mais”, como fizeram com a deslumbrante Marta Rocha.

Mas, saber que aquela senhora foi abordada e assaltada por um grupo de mulheres, em Ipanema... meu Deus! Nos anos 60 eu costumava, após o jantar, dar um giro pelas ruas próximas, com minha esposa. Não havia medo nas ruas. Hoje invadem prédios, em Ipanema, escolhem vários apartamentos, fazem “o serviço” e ainda levam “emprestado” um ou dois carros de moradores. Em Ipanema, sem Tom nem Vinicius.

Seriam mesmo garotas de Ipanema que assaltaram aquela dama indefesa em horário comercial? Não importa, mas foi lá, na Ipanema que tanto amei e insisto em não querer mal, que o fato ocorreu. Talvez eu aqui não estivesse a contar-lhes isto se aquele sujeito, há cerca de 3 meses passados, na Vieira Souto, em frente ao mar, tivesse me agredido com a barra de ferro que segurava, conforme ameaçou. Felizmente desistiu. Eu apenas fazia minha caminhada num lindo sábado de sol!!

Aquela senhora não haveria de ser a única pessoa, naquele dia, a passar por uma experiência da violência consentida e não policiada. Matematicamente impossível.

 

(25 de junho/2004)
CooJornal no 374


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br