02/07/2004
Número - 375

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS...

Acredito não haver quem não conheça este velho ditado: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Aliás, ele tem muito boa aplicação na política, de uma maneira geral, e na brasileira, em particular e com total propriedade. Se não vejamos.

Os grupos partidários que se encontram na oposição, ao fazerem suas críticas aos que detêm o poder, sempre apresentam, às vezes até com certo estardalhaço, soluções para vários dos problemas que o governo não consegue ou não se empenha em resolver.

Ainda que esses mesmos grupos tenham acabado de ser despejados do poder pelo voto popular e justamente por não terem feito reformas prometidas, por não terem conseguido encaminhar o assunto do salário mínimo, por exemplo, para elevá-lo a patamares menos indignos, por terem deixado permanecer a imensa situação de injustiça social, por ficarem indiferentes ao desemprego, etc e tal.

Igualmente aqueles que passaram longo tempo na oposição, que foram sempre críticos ácidos do governo, na maioria das vezes com toda a razão, verdugos incansáveis, carregando sempre bandeiras e soluções para a incompetência, ou o desinteresse dos governistas, por eles criticados, quando sentam no trono do poder parece que se revelam camaleões, ou como define o dicionário: “Indivíduos que adaptam sua opinião ao interesse do momento.” É quando a pimenta começa a arder...

Por isso considero por demais ridículo, ver e ouvir hoje a malta do PFL e do PSDB, especialmente esses, exercendo uma oposição intransigente, radical, condenando atitudes, ou falta delas, que não alcançam a solução de promessas feitas por Lula, quando candidato, embora esteja apenas com um ano e meio de governo.

Falam com aquela postura como se tivessem autoridade para tanto, fazendo de conta que não se lembram que o governo que apoiaram também fez promessas idênticas e não as concretizou. E teve 8 anos para tanto. Aliás, não obstante os dois mandatos, viraram as costas para a maioria das propostas que ajudaram a reelegê-los.

Por outro lado, tão ridículo, tão grotesco, são também aqueles que exerceram longa e atuante oposição, que cativaram a opinião pública, que reacenderam sua esperança, que finalmente alcançaram seu objetivo maior: chegar ao poder. Mas, e agora Luís? (Com licença do mestre Drummond)

Somos obrigados a ver os atuais governantes valerem-se dos mesmos argumentos, até com as mesmas palavras, que tanto usaram seus antecessores para justificar isto e aquilo que prometeram e também não se empenham, ou não conseguem cumprir. O mesmo sorriso masturbado vejo agora em rostos que antes me despertaram confiança, competência, sinceridade, seriedade, e me fizeram lhes conceder meu voto, não uma, mas várias vezes, desde o Collor.

Eu e milhões de brasileiros que votamos em Lula não mudamos, pelo contrário, ainda aguardamos com aquela ponta de uma esperança teimosa e resistente que não tenhamos, mais uma vez, sido induzidos ao erro ao votar. Traição é algo indigno, revoltante, repulsivo. Que o tempo reverta este sentimento que começa a pairar sobre nossa ansiedade, nossa expectativa, nosso anseio de ver um Brasil melhor. Mas, não vamos fechar nossos olhos, nem calar nossa voz, muito menos aceitar patrulhamentos.

Os que agora discursam na oposição têm todo o direito à crítica, claro, só saibam que nem todos nós somos desprovidos de memória. Afinal alguns, como os da equipe do PFL, por exemplo, jamais estiveram fora do poder há anos, e, talvez por isso, por nem terem cacoete de opositores, pareçam mais grotescos na crítica do que outros. O que agora foi herdado, e os erros agora cometidos, são íntimos deles, com certeza.

Este espaço não comporta uma análise mais ampla, mas quero me referir hoje particularmente à não correção da Tabela do Imposto de Renda. Durante os primeiros 7 anos do mandato de FHC, este assalto à mão desarmada, e oficial, foi cometido. O PT, na oposição, criticou, denunciou, foi a nossa voz no Congresso. A maior vítima do que se cometia era a classe média, sempre ela, mas não só ela.

Qualquer correção salarial obtida por trabalhadores era logo consumida pelo insaciável anseio do governo em arrecadar mais, porém às custas do que nos levavam, sempre a mais, de forma injusta e mesmo ilegal. Somente no último ano de mandato de FHC foi efetuada uma pequena correção de 17%. A defasagem, segundo economistas, já alcançava os 40%. Vocês se lembram?

Nós acreditamos nos posicionamentos, nas propostas do PT e ajudamos a colocar Lula no poder. Os mesmos que criticaram severamente o governo passado agora também se recusam a cumprir a determinação legal que antes defendiam com ardor: corrigir a tabela do imposto de renda. Olha a pimenta nos olhos dos outros...

Desolador, decepcionante, para quem votou em Lula, como eu, é ter que ouvir agora o Sr. Luis Inácio valer-se dos mesmos argumentos, exaustivamente usados por FHC e sua equipe econômica, para justificar idêntica manobra, emboscados que fomos, por nossa boa fé, na palavra de promesseiros emergentes.

Igualmente os vejo comemorarem “aumentos sucessivos de arrecadação”, sendo que boa parte desta “arrecadação” tem outro nome, como já o tinha no governo anterior. Ela é fruto do sacrifício de boa parte da população que vem pagando impostos muito além do que seria devido. Isso me lembra uma palavra: usurpação, que o dicionário define também como “imposto excessivo”.

Outro dia um bom amigo, que também votou no PT, perguntou-me: “Diz-me cá, Simões, como é que com a renda salarial diminuindo; com o aumento do desemprego; com o aumento do trabalho informal; com o comércio vendendo menos; com as indústrias produzindo pouco; como é, amigo, que a arrecadação do governo pode aumentar? Se o governo ganha, quem está perdendo? Não é uma boa pergunta?” Claro que sim, e a resposta é óbvia, ora pois, amigo Manuel.

Encaixo aqui, porque não poderia deixar de fora também, a malfadada CPMF. Lembro-me do PT se empenhando para a derrubar, tentando pelos meios que tinha e que não tinha evitar que a transformassem em permanente, retirando-lhe definitivamente o rótulo mentiroso de provisória. Uma balela a mais da politicalha.

Bradavam que a CPMF era uma excrescência, que o governo não tinha o direito de a usar para aumentar a “arrecadação”. E era verdade. Seu objetivo foi totalmente distorcido desde a criação, todos sabemos, deu até demissão de Ministro da Saúde, lembram? Mas agora, com aquele nariz de bola, vermelho, temos que ver e ouvir os mesmos senhores, açambarcados no poder, dizerem que: “...não podemos governar sem a CPMF”!! E eu os tinha como minha derradeira esperança de o Brasil mudar!

E o FMI, antes um inimigo sempre na mira de severas críticas do PT, agora convive de beijos e abraços com aqueles senhores. Pior: segundo o noticiário desses dias, neste mês de junho, o governo já conseguiu condições de cumprir todos os compromissos assumidos com o mesmo FMI, até dezembro vindouro!! Fantástico!! Comemoraram, quanta competência, que magnífica “arrecadação”... mas, e o povo?! E aí Luís?

Pimenta nos olhos dos outros é mesmo refresco, porém arde muito mais na nossa desilusão, na nossa desesperança, já cansadas de tantas aleivosias, de tantas mentiras, de discursos sempre iguais que nos fazem crer que, atualmente, neste país, só conseguimos mudar os homens, mas o script político permanece o mesmo.

E dizem que o povo é que não sabe votar... Coitado do povo. Sem demagogia, mas com muita indignação.

 

Leia, ainda, nesta edição:  COISAS QUE INCOMODAM E A GENTE QUE SE DANE

 

(02 de julho/2004)
CooJornal no 375


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br