25/09/2004
Ano 8 - Número 387

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

VOTAR É EXERCER CIDADANIA

 

O Brasil é dos raros países, democratas, que ainda mantêm esta coisa avessa ao direito de decisão, que é a obrigação de votar. Isto é colocado através de lei e prevê penas várias para quem descumprir a exigência. Democracia à brasileira.

Sei que ainda existe gente que defende esta norma legal. Infelizmente, creio, estão completamente equivocados porque os argumentos que sempre se ouve podem ser facilmente derrubados. Há décadas escuto aqueles que afirmam: “isto é necessário porque senão poucos compareceriam para votar; o brasileiro não é politizado o suficiente para entender o valor do seu voto.”

É a velha história de alguns nos considerarem como uns coitadinhos, uns néscios, que se não nos colocarem cabresto não entenderemos que votar é muito importante, que eleger alguém é fundamental para a democracia. Sei que é, e jamais deixei, ou deixarei de votar e de conclamar todos ao voto, mas, por outro lado, a resposta dos eleitos, muitos deles, em vários níveis, tem sido decepcionante.

Para essa próxima eleição, o TRE do Rio de Janeiro está tentando impugnar mais de cem candidaturas. Os motivos passam por compra de votos, processos criminais vários, alguns referentes até a crimes hediondos, etc. Infelizmente parece que o ilustre presidente do TRE está sendo derrotado por seus pares. Pode se repetir o que sempre vem acontecendo, ou não acontecer nada, isto é, apesar das provas que o Tribunal diz ter os aludidos candidatos ficarão impunes e, quem sabe, até sejam eleitos...

Mas, como resultado da decepção popular com seus políticos em geral, ocorrem os “votos nulos”, os “votos em branco”. Sim, porque é pura ilusão querer achar que quem é obrigado a votar se sinta intimado a fazê-lo. A pessoa percebe que é obrigada a ... comparecer, votar em algum candidato é outra etapa que ninguém pode mesmo obrigar. Isto depende do civismo de cada um. Todavia, de há muito o brasileiro tem demonstrado consciência do valor de seu voto.

Repito que sempre votei e voto, mesmo às vezes não tendo candidato que preencha completamente as qualidades que eu gostaria de ver em alguém eleito para qualquer cargo político. Até porque a outra opção seria não votar, e isso eu não admito e jamais recomendaria. Afinal, sofremos um processo de regime autoritário por mais de vinte anos, muitos ficaram pelo meio do caminho na luta para reconquistar nossa democracia. Hoje não devemos anular o que custou a vida de tantos brasileiros. Vote.

Porém, eu me julgaria irresponsável se não expressasse minha opinião honesta e claramente sobre obrigar-se alguém a cumprir com o que sua cidadania já lhe cobra e o aconselha: votar. Pois vote, amigo ou amiga, só assim poderemos ir aprimorando nossa democracia ainda cheia de falhas e mazelas. Um dia chegaremos lá.

Quem não se lembra de que, em forma de protesto contra políticos, nosso povo também já usou o seu voto para “eleger” determinados animais do zoológico, por exemplo? Este fato se repetiu mais de uma vez. O povo não é tão curto de inteligência, como alguns insistem em o considerar. Aqueles votos de protesto expressaram sim cidadania. Na Europa e nos EUA as pessoas costumam manifestar o seu protesto pela abstenção, algumas vezes, por sinal, bem elevada.

Se o cidadão tivesse a liberdade, democrática, de escolher votar ou não, como ocorre nos países do primeiro mundo, jamais compareceria a uma seção eleitoral para anular o seu voto, claro, mas sim para votar. A obrigação do voto tem também efeitos bem negativos pelo Brasil afora, ainda hoje. É o tal voto de cabresto. É mais do que sabido que partidos políticos e/ou certos candidatos usam esta obrigação e sua influência local para obterem vantagem em eleições. Isto não é nenhuma novidade.

Por outro lado, quando se faz crítica ao povo, por exemplo, de ter “embarcado numa canoa furada ao votar em Collor”, como eu já li, pergunto: quem mais influenciou o povo a votar nele, visando a evitar a vitória de Lula? Resposta: parte da grande mídia brasileira, responsável por formar opinião. A mesma, aliás, que depois iniciou o movimento para o derrubar do poder. E se lança críticas à nossa gente? E o povo é que não sabe votar? Calma, por favor.

Então, não devemos tratar o nosso povo como se fossem “coitadinhos” que precisam sempre estar a ser “carregados no colo”. Se o resultado do voto popular não satisfez em algum tempo, em qualquer nível, por favor, voltem suas críticas muito mais para os próprios eleitos que descumpriram promessas, que tiraram a máscara após sentarem no “trono”, que falsearam com a verdade nos seus discursos, etc.

O povo, quando vota, tenta sim acertar, alguns políticos é que não se esforçam, após eleitos, na mesma medida, a corresponderem à expectativa dos votos que lhes foram destinados. Quantos já iludiram nossa gente, já mentiram, quando no poder, jurando não fazer isto e aquilo e a seguir procedendo de forma a desmentir, sem cerimônia, os juramentos anunciados? Criticar o povo é fácil, mas julgo ser injusto.

Muitos imaginam que os cidadãos do primeiro mundo, por serem mais politizados, cumprem sempre com o dever de votar e por isso não são obrigados a tal. Ledo engano, e isto vale tanto para a Europa, como um todo, assim como para os EUA. De uma maneira geral tem-se índices de abstenções bem elevados, acima de 30, ou 40 por cento, assim como, em alguns pleitos eles já ultrapassaram os 50 por cento. Sem crise.

Agradeço as estatísticas que me foram enviadas dos EUA, onde mora, pela amiga, professora e excelente escritora, Eva Bueno, num trabalho conjunto com sua amiga Cecília. Tenho, bem detalhados, por Estados, os resultados das três mais recentes eleições presidências realizadas em 2000 / 1996 e 1992. Entretanto, quando as eleições não são para a Presidência, as abstenções, por lá, apresentam-se ainda mais elevadas.

Da Europa, em particular de Portugal, meu bom amigo Manuel dos Santos enviou-me informações. Aliás, ele registrou, como curiosidade, casos de abstenção de 100% já ocorridos em certas cidades e o procedimento, tanto popular, quanto governamental, para a repetição daqueles pleitos. Se alguém desejar detalhes eu lhe enviarei, sem problema. Em verdade, amigos, a obrigação ao voto deve ser consciente e moral.

A abstenção é usada por cidadãos do primeiro mundo como uma manifestação de protesto, democrática, contra seus políticos. Isto eu ouvi de várias pessoas quando morei por lá em 4 longos períodos. Para alguns, por aqui, pode ser difícil de entender, talvez considerem isto uma “subversão”. É provável que ainda tenhamos uma visão imperfeita de direitos democráticos.

Para mim, todavia, tanto faz, pois se vivesse definitivamente no primeiro mundo, como já o fiz naquelas longas temporadas, com certeza eu nunca me valeria do direito à abstenção. Nem admito anular o voto. Quero ter depois o direito inalienável, sim, de fazer cobranças àquele que elegi no caso de o mesmo me decepcionar. Seja ele quem for, democraticamente. Hoje estou com 68 anos, e creiam que a barreira dos 70 não me insuflará a fugir das urnas, como é previsto em lei.

A verdade é que a nossa jovem democracia ainda engatinha e sempre encontra quem a queira obstar de se levantar e andar. Não deixe de votar, evite anular o seu voto, prove que seus críticos estão errados. Um dia haveremos de votar sem cabresto, sem que nos obriguem a tal. Votar é exercer sua cidadania. Vote sempre, amigo ou amiga.


 
(25 de setembro/2004)
CooJornal no 387


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br