03/09/2004
Ano 8 - Número 384

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

RESCALDO DO OURO ROUBADO
 

Quando divulguei no domingo o meu artigo O OURO ROUBADO jamais imaginei o que adviria dali. Ocorre que vários amigos e amigas fizeram a imensa gentileza de repassar para suas listas aquele meu texto. Mais, os amigos dos amigos, pelo menos alguns, tiveram a mesma iniciativa. Resultado: a divulgação foi agigantada, digamos assim, numa solidariedade que compensa todo o nosso esforço, a nossa dedicação, para realizarmos o melhor que pudermos neste nosso trabalho.

Só fiquei sabendo quando começaram a chegar comentários de todos os lados, vindos de leitores que não constavam do meu catálogo. Logo os amigos e amigas me confessaram aquele gesto que não tem preço, que nada pede em troca, mas que valoriza a amizade verdadeira, a amizade desprendida que soma, não concorre. Este é o lado ouro desta internet, espaço virtual que tanto tenho criticado pelo seu lado podre. Obrigado amigas, obrigado amigos.

Não estou conseguindo responder a todos que enviaram mensagens comentando o meu escrito, como habitualmente eu faço. Peço desculpas, mas espero que aceitem agora o meu sincero agradecimento, e, creiam, li todos os comentários com o mesmo interesse e respeito vossas opiniões, quaisquer que tenham sido.

Aproveito para acrescentar mais algumas informações, ainda sobre a Olimpíada recém encerrada, a fim de que não paire nenhuma dúvida que eu sabia o que afirmava quando escrevi: “Os vi até dando entrevistas, mas não os vi indo se solidarizar com o brasileiro (Wanderley). Por quê?? E eu é que sou um patriota exacerbado?? Desculpem, não sou não, quero é justiça, não aceito e jamais aceitarei empulhações, tapeações, embustes, ainda mais no esporte e a nível de uma Olimpíada.”

Poucas horas depois daquele condenável episódio ocorrido durante a Maratona, foi informado estarem as autoridades de Atenas cientes de que o tal senhor irlandês, doente mental ou não, que já pregara peças em outros eventos esportivos internacionais, chegara à cidade por volta das cinco horas da madrugada, do mesmo dia, vindo da Inglaterra, de avião.

Pergunto: com tanto aparato de segurança e receio de atos terroristas, além de o indivíduo já ser conhecido, não deveriam ter acompanhado os seus passos e o colocado sob severa vigilância? Como não? Ou, por quê não? Além do mais ele não passaria despercebido em lugar nenhum trajado daquela forma, claro. Não se pode pôr panos quentes e tirar a responsabilidade dos organizadores, como querem alguns. Não aceito isto. Repito: se ocorresse em nosso país jamais nos perdoariam. Com certeza.

Por outro lado, este não foi o único ponto negativo daquelas Olimpíadas como outros apressaram-se em afirmar, e isto é de se lamentar. Permitam-me lhes contar apenas dois episódios divulgados amplamente pelas emissoras de TV, ao vivo, e aos quais eu assisti. Os canais da BAND (3) foram os meus preferidos por muitos motivos.

Numa das provas de natação o candidato americano era franco favorito, o que não constituía nenhuma novidade. Ele chegou em primeiro com relativa folga para o segundo colocado. Os atletas ainda se cumprimentavam dentro da piscina, esperando a confirmação do resultado, quando foi exibido o placar pelos senhores juízes da prova: o nadador americano, que chegara em primeiro, fora desclassificado. O quadro das medalhas se alterou com a eliminação do vencedor, lógico.

Todos ficaram surpresos, mas nenhuma explicação foi dada pelos juízes e/ou organizadores, nem aos homens da mídia mundial. Ele teria cometido alguma irregularidade imperceptível a quem não está acostumado com os detalhes deste tipo de competição? O computador não erra sozinho, não julga, nem decide. O resultado era oficial. O atletas se retiraram estando o americano cabisbaixo e sem graça.

Mais tarde, quando era chegado o momento da entrega das medalhas, voltaram os três primeiros colocados. À frente adivinhem quem vinha?! Pois é, o nadador desclassificado! Ele acabou por receber a medalha de ouro!! Novamente nenhuma explicação foi dada para ninguém. O que ocorreu nos bastidores naqueles minutos? O erro esteve na desclassificação ou no voltar atrás de uma decisão que haviam dito não poderia jamais ocorrer? Pelo menos, no caso do nosso Wanderley, isto foi declarado pelo Sr. Amadeo Francis, presidente do júri de apelação. E aí, amigos e amigas?

O outro caso, meio escabroso, ocorreu numa prova de exercícios em argolas. Dois representantes da Coréia estiveram impecáveis e esperavam, com o indiscutível apoio do público, os dois primeiros lugares. Quando o atleta, americano, se apresentou, ao dar o salto de saída das argolas se desequilibrou e só não foi parar sobre a mesa dos juízes porque um dos fiscais o apoiou fisicamente. Não havia mais dúvida sobre de quem seriam o ouro e a prata. Lembrem-se de que por menos a nossa brilhante Dayane ficou sem medalha, mas ela ainda as trará no futuro, com certeza.

Ao ser pronunciada a nota do atleta americano, entretanto, esta fora bem além da expectativa geral (91, um pouco mais) com alguns milésimos de pontos suficientes para que ele ficasse com a medalha de ouro. Não sou eu que o digo, foi o público inteiro do ginásio que vaiou estrepitosa e demoradamente a decisão dos juízes. Os dois coreanos deixavam transparecer sua grande decepção. As vaias se prolongaram.

O público levou suas vaias também para a cerimônia da premiação, o que é coisa muito rara de acontecer. Elas não visavam ao atleta, mas aos responsáveis pelo que eles consideraram uma grande injustiça. Mais um fato deplorável que muitos preferem ignorar achando que tudo foi... maravilhoso. Infelizmente não foi não.

Em outras competições o espírito olímpico também foi prejudicado ou por decisões erradas de juízes, ou da organização. Neste caso, relembro a troca da árbitra na decisão do ouro no futebol feminino. O mundo inteiro viu, quantos se indignaram? E não era novidade, pois já acontecera em outra olimpíada, também entre brasileiras e americanas. Meras coincidências ??!! Acredite, se quiser, mas não peça o meu apoio.

Ninguém quer tirar o brilho de um evento como as Olimpíadas que, no meu entender, é o mais importante de todos a nível internacional. Nenhuma dúvida. Senões acontecem sempre, o que deve ser criticado e denunciado é quando eles alteram completamente o resultado de qualquer competição, seja qual for a nacionalidade do favorecido. Para mim a injustiça, o desrespeito a um atleta ou a um país, é algo muito grave. Eu, pelo menos, não sei e nem me empenho em calar a minha indignação.

Por outro lado, gostaria de me referir aqui ao tal lema do ilustre Barão de Coupertin. Concordo plenamente com o que afirmou um grande amigo meu ao comentar O OURO ROUBADO. Escreveu ele: “O único cara que achou que o importante é competir e não vencer, foi o Barão de Coupertin.” Pois é, amigo Amaro. Se não vejamos, embora eu vá me alongar mais um pouco:

--- Estariam os jogadores da equipe de volley da Itália conformados com a derrota para o Brasil, na decisão do ouro, e “felizes” porque o importante é competir?
--- Seriam apenas de conformação, pelo mesmo motivo, as lágrimas dos jogadores do “Dream Team” (basquete americano) na derrota inesperada para o time de Porto Rico, logo na primeira partida das Olimpíadas? Nunca acontecera antes.
--- E o choro das nossas atletas do volley feminino ao perderem para a Rússia uma partida quase ganha, na decisão do ouro? O importante não foi só competir?!
--- E os dois ginastas coreanos (mais acima referidos) que tiveram o ouro e prata deles retirados na mão grande pelos juízes? Pareciam muito revoltados, mas deve ter sido impressão errada minha, afinal o importante... é competir!!
--- O nosso bom Wanderley, este sim, foi um verdadeiro herói ao terminar a prova em terceiro, e ter comemorado alegremente o seu feito, mas eu gostaria de ouvir o desabafo que deva ter feito, na intimidade, a parentes e amigos de sua terra... vá lá, talvez eu esteja errado!
--- Etc, etc, etc... por aí afora.

O Barão que me perdoe, mas se o importante fosse mesmo só competir, não criariam medalhas, troféus, faixas, estatísticas, títulos, recordes, enfim, tudo seria muito sem graça, muito pálido, muito frio, sem maior expressão, sem vibração, sem garra, sem torcida, sem a sadia rivalidade, e as disputas, as contendas se resumiriam a beijos e abraços entre os competidores. Seria a desvalorização das vitórias. Humm... Que coisa mais aguada e insossa!!! Desculpem-me os adeptos do Barão.

E vou terminar mostrando o reverso da medalha do Barão de Coupertin. Num programa de TV, nesta segunda-feira, Hortência, ex jogadora de basquete, uma das melhores do Brasil e do mundo em todos os tempos, quando comentavam sobre a agressão sofrida por nosso atleta na Maratona, ela, com total franqueza e seriedade, disse e repetiu: “Se eu fosse o Wanderley eu baixava o pau naquele maluco”.

Nem ouso criticá-la. Afinal, mesmo sendo pacifista, antiviolência, não sei se eu teria a mesma reação do grande Wanderley naquela situação inusitada e condenável. Por isso eu o admiro e respeito ainda mais.

 


(03 de setembro/2004)
CooJornal no 384


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br