03/09/2004
Ano 8 - Número 384

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

OH!RÁRIO ELEITORAL GRATUITO

 

Não se assustem não, o título desta crônica está correto. Achei melhor grafá-lo desta maneira e tenho minhas razões. Cada vez que assisto ao referido em epígrafe deixo sempre escapar uma exclamação: Oh!! Tudo contra, e nenhum argumento a favor.

E, por obséquio, ninguém me venha com a tal de “importância para melhor conhecermos os candidatos” etc e tal... No referido horário nada ficamos realmente conhecendo sobre este ou aquele candidato, especialmente a vereador. Alguns sequer têm tempo para dizer o próprio nome!! Há os que, após o nome, apenas dizem: “Pode confiar”... Oh!! Outros afirmam: “Sou amigo do... “ Bolas, não me torturem.

É um desfile interminável de rostos, de expressões que nada expressam, de falas que nada dizem, num frenesi, num ritmo alucinado que cansa muito mais do que informa qualquer coisa. Aliás, na minha visão, informação é o que dele não se retira mesmo. Se alguém me disser que escolheu o seu candidato a vereador por ali, desculpe, mas não lhe vou levar a sério. Há maneiras mais eficientes de nos informarmos sobre eles.

Antes de escrever este texto me dediquei a ver alguns programas do Rio, de S. Paulo e aqui de Cabo Frio. Quanto ao mau gosto e à desinformação eles são exatamente iguais. Repito: por ali não se pode, de forma alguma, avaliar qualquer candidato. Só quem admito que diga o contrário é qualquer dos políticos, ou candidatos a tal.

Os que se lançam a angariar votos para conseguirem o diploma de vereador jamais poderão apresentar idéias, plataformas, programas etc. Cadê tempo?! Também por isso o considero um “OH!RÁRIO POLÍTICO GRATUITO”. Só me causa estupefação, irritação, assombro, pasmaceira. É mesmo uma tortura e um castigo.

Quanto aos candidatos ao cargo de Prefeito, pelo menos eles dispõem de um pouco mais de tempo. Mas, o comportamento, a dialética (?!), a argumentação, são perfeitamente previsíveis. Aqueles que almejam chegar ao cargo direcionam seus mísseis contra o atual Prefeito. Acusam-no de não ter cumprido promessas de campanha, como se eles, atuais candidatos, forem, depois de eleitos, cumprir as suas.

OH! Quanta falta de imaginação. Nunca viram o disco, ou melhor, o CD... Às vezes, numa recaída de cidadania, eles falam sim, de passagem, sobre alguns dos seus programas. Têm sempre solução para todos os problemas que o atual detentor do cargo não conseguiu, ou não quis solucionar. E prometem tudo descaradamente.

OH! Democracia, ao que nos obrigas!! Te defenderei até à morte, assim como abominarei sempre qualquer regime autoritário, venha de que lado vier. Só discordo dos abusos que em teu nome nos são impostos, algumas vezes, num certo estilo de “ditatorialismo democrático”.

Sei que parece incoerência, e é mesmo, mas também o são o elevado desemprego, os abismos sociais, o desamparo assistencial de velhos e crianças, a falta de escolas, o trabalho escravo, as aposentadorias indignas, o salário mínimo acabrunhante, etc.

OH! Democracia, como falam em teu nome, quisera também agissem respeitando fielmente tuas regras, teus desígnios, teus propósitos, e não brincando de serem democratas. O poder, em verdade, só tem “emanado do povo” pela obrigação do voto. Obrigação, aliás, da qual discordo, mas que abordarei em outro texto.

Os eleitos, aqueles que nos Horários Eleitorais Gratuitos continuam a beijar criancinhas, a abraçar cidadãos nas ruas, a montar em jegues, a comer pastéis em certos “pés sujos”, a prometer o que nem o diabo se atreveria, a exibir um sorriso quase eterno que, muitas das vezes, ocultam intenções as mais maquiavélicas (relembrem um tal Caçador de Marajás...), esses jamais governaram com o povo.

Mas, voltando ao OH!RÁRIO ELEITORAL GRATUITO, aqueles que almejam a reeleição posam sempre com um certo ar de superioridade. Desmentem seus opositores, afirmam que planejaram seu governo para oito anos e que portanto precisam de outro mandato para... completar a obra! Oh!! Exibem durante aquele horário, imagens cuidadosamente selecionadas, mantêm um pronunciamento que enumera apenas os “sucessos” de suas realizações. Tudo muito bem cuidado.

Justamente por ser um OH!RÁRIO ELEITORAL GRATUITO, onde não existem debates, réplicas ou tréplicas, contestações etc, podem dizer o que bem entenderem, impunemente, seja verdade ou mentira. E nós, povo e eleitorado, só temos o “direito” de ouvir. Oh!rário, como abusam em nome da Democracia.

No fim, o que vale mesmo para as pessoas se decidirem sobre um ou outro candidato, são os programas de debates organizados pelas emissoras de TV. Mesmo assim os tempos também são bastante exíguos, e compete portanto a cada candidato saber usar com maestria, com muita perícia, os minutos que lhe são destinados. Aí pesa muito o preparo e a criatividade da assessoria deles, evidentemente.

Quanto ao passado político de cada um também fica difícil, afinal saltam tanto de partido, pulam tanto de lado, mudam tanto de opinião que nós, eleitores convictos, ficamos confusos. Eu jamais anulei o meu voto, sempre o dirigi a alguém, e o farei novamente, mesmo que não tenha forte preferência por nenhum deles.

Votarei sempre, como todo cidadão deve fazê-lo, mas com certeza não será graças ao tal OH!RÁRIO ELEITORAL GRATUITO... arghhh...
 


(03 de setembro/2004)
CooJornal no 384


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br