02/07/2004
Número - 375

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

COISAS QUE INCOMODAM E A GENTE QUE SE DANE

É comum vê-se guardas municipais e/ou PMs circulando pela rua Visconde de Pirajá, aqui em Ipanema. Não na quantidade desejada para nos livrarem de assaltos, mas alguns poucos pelo menos não nos abandonam totalmente. Desempenham o seu papel como podem. Quando um deles decide coordenar o trânsito, bom aí, sai de baixo!

Não bastasse o mau hábito de certos brasileiros de enfiar a mão na buzina de seus veículos por qualquer, ou sem nenhum motivo maior, nossos ouvidos, bombardeados por esses excessivos decibéis, ainda têm que suportar uma sobrecarga dos apitos que deram de usar policiais que se travestem de guardas de trânsito. Nossa Senhora dos Aflitos, como sopram forte, e repetidamente. Um barulho infernal.

No fundo, no fundo, como tenho dito, a educação, ou a falta dela, está mesmo na raiz da maioria dos males que nos afligem ou que provocamos. Os motoristas que imaginam “empurrar” o trânsito congestionado e lento, com sua buzina, e os guardas, que imaginam imponham autoridade com o exagero do uso de um apito ensurdecedor.

É comum, dependendo do dia e do humor dos policiais, vermos carros a serem multados, e bem punidos, por estacionarem em locais impróprios, por avanço de sinal, etc. Bom, isso na Visconde de Pirajá, ou em outras, transversais, mas longe de onde anda ou estaciona o poder econômico. Não pensem que já acabou aquela velha e surrada história do: “Sabe com quem está falando?”. Ledo engano, amigos.

Por exemplo, na esquina da Aníbal de Mendonça com a Barão da Torre existe há muitos anos um restaurante de alto estilo o “Esplanada Gril”. O nível social de seus freqüentadores pode ser aquilatado pelos belos e importados carros que estacionam à porta do mesmo. Ali só se vê Mercedez, Alfa Romeo, Ferrari, BMW e similares. Nada contra, muito pelo contrário, apenas gostaria que vigorassem, para eles, as mesmas leis de trânsito que são impostas aos demais e pobres mortais.

Passando por ali já vimos altas personalidades do nosso Congresso Nacional, empresários, diretores de emissoras de Tv (poderosas), industriais conhecidos, e muito mais. Os seguranças e manobristas de veículos, muito zelosos no seu afazer, procuram sempre manter os automóveis dos clientes na proximidade do estabelecimento. Muito nobre da parte deles, até porque a ordem superior deve ser nesse sentido.

Ocorre que ambas as artérias, sem os clientes do referido restaurante, já vivem habitualmente repletas de carros estacionados, colados uns nos outros. Então, o jeito é enfiar os veículos onde cabe e onde não deveria caber, como nas viradas das esquinas, pois que ali é proibido estacionar. Mas não para eles, evidentemente. Ou assim parece.

Desafio quem conseguir enxergar o meio-fio naquele lado daquela esquina. Nas calçadas ainda nos concedem a benevolência (rico é tão bonzinho...) de deixar uma trilha para os pedestres não terem que andar pelo asfalto. Aliás, nem sei do que reclamo, afinal nem nos cobram pelo privilégio de transitarmos por ali!!

Essa situação se repete sempre, todas as semanas, especialmente nas quintas e sextas-feiras, no horário de almoço. E perdura por horas. Pode-se até ver um policial passando lá em cima, pela Visconde, e multando motoristas estacionados em situações idênticas, mas ali, bom, ali eles nem passam, ou têm ordem de não passar. Afinal quem não vê... não multa, não é?

Ocorre que recentemente foi inaugurado outro restaurante luxuoso, o “Gero”. Querem saber onde ele está localizado? Ora, justamente na esquina seguinte a do outro, acima referido. Aquele está na esquina da Aníbal com a Barão da Torre, e este na Aníbal com a Redentor. Isto é, ficaram os dois no mesmo quarteirão, percebem? Nos dias críticos, quando há mais movimento na hora do almoço, agora é dose dupla.

Os veículos acabam por se amontoar e se misturar, mas só Mercedes, BMW, Ferrari, Alfa Romeo e similares. Se um fusca ousar se imiscuir naquela linhagem automobilística deverá ser trucidado sem piedade. Algo do tipo assim como vários pit-bull encarando um vira-lata. Boa parte do PIB nacional almoça naquele quarteirão.

Outro dia presenciamos um arrumar de carros que estava uma graça. Os veículos dos clientes de um restaurante estavam embolando com os do outro. Afinal não há tanto espaço para tanta importação sobre quatro rodas. Empurra para lá, empurra para cá, acabaram obstruindo a saída de garagem de um prédio vizinho. Mas os manobristas e os vigilantes estão sempre atentos e se houver necessidade removem temporariamente o carro obstrutivo e pronto, “no problem”. Gente fina é outra coisa. Nada contra.

E se no asfalto não cabe mais veículo, para que servem as calçadas? Para os pedestres transitarem? Bom, assim deveria ser, mas as “carruagens” de Sas. senhorias e excelências, de alta estirpe e irretocável linhagem, ali se implantam, sem cerimônia. Como diz um amigo meu, sempre de bom humor:, “Eles podem, e nós? Bem, nós, nos podemos...!” Quando podemos, porque a coisa está feia.

Pensam que acabou a história? Pois saibam que logo virando a esquina onde está o “Gero”, entrando na Redentor, há uma escola para miúdos, ou uma creche. Vê-se ali um desfile de lindos e lindas guris e gurias. Também alguns pais e mães famosos, do esporte, da TV, da política etc. Os horários de pico, quando pais, mães e alguns motoristas particulares, vão pegar as crianças à saída, ocorrem ali pelo meio-dia e também por volta das 18 horas.

Como chegam quase todos ao mesmo tempo, ou com pequeníssimos intervalos, e como a rua Redentor também está com a lotação de vagas esgotadas o dia inteiro, e todos os dias, com 2 manobristas a dividir áreas de atuação, e também como dois corpos sólidos não podem ocupar o mesmo espaço, quem adivinha a conseqüência? Garanto que o acerto foi por unanimidade.

Calçadas para que te quero. Filas duplas, e se necessário triplas, pois estacionar é preciso e todos querem ficar o mais próximo possível da creche. Não lhes tiro a razão, mas eles certamente não a darão a mim, ou a nós, pelos efeitos que causam.

Quem quer passar e não consegue, o que faz? Usa a buzina, não para divertir, como o fazia o velho e saudoso Chacrinha, mas para irritar quem já tem vários outros motivos para cultivar alguma úlcera nervosa, ou dores de cabeça, ou outros males desta maravilhosa e moderna civilização. Aleluia irmãos, e cresce o coro num buzinaço infernal como trombetas bastardas a reduzir a frangalhos a nossa paz.

Então retornamos ao policiamento do trânsito. E eles, onde estão nesses momentos? Porque não procuram organizar aquela desordem quase que oficializada por algum decreto? Talvez eu esteja querendo muito, exigindo demais, alguns costumam me dizer que a vida é assim mesmo, que o ser humano sempre foi assim, etc e tal.

Só que o meu inconformismo com certos tipos de abusos, ou excesso de limites, ou mal-uso de direitos que geralmente invadem os de seus semelhantes, não me aconselha a bancar o cego que não quer ver. Procuro não perder o bom humor, nem deixar esfumaçar-se a educação, a polidez, o estilo, mas, calar, isso nunca.

Talvez esteja a bradar num deserto de ouvidos moucos, eu sei. E moucos o devem ser por conveniência ou comodismo, mas um dia hão de acordar para um raiar de uma aurora educacional onde a individualidade se renda à coletividade e todos aprendamos que pertencer a uma sociedade é vivermos unidos pelo sentimento de consciência do grupo.

Quem sabe um dia passamos da teoria para a prática?!

( Março / 2003)

 

(02 de julho/2004)
CooJornal no 375


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br