16/07/2004
Número - 377

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

COISAS QUE INCOMODAM E A GENTE QUE ENGULA

Nesta série de textos sobre fatos que gosto de comentar e que realmente aconteceram, ou comigo ou que presenciei ou tomei conhecimento, hoje inicio por um que me deixou pasmo. Afinal quem esperaria, após ter procurado ser gentil, ajudando uma senhora de idade meio avançada, ouvir a seguir uma “reprimenda” da mesma?!

Estava eu esperando minha vez para retirar extrato de minha conta corrente numa agência do BB, aqui em Ipanema, na Visconde de Pirajá. A certa altura percebi que uma senhora, bem à minha frente, cutucava as teclas da máquina sem reparar que a quantia que pretendia sacar já estava à mostra na parte debaixo da mesma. Ela olhava para cima mas não para onde deveria.

Receei que se afastasse deixando ali seu dinheiro que poderia ser “recolhido” por algum amigo do alheio, digamos, inadvertidamente! Vocês duvidam? Ora, se algum tempo atrás, ali mesmo, roubaram-me um saco com uma dúzia de bananas, enquanto me distraí indo a outro terminal e deixando aquela mercadoria no que eu estava anteriormente, e isto por apenas pouco mais de um minuto! Então?

Mesmo assim relutei por alguns segundos mas acabei tocando-lhe levemente no braço e dizendo baixinho: “Minha senhora, seu dinheiro já está exposto aí embaixo há algum tempo.” Ela me agradeceu, contou as notas e se retirou do terminal. Aproximei-me do mesmo terminal e tratei de comandar a retirada do meu extrato.

Enquanto eu esperava a impressão do documento, eis a grande e inesperada surpresa. A referida senhora voltou, tocou em meu ombro e, com um tom de voz meio elevado, que chamou a atenção de outras pessoas presentes ali, passou a falar comigo como a me fazer uma advertência, ou a me dar uma lição de educação ou civilidade. Disse ela:

“Meu senhor, da próxima vez não me toque no braço que é feio e mal educado. Limite-se a falar comigo, ouviu?” Agora, amigos, por favor, parem e reflitam por alguns segundos para imaginar o que cada um de vocês diria àquela senhora de idade meio avançada! E vendo alguns olhos voltados para você, sem nada entender, porém já o reprovando! Certamente as reações seriam diferentes.

Bom, eu respirei fundo, voltei-me para ela e completei nosso “diálogo” sem querer parecer grosseiro ou mal educado, mas também sem deixar que fosse dela a última palavra, ainda mais da forma como se dirigiu a mim. Eu falei: “Se houver uma próxima vez, minha senhora, certamente eu pensarei duas vezes antes de ceder à “tentação” de ser cavalheiro e ajudá-la. Com licença.”

Peguei meu extrato e vi que ela permaneceu no saguão da agência a conversar com outra senhora, também de idade avançada. Teria sido esta sua amiga quem lhe fizera a cabeça para aquela reação estapafúrdia sem levar em conta o meu gesto que só pretendeu ajudá-la, sem estardalhaço, discretamente, evitando que “escorregasse na casca de banana” (sem alusão ao meu caso anterior) do dia-a-dia dessa cidade onde o desamor, a violência, a hipocrisia, o preconceito, viraram rotina?

É como costuma dizer o meu amigo português, o Zeca, meu vizinho, repetindo o Zeca, músico, que disse: “Quanto mais conheço os seres humanos mais eu gosto dos animais.” Eu também, e não admito controvérsias, com todo o respeito, ora pois.

Mudando de assunto, mas permanecendo na esfera das coisas que incomodam demais a gente, repararam que andam intensificando o que considero ser uma espécie de “spam telefônico”?

Diariamente ficam a ligar para minha casa fazendo ofertas que não me interessam. É uma companhia telefônica que não nos deixa sossegado a incomodar-nos com novos e “maravilhosos” recursos técnicos. É outra que insiste em saber se costumamos fazer ligações internacionais e passam a informar que suas tarifas são as melhores, etc e tal. Isto, além da carga de publicidade que espalham pela tv, rádios e jornais.

E de nada adianta dizermos que não queremos, visto que alguns dias depois retornam com o mesmo assunto e com a habitual insistência (ou será impertinência?!). Haja paciência!

Quando não é alguém de um determinado Banco, com voz meiga, que nos informa termos sido “selecionados”, entre muitos nomes, para a condição de “cliente especial”. E nem temos conta naquele Banco! Igualmente, mesmo que recusemos tão “gentil oferta”, com certeza menos de uma semana depois eles voltam com o mesmo assédio.

Assim agem também da parte de determinados órgãos de nossa imprensa a nos oferecer assinatura. O pior é que eu não me interesso, há muito tempo, por manter assinatura visto que estou sempre a mudar do Rio para Cabo Frio, e vice-versa, quando não estou viajando para longe.

Explico, argumento, mas fazem que não entendem e insistem até nos levar a desligar abruptamente, o que não me agrada, mas não me deixam outra alternativa.

Também costumam ligar dizendo pertencer a organizações que cuidam de crianças abandonadas, ou de pessoas idosas, etc. Solicitam a nossa contribuição para minorar o sofrimento daqueles seres, o que me parece normal e sei que eles têm mesmo que correr atrás de ajuda, pois só a sociedade é que mais contribui nesses casos.

No meu caso talvez isto ocorra porque há muito tempo participo mensalmente de duas organizações: o IBRM, que cuida de crianças com deficiência motora, no Andaraí, e a Associação Brasileira de Assistência aos Cancerosos, do Hospital Mário Kröeff. É natural que obtenham informações sobre pessoas que já participam dessas entidades e assim busquem nelas o apoio de que necessitam. Esses casos seriam, digamos assim, um tipo de “spam positivo”.

É claro que infelizmente temos todos limitações mesmo para essas contribuições e não podemos atender a quantos recorrem a nós diariamente. Importante se torna, também, checarmos as informações que nos passam, procurando conhecer bem as entidades antes de tomarmos a decisão de colaborar ou não com elas.

Digo isto porque lamentavelmente há pessoas que se valem da boa fé de outras e estão sempre prontas para tirar algum proveito, valendo-se de artifícios e nomes falsos. Antes não fosse assim, mas esta é a dura realidade em que vivemos.

Entretanto, quanto aos insistentes telefonemas que nos incomodam todos os dias, em sua esmagadora maioria constituindo-se num abuso, segundo minha visão, acredito que não haja qualquer tipo de “vacina” que nos livre deles. Mas, se alguém conhecer um remédio contra esses “spam telefônicos”, por favor, me informe.

(Agosto / 2003 )
 

(16 de julho/2004)
CooJornal no 377


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br