10/09/2004
Ano 8 - Número 385

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

POLUIÇÃO SONORA E POLÍTICA

 

Ao divulgar a crônica passada “Oh!rário Eleitoral Gratuito” tive a felicidade de receber, como de hábito, vários comentários de amigos e amigas que dedicam parte do seu tempo a me ler e me escrever. Obrigado, gente.

Algumas mensagens poderiam dar um verdadeiro artigo quando as pessoas acrescentaram, com suas próprias palavras, críticas e mais críticas ao referido Horário, ou melhor, “Oh!rário”... Foi muito compensador lê-las.

Decidi considerar, entre as críticas feitas de uma maneira geral à tal campanha política para as próximas eleições, aquelas que foram dirigidas especialmente à poluição sonora promovida por inúmeros candidatos, seja a vereador, seja a prefeito. Elas vieram do Rio, de S. Paulo e outros Estados. A crítica à campanha em Cabo Frio, bem, esta eu mesmo farei.

Passa eleição, entra eleição e os candidatos, ou políticos que pretendem a reeleição, não se satisfazem em nos atormentar diariamente, e duas vezes por dia, com aquela coisa de um profundo mau gosto, mau arquitetada, mau apresentada, e que de bom só tem o fato de não poderem nos impedir de desligar a nossa Tv. Ao menos isso.

Aos comícios, bem, a eles vai quem quer, é uma opção democrática e ali eles expõem suas idéias, ou devem expô-las, creio, porque há anos não assisto a nenhum. Mas é algo democrático que devemos aprovar. Desde que não o façam à nossa porta ou em frente à janela de nosso quarto de dormir, claro!

Os debates na Tv também são importantes, embora alguns sequer os aproveitem para discutir idéias, apresentar programas com seriedade e clareza, mas ficam a se agredir, a trocar farpas, o que é de lamentar. Reconheçamos, porém, que esses debates são de grande utilidade, inclusive para tirarmos algumas dúvidas sobre este ou aquele candidato. Deveriam ocorrer em maior número.

O que deveria ser proibido, e o digo com toda a convicção, era a tal de propaganda feita em carros com alto-falantes a berrar slogans, nomes, e a contaminar o ar com músicas (eu disse músicas??!!...) geralmente de um mau gosto profundo. Este meio de difundir candidaturas é uma verdadeira epidemia e, como tal, deveria ser combatida, não consentida. É a minha opinião e a de muitos que me escreveram.

A amiga e leitora assídua, Ângela, de Niterói, também excelente webdesigner, protestou assim: “Pior é aturar nesta minha rua, as gritarias de candidatos que não se cansam de passar com carro de som a todo o volume! Se estivermos ao telefone ou ouvindo qualquer música é preciso parar para ouvir novamente tudo o que já se ouvira há 3 min! A tortura começa às 10:00 h da manhã e termina às 20:30 h, sem descanso! Pensar também é proibido, porque o barulho é insuportável!”

“Um certo candidato a Prefeito promete Escolas, Saúde, Alimentação, Moradia, Segurança... enfim, só falta dizer que também vai dar aos Niteroienses os números da Mega Sena acumulada! Bem, isto ele deve preferir guardar! rss! E tem gente que ainda acredita!”

“Enfim, saiu no Jornal "O Fluminense" uma nota, alertando as pessoas a não votarem nestes candidatos que estão enlouquecendo as pessoas, porque um Prefeito, de preferência, precisa respeitar o direito de cada cidadão ter um mínimo de Paz em suas casas! Diante disto eles acalmaram um pouquinho, mas ainda continuam insuportáveis! GGrrrrrrrrrrr!!”

A boa amiga está carregada de razão. Faço aqui um comentário a respeito do que ouvi outro dia num programa de TV. Comentavam sobre a importância de se votar e um excelente ator, cujo nome agora me foge, foi direto: “Quero dizer que discordo do nosso Pelé. Não é o povo brasileiro que não sabe votar, mas nossos políticos é que não sabem ou não gostam de governar bem.”

Afinal eles só se lembram do povo nas eleições, ou às vésperas dela. Alguém vai me contradizer? Sou todo ouvidos. O Governo Federal, e mesmo alguns Estaduais têm mudado de mão, e de lado, ora direita, ora centro, ora esquerda. Em que avançamos significativamente? Sim, porque só pequenos detalhes não me impressionam.

Ademais me arrepio todo quando começam a eleger como alvo de encômios, estatísticas referentes ao mercado, saldo positivo de balança de pagamentos que, por sinal, podem sofrer manipulações, índice de desemprego que, repentinamente, ao caminharmos para eleições, começam a baixar ou produção industrial que também inverte sua tendência, mas logo agora... Estou com São Tomé e não abro.

Retomando a linha da poluição sonora e política, digo-lhes que há dias eu estava assistindo à missa na Matriz antiga aqui de Cabo Frio, com meus amigos Edinho, Marlene e suas respectivas famílias. De segunda à sexta ela ocorre das 19 às 20 horas. No exato momento em que o padre levantava a hóstia, no ofertório, a igreja foi invadida pelo som absurdamente alto e estridente de um alto-falante que pregava, digamos assim, o voto em determinado candidato a Prefeito daqui. Barbaridade.

Esses veículos primam por escassez de velocidade, propositadamente, mesmo atrapalhando o trânsito. Vão tão devagar que às vezes parecem estar parados. Danem-se nossos ouvidos. Nossa concentração, na missa, foi esfacelada em pedaços de notas musicais agudas e mal formuladas e em sílabas dissonantes de um linguajar repulsivo, porque mentiroso, e que não respeita nem a casa de Deus. Como iriam respeitar a nós, pobres mortais??!! Mas temos que votar em alguns deles!!

Custava evitarem passar à porta da igreja naquele curto espaço de tempo? Eu sei que custa sim, porque respeito é o que alguns deles fazem questão de provar que não têm e democracia, para essa gente, é exibir poder à luz da impunidade. O pior é que escolhemos, escolhemos e... vamos colecionando decepções. Desculpem a franqueza.


 
(10 de setembro/2004)
CooJornal no 385


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br