27/08/2004
Ano 8 - Número 383

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

THEREZINHA DE JESUS

Dizem que recordar é viver e eu concordo. Aliás, agrada-me muito mergulhar em pensamentos que me levem, de quando em vez, ao meu passado, na infância e na juventude, em Belém do Pará, onde nasci e vivi até os 23 anos. Recordações que marcaram meu trajeto nesta vida, sem a cansativa obrigação de biografar.

Hoje vou lhes contar uma breve história de amor. Quem na sua juventude, especialmente naqueles tempos, anos 50, em que eu usufruía do vigor dos meus 15 e 16 anos, não colecionou alguns casos de namorice? Todavia, eram tempos em que ninguém “ficava”, isto seria impensável. Mas, namorar era preciso, porém em padrões bem diferentes dos atuais.

Lembro-me que conheci uma jovem morena, olhos rasgados tipo “china”, meiga, e um corpo muito bem desenhado pela natureza em associação com a genética familiar, certamente. Eu morava com meus pais e irmãos na imensa casa dos meus avós maternos na Av. Tito Franco, a principal do bairro do Marco. A jovem vivia com sua mãe e 2 irmãos, virando a esquina, na travessa Humaitá, numa casa bem modesta.

Nunca fui chegado a pensamentos ou atitudes preconceituosas, além de que, naquela idade, quando tínhamos nosso coração fisgado pelo chamado “sexo oposto”, éramos capazes de derrubar qualquer barreira que se levantasse contra o nosso intento de uma conquista amorosa. Claro que nem todas.

Um dia a vida nos colocou frente a frente numa animada festa de aniversário. Sem precisar de prefácio, começamos ali mesmo a escrever o que poderia ter sido uma bonita história de amor. Logo a jovem me falou da preocupação de sua mãe em que ela jamais namorasse alguém que não fosse do seu nível social. Eu não era.

Dançando podíamos cochichar sem receio de que ouvidos invejosos e/ou espias descobrissem nossos planos para driblarmos as rígidas regras da genitora de Therezinha. Este era o nome daquela morena que me fizera esquecer outras tentativas de conquista em marcha.

Mal sabia eu que, mesmo no meu ambiente familiar, havia, da parte de alguns, a mesma preocupação da mãe de Therezinha. Claro que no sentido inverso, ou num desejo de que eu não lançasse minhas amarras sentimentais sobre nenhuma jovem que não pertencesse à nossa condição social, mais elevada.

Diante dessas “ameaças” procurávamos marcar encontros fora do nosso bairro, como ir ao cinema Iracema, no Largo de Nazaré, ou ao Olímpia, na Praça da República, etc. Era difícil cruzarmos na proximidade de nossas casas e termos que manter olhares de indiferença, como se não nos conhecêssemos. Uma declarada “ditadura familiar”, de ambos os lados, nos obrigava a mentirmos para o mundo à nossa volta.

Com o passar do tempo acabamos por ficar mais audaciosos. Certa vez fui à casa da jovem, com a concordância dela, e pude sentir diretamente o pensamento contrário de sua mãe. No fundo ela não queria ver a filha sofrer caso o namoro viesse a ter, no futuro, contornos mais sérios que a colocassem na mira mais aguçada de parte de alguns familiares meus. Não pude lhe tirar a razão visto que eu mesmo já experimentara, dias antes, uma não muito velada advertência entre alguns dos meus.

Prometemos ser cautelosos ao máximo, porém sabíamos que tínhamos, no irmão mais velho dela, sargento da Aeronáutica, um obstáculo ainda mais feroz que a própria genitora. Ocorre que nossos encontros camuflados passaram a acontecer no próprio bairro do Marco, pois a ansiedade por nos vermos crescia e o exigia.

Tomávamos muitos cuidados usando locais que dificultassem eventuais buscas de ambos os lados... Julgávamos estar seguros. Estivemos, sim, até quando alguém nos traiu. Namorávamos do outro lado da linha férrea, por trás de vagões ali estacionados, em frente ao estádio do Clube do Remo. Um esconderijo perfeito.

A noite era sempre nossa grande aliada e no local em que estávamos não passava ninguém. Entretanto, talvez tivéssemos confiado nossos segredos a algum amigo ou amiga que, ficou provado, não merecia a nossa boa fé. Só percebemos o perigo quando ele estava a poucos metros de nós.

Foi Therezinha quem primeiro viu seu irmão, montado em sua velha bicicleta, aproximando-se do local em que estávamos. Ele pulou do selim, voando em nossa direção. Aos gritos perguntou se a jovem queria matar sua mãe de desgosto. Ela tentou contê-lo, mas foi pior, a raiva do Augusto, o mano velho dela, lançou um olhar de lança-chamas pra cima de mim. Nem deu tempo de pensar.

Logo ele me agarrava pela camisa e fazia ameaças à minha integridade física. Uma covardia, convenhamos, pois eu era muito magro, enquanto ele tinha físico de atleta. Porém, nessa história de covardia eu acabei ganhando de goleada. Pego no maior flagrante, com a respiração ofegante após tantas carícias amorosas celestiais, empalideci e senti a reserva de minha coragem se... liquefazendo!

Therezinha teve muito sangue frio no calor da situação explosiva e, com seu jeitinho muito especial, foi aos poucos amansando a fera de seu irmão. Eu estava proibido de abrir a boca, ele não me permitia. Ela conseguira convencer o sargentão, valentão, a voltar para casa de imediato, com a promessa de que nós dois iríamos em seguida tomar o mesmo caminho. Enfim ele aquiesceu.

Eu sentia um gelado alívio de quem estivera quase sentado numa cadeira elétrica. Voltamos abatidos, preocupados com as conseqüências que adviriam daquele episódio, especialmente para a minha Therezinha. A partir daquele dia ela me evitou por todas as formas. Não lhe quis mal, ao contrário, entendi que ela se preservava e a mim também. O amor fora vencido pelo preconceito, ou pelo medo dele.



(27 de agosto/2004)
CooJornal no 383


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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