23/07/2004
Número - 378

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

LEMBRANÇAS QUE NÃO DEIXAM SAUDADES

Há coisas que realmente devem ser lembradas, de quando em vez, para que não as esqueçamos, embora jamais nos façam sentir saudade. Parece uma incoerência, mas não é não. Especialmente em se tratando da política e dos políticos brasileiros.

Quando Sarney foi consagrado Presidente da República, em eleição indireta, após a morte de Tancredo Neves, a política econômica foi conduzida de tal forma que de repente passamos a travar um íntimo contato com o tal dragão inflacionário. O dragão tinha a forma de espiral. Foi nos engolindo, engolindo, até que o governo decidiu mudar a política econômica. Eu disse “mudar”?! Vá lá que seja.

Mudou, trocando também o nome da moeda, e aí começou uma série de troca-troca que perdurou até alguns anos atrás. De nada adiantou, mas o povo sempre sentiu os efeitos mais duros, mais cruéis dessas transformações aloucadas. Jogavam o dólar para uma cotação bem baixa, tudo artificialmente fabricado, e tentavam nos iludir com um “fortalecimento” da moeda do dia.

A inflação acabou por retornar, aliás de onde não partira, apenas se escondera nas habituais mentiras de fisionomias sérias e respeitáveis que assumem cargos para além de sua competência. E, ainda assim, numa manobra política, concederam um ano a mais de mandato a quem sequer fora eleito pelo povo. E a ditadura já ficara para trás.

No clamor popular por mudanças, visto que a tal inflação já alcançava o astronômico patamar de 80%, surgiram os “messias politiqueiros”, da nova democracia, com pose e fórmulas mágicas que, conforme anunciavam aos berros, seriam a salvação da pátria. Lula e Collor foram até o último ato daquele melodrama tupiniquim. O mais experiente, não obrigatoriamente o melhor, acabou por engolir o principiante, valendo-se de recursos os mais abjetos e imposturas variadas.

O nosso povo embarcou naquela canoa furada porque adora emoções fortes. Viu no tal “Caçador de Marajás”, carioca egresso do nordeste, a correção de rumo que o país necessitava para entrar nos trilhos. Mesmo acusado de que iria meter a mão na poupança popular (menos na dos amigos mais chegados, é óbvio...), nossa boa gente o entronou. Claro que sua esperança descarrilou logo no dia seguinte.

Collor jurara que jamais faria o que acabou por fazer, sem nenhuma cerimônia, com a maior cara de pau, com hino nacional e tudo o mais, e D. Zélia, a dama de ferro (enferrujado, pois) do Brasil, a ditar regras e prometer o que não iria conseguir levar a efeito. Mas, e daí, por aqui não acontece nada mesmo com eles, não é verdade?

A dupla Collor – Zélia trocou novamente a moeda e o cruzeiro voltou aos nossos bolsos. Esperem, eu disse aos nossos bolsos?? Perdão, voltou, mas para os cofres do Banco Central, já que o confisco fora amplo, irrestrito e geral (menos para uns poucos, repito...). Generosamente eles nos permitiram ficar com cinqüenta cruzeiros em nossas contas!! Quanta bondade, não?

E eles saíram daquela reunião, com TV e tudo, totalmente impunes, sem algemas, mesmo adotando um método “bolchevista” num regime dito democrático!! Num país realmente sério não haveria a mínima hipótese de aquela tragédia popular acontecer, mas... Também, as forças que colocaram a escada para que eles alcançassem o poder tudo podiam, tudo faziam, e se deixarem, ainda fazem.

O cruzeiro não durou muito e teve que ser rebatizado de cruzeiro novo, com novo plano econômico (ou mágico??!!) empurrado goela abaixo a um povo pasmo, indefeso, e já desrespeitado em seus direitos constitucionais quando do cataclísmico confisco. Mas, seguros de que possuíam a força, que eram intocáveis, indestrutíveis, acabaram por desafiar as mãos e cabeças que ajudaram a colocá-los no trono.

Aí se deram mal, muito mal. Aliados aos emergentes “caras pintadas”, os mesmos que lhes haviam colocado a escada para alcançarem o poder acabaram por retirá-la. O tombo foi muito grande, mas ainda deu para se ouvir a arrogância pedindo socorro: “Não me deixem só!!” A partir dali, enquanto o povo ainda contabilizava seu prejuízo ante tantos planos mirabolantes e fracassados, das Minas Gerais vinha um novo discurso, uma nova postura, um novo governo: Itamar Franco.

Seu Ministro da Fazenda e equipe criaram então o Plano Real e a moeda voltou a mudar de nome. Haja batizados no âmbito da economia! A lata de lixo da Casa da Moeda já não cabia mais de tanta sobra de moeda e dinheiro em papel sem valor. Barbaridade. E o dólar voltou a ser socado para baixo com um certo toque de artificialismo, como sempre. Só os economistas explicam, e sentem prazer nisso...

Com o sucesso inicial do Plano Real um Ministro acabou por se tornar Presidente da República. FHC chegou lá. A esperança do povo novamente se renovou. E Lula amargava mais uma derrota no campeonato brasileiro para o Planalto. Ao se avizinhar o término do primeiro mandato de FHC percebia-se haver várias promessas de campanha que não tinham saído do papel, ou das boas intenções. Mas a economia mostrava equilíbrio e certa solidez, embora o desemprego aumentasse.

Economistas, da direita à esquerda, afirmavam que FHC teria que desvalorizar o real. Ele, como soe acontecer, pois a impunidade os garante, asseverou tratar-se de campanha política do contra para evitar sua reeleição. Sorriu vitorioso pois sabia que o povo acreditaria nele. E acreditou mesmo. Lembram que umas 3 semanas após a reeleição de FHC o real foi realmente desvalorizado, e bastante, perante o dólar? Certamente alguns ganharam muito vendendo antes e recomprando depois... o dólar.

Mas como para o povo até o real já é difícil de segurar, não pode se dar ao luxo dessas brincadeirinhas abençoadas pelo tal de mercado. E foram mais 4 anos de um segundo mandato muito pálido, meio inexpressivo, que deveria ter respeitado uma opinião pública que o reelegeu ainda no primeiro turno. Entretanto já dissera D. Zélia que... “o povo é apenas um detalhe”. Pelo visto ela externou o que outros camuflam.

Mais recentemente, enfim, Lula deu a volta por cima, ou subiu a ... serra. Os mais conservadores acharam que qualquer um esmagaria o “sapo barbudo”, expressão criada antes por Brizola. Erraram, não foi José? Lula chegou lá. Era a opção que restava ao povo e criaram coragem, deixando o preconceito de lado: votaram no PT.

Bem, o pacote de promessas foi muito grande, só não sei se calcularam bem a duração do mandato, se consideraram antes todas as pedras do caminho, etc. O fato é que nesses primeiros tempos do governo da esperança tem-se somado acertos e erros. O mais importante, me parece, é não haver... omissão.

A cara do poder mudou na imagem televisiva mas, há quem diga que, administrativamente falando, perduram muitas semelhanças com o governo passado. Se for para sedimentar o terreno e mais adiante plantar tudo, ou grande parte, das promessas eleitorais, tudo bem, pois seria muito frustrante que Lula e o PT nos presenteasse com mais uma dessas lembranças que não deixam saudades.

 

(23 de julho/2004)
CooJornal no 378


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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