06/08/2004
Número - 380

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SUPER 8: “LONA SUJA”

Hoje contarei sobre um filme de curta metragem que tinha pretensões à longa. Seu título: “Lona Suja”. Nele conto a história de um seqüestro, isto em meados dos anos 70. Como cenários usei vários espaços da casa de minha cunhada, à época morando no Rocha,  além da rua 24 de Março, um bar próximo e outra pequena rua de uma vila.

Da casa usei o quintal dividido em dois cenários, o pátio principal e o porão. Este eu dividi em 3 ambientes. Os “atores”, onze ao todo, eram amigos, parentes e colegas do BB e do BACEN, ninguém com experiência na arte de interpretar. Isto não significou obstáculo para que eles se saíssem muito bem, além das melhores expectativas.

Criei uma trama na qual uma quadrilha da zona norte seqüestra um menino de família abastada. Ocorre que um dos seus integrantes, “Bigode”, por sérias e antigas divergências com seu companheiro, “Lingüiça”, participa de tudo mas, em verdade, tem em mente traí-lo na hora em que o resgate for pago. E assim acontece.

A outra quadrilha, a de “Mano Jô”, é egressa da zona sul da cidade. Estes não participam do ato de seqüestro, apenas aparecem no momento em que o resgate é deixado dentro de um depósito de lixo. Apossam-se da sacola com o dinheiro e rumam para o esconderijo onde estão “Bigode”, Lingüiça”, “Mudinho” e o seqüestrado.

Ocorre que na traição engendrada por “Bigode”, aliado a “Mano Jô”, aquele informara a seu desafeto, mas companheiro no delito, o “Lingüiça”, que o resgate apenas seria pago no dia seguinte ao que efetivamente foi. No encontro das duas quadrilhas ocorre o choque e “Bigode”, se valendo de um descuido de “Lingüiça”, acerta-o com dois tiros à queima-roupa. A turma de “Mano Jô” invade o recinto e esfaqueia “Mudinho”, o mais novo do grupo.

Quando os três da quadrilha da zona sul, além de “Bigode”, o traidor de “Lingüiça”, procuram fugir com o resgate, aparece “Mudinho”, ferido e cambaleando, que acerta seu ex companheiro “Bigode” pelas costas. Este tomba enquanto se ouve sirenes da polícia que cerca os demais fugitivos. Uma troca de tiros é ouvida, não mostrada. A seguir a câmera mostra os três corpos de “Lingüiça”, “Mudinho” e “Bigode” que passam a ser cobertos por uma lona... suja de sangue.

A edição deste filme  foi uma loucura, pois eu tive que fazer as várias vozes dos atores envolvidos na trama. Isto significou ensaiar e muito as vozes, depois dublar os “atores”, sem ter equipamento técnico profissional. Vali-me de 3 gravadores para conseguir, ao final, mixar tudo numa só fita. Some-se a isto o trabalho da seleção e edição de músicas e efeitos sonoros variados, especialmente tiros.

Tudo era editado em fitas cassete e, posteriormente à edição das imagens, passado para a banda magnética do filme. Tarefas muitas que, feitas por uma só pessoa, era realmente uma “coisa de louco”... Para não me tornar cansativo deixo de contar várias outras passagens do filme, evidentemente.

Inscrevi “Lona Suja” numa Mostra organizada pelo CEFET, de Curitiba. O evento estava muito bem divulgado e teve participantes de vários estados brasileiros. Foi emocionante ver meu filme, de banda estreita, ser projetado em tela de cinema profissional. Lá também estava o documentário “Favelando”, feito por alunos da PUC – Rio, o mesmo que eu contei, no artigo anterior, ter sido excluído por um censor, junto com o meu “War”, num  festival realizado em Campos (RJ).

Foi uma noite gloriosa para mim e para o amigo da PUC, que eu conhecera antes, o Helinho, responsável pelo “Favelando”.  O meu “Lona Suja” obteve o primeiro lugar na categoria Ficção. O documentário da PUC ganhou como melhor documentário e ainda foi eleito o melhor filme da referida Mostra. A festa se alargou até às tantas.

Naquela noite conheci um excelente poeta, meu conterrâneo, que vivia em Curitiba cujo nome agora me foge. Havia muitas personalidades naquele evento apoiando a iniciativa do CEFET. Eu e tantos outros, esforçados “cineastas” amadores, conhecemos e ficamos sendo conhecidos num ambiente profissional do melhor gabarito. A cobertura da imprensa paranaense foi total.

Após a decepção de ter um filme favorito retirado do Festival em Campos (RJ), por um agente da censura (contei esta história no artigo anterior), no CEFET, em Curitiba, posso dizer que “lavei a alma”...

Um trabalho dos mais difíceis que foi, tanto as filmagens, quanto e principalmente a edição e montagem total de “Lona Suja”, um curta de 20 minutos, com pretensão à longa, acabou recompensado com sobras com aquele primeiro lugar em Ficção.

Não esqueçamos que eu não era cineasta profissional, e que durante o dia todo eu trabalhava na Direção Geral do Banco do Brasil. Restavam-me poucas horas à noite e os fins-de-semana para as filmagens. Muita dedicação, muito esforço, tudo temperado com muito amor. Estava apenas começando minha trajetória de produção e de participação em eventos da espécie.

Na próxima vez falarei sobre outro dos meus filmes e minha participação em outro Festival. Aguardem.

(Junho 2004)



(06 de agosto/2004)
CooJornal no 380


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br