16/07/2004
Número - 377

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SE VOCÊ CONSEGUIR, EXPLIQUE

De há muito o nosso bom amigo Edinho, o “pau para toda obra”, como se costuma dizer, comentava comigo e com minha esposa: “Gente, esta casa de vocês tem mistérios insondáveis. Acontece cada uma...” Ele se referia à casa em que vivo aqui em Cabo Frio. Edinho repetiu aquela afirmação muitas vezes nos mais de 20 anos que o conheço. Alguns dos fatos ele mesmo testemunhou.

Hoje o amigo está casado e tem duas filhas. Nossa amizade continua mais sólida que nunca, e os tais mistérios, também. Vou deixar de lado histórias mais antigas e me reportar apenas a algumas bem recentes. Não espero que todos acreditem, porém tenham certeza de que não se trata de ficção. Não acrescentarei nada, nenhum detalhe, para dar emoção ou suspense às narrativas, absolutamente. Aqui vai a primeira e proximamente irei contando outras.

Há cerca de um mês, mais ou menos, eu acabara de tomar o café da manhã, por volta das 9:30h, e logo a seguir subi e vim para o computador, como de hábito o faço. Meu amigo Touche me acompanha sempre nesta e em outras rotinas diárias. Já estávamos aqui em cima por uns 30 minutos quando ele tomou a iniciativa de descer sozinho.

Como ele não costuma me dar satisfação de suas decisões inesperadas permaneci digitando sem nada lhe perguntar, claro. Passados cerca de 5 minutos ouvi Touche rosnando forte e latindo seguidamente, com raiva. Do alto da escada chamei por ele, mas Touche continuava a latir como se algo o estivesse incomodando ou assustando.

Resolvi descer e conferir o que se passava. Antes de chegar embaixo já o vi sobre o sofá que fica encostado à janela da sala a olhar fixo para suas cumbucas, a de comida e a de água, que costumam ficar encostadas à base do bar. Ele não parava de latir forte. Ao chegar ao térreo tomei um susto e não entendi nada do que vi.

As duas cumbucas estavam completamente cobertas por duas folhas de jornal, aliás, cuidadosamente cobertas, como se o jornal tivesse sido ali posto com as mãos. Ocorre que ao subirmos, logo após o desjejum, elas não estavam assim. As duas folhas de jornal estavam antes, desde a véspera, do lado de fora da porta do banheiro do térreo.

Explico: deixamos folhas de jornal aqui e ali para que o nosso bravo Touche nos facilite a tarefa fazendo nelas suas necessidades. Claro que, com uma personalidade forte e rebelde como ele só, isto raramente acontece por mais que insistamos com ele, mesmo usando métodos educacionais convincentes que nos ensinaram.

Curioso e inexplicável foi como aquelas duas folhas se deslocaram da porta do banheiro, “andaram” ou “voaram” por mais de 2 metros, fizeram uma curva e foram se instalar na posição em que as encontrei ao descer. Vejam que, no caminho delas, havia uma outra folha de jornal, aberta, próximo à escada e que não se mexera dali.

Ao subir eu colocara a comida e a água de Touche, como faço diariamente, e a cena era bem diferente da que descrevo acima.

Retirei as folhas e, quando ia recolocá-las na porta do banheiro, aconteceu o mais inesperado ainda, ou tão inesperado, sei lá. Era pouco mais de 10 horas da manhã. Ao descer eu deixara a luz da escada acesa, como também habitualmente fazemos, pois é uma zona um tanto escura.

Pois bem, aquela lâmpada, de luz fria, passou a piscar intermitentemente por 4 ou 5 vezes, bem rápido. Parou e ficou acesa por uns 7 a 8 segundos, voltando a piscar e a parar novamente, e assim se repetiu o fato por uma terceira vez. Foram três séries seguidas com intervalos iguais. Coincidência ou algo extraordinário, pendendo para o sobrenatural?! Não sei.

A seguir a lâmpada permaneceu acesa como já estava antes. Senti um frio na espinha que me arrepiou pelo imponderável da situação, ou em verdade, por presenciar um fato completamente fora da normalidade. Enquanto isso Touche já voltara à comida.

Sobre a lâmpada, aviso que ao voltar a subir a escada conferi se estava frouxa no bocal, mas não estava. E ela não voltou mais a piscar até hoje.

Sobre o deslocamento das duas páginas de jornal digo-lhes que não há vento ali, rente ao chão, nunca. Ainda que houvesse uma ventania lá fora, o que não é verdade, ridículo seria se imaginar que as folhas fossem levadas por mais de dois metros, rente o chão, fazer uma curva, como já disse, e pousarem de forma tão perfeita que cobriam completamente as cumbucas!

Aliás, o fato nunca acontecera antes e nem se repetiu depois, pelo menos até hoje.

Não esqueçam também que no caminho delas havia a outra folha, bem ao pé da escada, que não se mexeu... Acabei aceitando o acontecimento como já tive que aceitar vários outros, aqui mesmo, sem ter uma explicação lógica, técnica, científica etc.

Um bom amigo meu, de longa data, que é agnóstico, ao ouvir minha história pensou e disse: “Oh Simões, com certeza há de ter uma explicação dentro da lógica...” Sim, pois, mas qual? Já estou acostumado com esses fatos que, diga-se de passagem, nunca tiveram caráter agressivo, apenas assustam, quase como uma espécie de “brincadeira” gerada sabe-se lá por quem ou pelo que.

Mas, se você conseguir, explique por favor.


 

(16 de julho/2004)
CooJornal no 377


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br