13/08/2004
Ano 8 - Número 381

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

QUASE UM COMPOSITOR!

Além de ter exercido algumas atividades no campo artístico e cultural, durante décadas do meu viver, quem acompanha o meu trabalho sabe que também fui funcionário do Banco do Brasil. Trabalhei 28 anos na Direção Geral dos quais uns 7 em treinamento de pessoal, como instrutor, coordenador e programador de cursos.

Tudo bem, mas tenho certeza que nunca falei de uma experiência diferente que me deu prazer, mas não teve futuro. Pois é, quase fui... um compositor musical. Não riam, não, é verdade, mas foi só um susto, ou uma “ameaça”, ou um chiste do destino.

Eu cheguei a compor umas poucas canções, algumas sérias, outras apenas com letras alegres, um tanto momescas, mas sem baixar o nível, nunca. Como não levei a sério aquela fase acabei por não deixar nenhum registro embora tivesse gravado várias com a ajuda dos sobrinhos que sempre tiveram um pendor para a música.

Um dia ocorreu-me compor algo que pudesse ter alguma chance de participar de um dos vários Festivais de MPB, tão populares naquela época, e que costumavam trazer à tona alguns talentos desconhecidos, tanto como cantores, como compositores.

Depois pensei melhor e achei que era uma pretensão muito grande, mas como não sou de desistir fácil, acabei por trabalhar duro na letra e na música que logo começaram a ganhar contornos de uma composição que agradou à minha esposa e aos meus sobrinhos, únicas “testemunhas” da minha tentativa de entrar para o mundo musical.

Quando a música estava pronta ensaiamos por várias vezes e acabamos gravando, em estilo bem amador, no salão da casa de minha cunhada, irmã de Zezé. Eu fiz o papel do intérprete, na falta de outro, claro. Meus sobrinhos capricharam no arranjo e na execução de “Vida e Morte de um Capoeira”, a minha composição.

Passo seguinte tratei de a inscrever no Festival de MPB da TV-Excelsior que se localizava em Ipanema, na Av. Visconde de Pirajá. Foram noites de sonhos ansiosos nos quais já me via, algumas vezes, participando daquele lindo evento no Maracanãzinho. Eram apenas sonhos, claro.

Passaram-se várias semanas sem notícia alguma da seleção. Estávamos no ano de 1968. Um dia me chamaram ao telefone. Quem queria falar comigo era Fernando Lucas. Nós trabalháramos juntos quando comecei no BB, na Agência de Belém do Pará, entre os anos de 1957 a 1959. Fernando era um ótimo cantor e trabalhava também na Rádio Marajoara.

Depois ele veio para o Rio, pelo BB, e passou a cantar em algumas boates na noite da então Cidade Maravilhosa. Eu viera para o Rio em abril de 1960. Nunca mais nos víramos. Estranhei aquela ligação, mas fiquei contente em que o amigo se lembrasse de mim. Ocorre que Fernando Lucas foi logo me inquirindo:

“Simões, tu compuseste uma música com o título de “Vida e Morte de um Capoeira”? Eu confirmei e fiquei muito curioso, afinal como ele sabia disso? Fernando continuou: “Tu a inscreveste no Festival de MPB da TV Excelsior?” Mais curioso eu fiquei. Como ele sabia de tudo isso? Fernando então esclareceu.

Ele tinha muito conhecimento no meio musical e esteve presente durante a seleção das músicas que iriam participar do referido Festival. Disse que se surpreendeu quando ouviu falarem no meu nome como autor de uma das composições inscritas. Foi conferir os detalhes e descobriu que se tratava mesmo aqui do amigo.

Ato contínuo ele me fez uma crítica feroz. Estava mesmo brabo, o Fernando: “Então, amigo, sabendo que sou cantor profissional há tantos anos e que podias contar comigo nada me disseste? Apresentaste uma gravação amadora e cheia de imperfeições quando eu poderia ter te ajudado nisto? E olha, tua música é muito boa e agradou à maioria dos jurados, acreditas?”

Respondi ao amigo que se eu lhe dissesse que havia composto uma música e que desejava inscrevê-la no Festival, com certeza ele riria na minha cara. Afinal ele jamais conhecera algo feito por mim nesta área. Disse-lhe mais: “Olha, se é verdade o que dizes, só estás empolgado e me censurando agora porque minha despretensiosa composição foi além do que eu esperava.”

Fernando repreendeu-me novamente por talvez eu não confiar em suas palavras e intenção. Acabei por pedir-lhe desculpas, mesmo sem estar lá muito convencido, mas até porque queria saber dos detalhes, do por que de tanta empolgação do amigo. Fernando Lucas me garantiu que minha música disputou até o final com outra canção o direito de integrar a relação das que estariam sendo apresentadas no Festival.

Mais: asseverou que determinado maestro e compositor, famoso, que ainda deve estar vivo, e participava do júri, defendeu minha composição até o final. As duas disputantes chegaram a estar empatadas, segundo ele, e finalmente a minha foi retirada, segundo o juízo do amigo, por causa da gravação que fizéramos.

Chegou a me garantir que se a apresentação da minha música tivesse sido feita com mais capricho, profissionalmente, ela deveria ter sido classificada. Mas, era tarde para chorar em cima do leite derramado, como dizem...

E foi assim que eu, após me dedicar a tantas outras atividades artístico-culturais, quase fui um compositor. Se a música tivesse sido classificada e apresentada no Festival da TV – Excelsior talvez eu tivesse a motivação para levar a sério o que era apenas uma diversão sem qualquer compromisso.

“Vida e Morte de Um Capoeira”, uma esperança, uma tentativa, uma afirmação, um quase, jamais uma decepção.



(13 de agosto/2004)
CooJornal no 381


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br