18/09/2004
Ano 8 - Número 386

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

RETRATO FALADO

 

(Clique na foto para vê-la em seu tamanho original)
 

Hoje resolvi mergulhar no tempo, mergulhar fundo no meu passado. Gosto de recordar, pois dizem que recordar é viver, e então, vivamos. Estarei recuando até o ano de 1954, ou 1955, esta é a única dúvida que tenho quanto a esta foto.

Ela está meio “amarelada”, apresenta pequena mancha, mas, digamos que são suas rugas, pois ela já ultrapassou cinco décadas e resistiu para vir contar um momento alegre, muito feliz, da minha vida, da minha juventude. Vamos à ela.

Acredito que todos me identificarão nela. Apesar dos anos não está tão difícil assim. À minha direita, ou à esquerda de quem olha a foto, está o grande profissional, meu então colega e chefe de equipe, na nossa Rádio Marajoara, em Belém do Pará, Corrêa de Araújo. A seguir falarei dele. À minha esquerda, direita de quem olha a foto, uma jovem muito bonita que nos visitava. Ela acabara de ser eleita Miss Brasil.

Quem pode dizer o nome dela? Os da antiga guarda, sim porque velha soa meio depreciativo a essa altura, ora, certamente identificarão, na linda figura feminina, a nossa Terezinha Morango. Pelo que um bom amigo me falou outro dia ela deve morar ali nas proximidades do Jardim de Allah. Se ele estiver certo ela é uma quase vizinha, pois no Rio tenho apartamento em Ipanema, também próximo ao mesmo local.

Com toda a convicção lhes digo que ela foi uma das mais bonitas Miss Brasil que tivemos. O concurso era organizado e apresentado pelos Diários Associados, aos quais pertencia a Rádio Marajoara em que eu trabalhava. Era costume a nova Miss Brasil visitar vários Estados, após sua eleição. A foto mostra um dos momentos da visita dela à nossa rádio. Estamos exatamente no palco, vazio, numa tarde festiva para nós. Está também na foto um outro companheiro de nossa equipe de locutores.

Corrêa de Araújo era excelente locutor e rádio ator. No final dos anos cinqüenta ele veio para a Rádio Tupi, no Rio de Janeiro e, pelo seu talento, acabou sendo eleito, por cinco anos consecutivos, o melhor locutor do rádio carioca, naquela época. O título era muito honroso e tinha muito valor. Corrêa o mereceu.

Vou lhes contar um fato que tem a ver com ele. Certo dia estávamos, eu e o Clodomir Colino, no auditório da rádio, a recepcionar muitos estudantes que nos visitavam e que eram de Manaus, terra natal do nosso bravo Corrêa. Conversávamos alegremente quando surgiu no palco justamente o nosso chefe de locução. Vários meninos começaram a falar: “Olha lá o Babá... Olha lá o Babá...”

Fomos tomados de susto e de surpresa. Babá ??!! Mas como, devia ser engano. Corrêa sempre foi muito vaidoso, no bom sentido, claro, se vestia bem, e sabia do prestígio que desfrutava junto à galera feminina. Mas nós o conhecíamos apenas por Corrêa de Araújo. Foi aí que um dos estudantes fez a declaração “terrível”: “Ué, vocês não sabem? O primeiro nome dele é... Sebastião! Daí o apelido de Babá...” Pois nós não sabíamos mesmo. Ele sempre escondera isso de todos, até da folha do ponto...

Já imaginaram, não? Foi um prato cheio. Comentamos com outros colegas da equipe e ficou combinado fazermos uma brincadeira com ele. Nos reunimos e fomos até o bom amigo. Olhando para ele falamos em coro: “E aí, Babá, tudo bem??”... Corrêa fechou a cara e não gostou nem um pouco daquilo. Queria saber que história era aquela e acabamos por lhe revelar o que a nós havia sido transmitido pelos seus conterrâneos.

Ele desmoronou, mas não perdeu a classe, nem a pose. Acabou rendendo-se ao riso, mas não sem antes nos mandar ir para... olhem, nem me lembro, só sei que era um lugar bem distante!! Corrêa faleceu já há alguns anos no Rio de Janeiro. Era um excelente profissional, dos melhores que conheci, e chegou a apresentar jornais televisivos durante algum tempo. Nestas palavras minha sincera homenagem ao amigo, colega, chefe, ao profissional do melhor gabarito que o rádio brasileiro já teve.

A minha trajetória está contida na minha biografia tanto no meu site pessoal como em outros para os quais escrevo. Em 1957 assumi funções no Banco do Brasil, lá em Belém, minha terra natal e cerca de um ano após acabei tendo que desistir do rádio.

Senti muito, pois era uma das paixões de minha vida, com certeza. O BB, entretanto, me oferecia melhor salário, uma carreira que acabou sendo vitoriosa, posso dizer assim, e onde só fui bancário de agência nos dois primeiros anos.

Os demais 28 anos de trabalho passei por Departamentos da Direção Geral do Banco, no Rio de Janeiro, sendo que os meus quatro derradeiros anos, na ativa, atuei no Gabinete da Presidência da PREVI, do BB, tendo como presidente meu bom amigo, professor Joaquim Ferreira Amaro, e como Chefe do Gabinete, outro amigão da velha guarda, o “Lula”, Luiz Carlos Fonseca.

Este é o retrato falado daquele flagrante acima que parou no tempo um momento realmente de muita alegria, de muita felicidade, da minha vida, da minha juventude. Tive a grande honra de conhecer pessoalmente, por alguns minutos, a linda Miss Brasil, Terezinha Morango. Gostaria que ela visse esta foto, mas não sei se isto acontecerá. De qualquer forma fica registrado este momento que me proporcionou também contar rápidas histórias e, ademais, recordar é viver...



 
(18 de setembro/2004)
CooJornal no 386


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br