30/07/2004
Número - 379

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SUPER-8: WAR

Hoje iniciarei uma série de artigos nos quais falarei sobre meu trabalho na produção de filmes de curta-metragem, na bitola super-8, durante os anos 70. Tudo começou com um pequeno filme baseado no jogo “War”, daí o título do mesmo.

O cenário se compunha de uma mesa, em volta da qual estavam sentadas três crianças, dois sobrinhos e uma sobrinha na faixa dos 13 aos 14 anos. Sobre a mesa o jogo “War”, usando-se pedras brancas, vermelhas e pretas, cada cor para um dos três contendores acima referidos. No começo do filme as crianças conversam e do papo partem para gozações, cada um achando que iria vencer o jogo.

No princípio eles agem normalmente no jogar os dados e no avançar as pedras no tabuleiro, conforme as regras do próprio jogo. O fundo musical, por mim selecionado, inclui sons variados, inclusive cornetas, tiros de canhão, gritos, bombas etc. O ritmo do filme vai se acelerando, os participantes lançam provocações em tom de brincadeira, a “guerra” vai recrudescendo.

Lá pelas tantas os participantes adormecem, mas as pedras, no tabuleiro, continuam atuando sozinhas, assumem o lugar dos “atores”. Entro eu, então, com a técnica do “quadro a quadro” para dar o movimento aos “soldados” que são as pedras coloridas. Quem já produziu desenho animado sabe o quanto de trabalho se tem filmando, quadro por quadro, separadamente, de modo a dar a sensação final do movimento. Imaginem isto feito amadoristicamente, com a própria câmera, ao filmar.

Demorei vários dias, até concluir a maior parte do filme que, em verdade, é quase todo animação. Uns “exércitos” avançam enquanto outros recuam, são dominados. A câmera vai mostrando os vários continentes onde ocorrem as “batalhas” que se acirram em ritmo cada vez mais forte. As pedras maiores, quando avançam, têm a acompanhá-las o som de tanques de guerra em movimento. O som cresce.

Após longa seqüência desses combates as pedras pretas dominam o mapa do mundo, vencem a “guerra”. O menino que com elas jogava aparece comemorando, em sonho, a grande vitória. A seguir os três acordam, voltam à realidade. O jogo já acabara. O grande final apresenta, novamente no “quadro a quadro”, quatro pedras de cada cor entrando pelo tabuleiro quando o narrador (eu, claro...) anuncia o nome de cada um dos meninos “atores”. Elas param, cumprimentam-se e saúdam o público, tudo feito em pura animação, muito trabalhosa, mas com muito amor e paciência.

Ao ser anunciado o nome do produtor e diretor do filme (eu, claro, novamente...) entra uma pedra grande, de cor amarela. Esta confraterniza com todas as demais. Quando parece que o filme já acabou, escuta-se o roncar dos motores de um avião, e logo a seguir uma pedra preta vem do oceano, entra pelo continente brasileiro e pára no centro do mapa do Brasil. Ouve-se o explodir de uma bomba. O filme termina.

O trabalho de edição e montagem, colando-se pedaços do filme, de acordo com programação pré estabelecida, depois a aplicação do som (música e muitos efeitos sonoros) na banda magnética adrede inserida na película, dá muito mais trabalho do que todo o aplicado durante as filmagens. Ainda mais sendo só um a fazer tudo.

Com este filme tive minha primeira experiência em um Festival de filmes Super-8. Ele se realizaria na cidade de Campos, no Rio de Janeiro. Inscrevi o filme e aguardei. Dominava-me uma grande ansiedade em saber como seria aceito, ou não, meu primeiro trabalho em curta metragem. Após o dia marcado para ser efetuada a seleção dos filmes que participariam do Festival, telefonei para o organizador.

Ouvi dele que haviam 2 filmes considerados, por todos, como os favoritos destacados para disputarem o primeiro lugar: um era o meu “War” e o outro um documentário produzido por alunos da PUC – Rio com o título de “Favelando”. Não esqueçam que estávamos nos anos 70 e em plena ditadura militar.

Achei fantástico aquilo, pois seria mesmo uma estréia a grande na minha nova faceta de criar e produzir filmes curtos. Vivi mais uns dias de ansiedade. Na véspera do Festival, entretanto, telefonou-me o organizador. Ele estava meio sem jeito e pedia-me desculpas, mas afirmava não ter podido evitar a retirada do meu filme por um agente policial que lá aparecera com esta determinação. Ele era sediado em Niterói.

Curiosamente o outro filme considerado favorito, em Campos, o “Favelando”, também fora excluído pelo mesmo agente. O organizador não sabia sequer dizer-me os motivos que levaram o tal policial a agir daquela maneira. Mas, afinal vivíamos em tempos de uma censura braba, embora o Festival fosse de filmes amadores.

Claro que depois tratei de me dirigir ao órgão competente para onde teriam enviado meu pequeno filme: a polícia federal. Não sei o que era maior, se a frustração de uma estréia malograda por uma atitude de violência do regime que imperava em nosso país ou ver fugir a bela chance de ter um começo vitorioso no que eu me propunha a trabalhar, já sendo expositor de arte fotográfica, escritor, radialista, etc.

A aventura que vivi nos corredores da censura, nas entrevistas na Praça Mauá, no receber em casa uma censora para julgar novamente meu filme e também o “Favelando”, pois fiquei amigo de um dos universitários que o produziram, está contada, com riqueza de detalhes, na crônica “Prazer, sou a censura”. O texto está bem dosado com bastante humor, pois chorar de nada adiantava.

Sugiro a leitura daquela crônica que está postada no Arquivo de Crônicas, bem aqui ao lado deste texto. Vale a pena, eu garanto.

Na próxima vez me reportarei ao meu filme “Lona Suja”. Um curta com pretensões de longa que até ganhou um magnífico prêmio no CEFET, em Curitiba. Aguardem.

(Maio / 2004)

(30 de julho/2004)
CooJornal no 379


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br