02/10/2004
Ano 8 - Número 388

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

AMODOR

 

Hoje voltarei a escrever sobre amor, ou, pelo menos tentarei. Sim, porque, escrever com amor eu o faço sempre, qualquer que seja o tema, qualquer que seja o assunto. Aliás, o amor é a mola mestra que me impulsiona em tudo o que faço.

Mas, aí os amigos olham para o título e podem não o entender, e nem devem entender mesmo. Quem inventou esta palavra não fui eu, mas meu bom amigo Francisco Carlos dal Santo Prado. Ele que também escreve e com muito talento. Ela consta de mensagem recente que recebi dele, na qual Francisco coloca clara e corajosamente sua visão sobre o amor.

Logo nas primeiras linhas ele afirma: “Acho que amor é dor, e essas duas palavrinhas são irmãs gêmeas, uma sem a outra não existe, não conseguem sobreviver. Essa dor não é física, ela é inexplicável que nem o amor, por isso elas andam juntas. Elas se fundem numa só, criando um ícone solitário. Poderíamos chamá-la de Amodor.”

Assumindo sua opinião ele chega a dizer que deveria receber críticas por isso. Neste ponto eu discordei do amigo, até porque a vida me tem ensinado, me tem provado, que não deve existir amor, desde que verdadeiro, sem provar o amargo sabor da dor, e não apenas uma só vez.

Para mim o amor tem algo que o assemelha ao ato do nascimento. É uma descoberta, um ressurgir para algo novo, um perceber tudo diferente em cores, em sons, em vibração, em imagens, porque o amor é a vida renascendo. Eu já disse que jamais saberia viver sem amor e reafirmo isso. E no ato do nascimento o que de certo se põe na linha do destino de quem vem à luz é a morte. O resto são conquistas, derrotas etc.

Ninguém me vá dizer que morte nem sempre significa dor! Por mais espiritualizado que alguém seja, seu lado humano prevalecerá no sentimento que identifica a perda. O amor chora, sim, o amor sofre, sim, o amor, algumas vezes, morre junto. Essa dor não fica apenas com o amor que perdeu, mas, com certeza, segue também com o amor que parte. O amor e, lógico, a dor, transcendem a existência física.

Mais adiante, meu xará Francisco dal Prado diz: “Sei que com o amor tem Felicidade, Paixão, etc... mas, isso são intermediários, essas palavras - “sentimentos” – fazem parte no contexto como simples passagem entre uma e outra (amor e dor), começo e fim. O assunto é extenso, mas minha intenção é falar disso sem entremeios.”

Pois é, felicidade, paixão, são sentimentos inerentes ao amor, sem dúvida. São gerados nele, por ele, e também o alimentam, mas jamais poderão evitar a imprevisibilidade da dor. Felicidade não é algo eterno, mas o amor pode ser, depende de quem ama. Ama-se muito na saudade, nas recordações, enquanto que ser feliz na solidão é mais complicado. Nesses casos, uma dor, mesmo escusa, menos intensa, anuvia, obscurece qualquer tentativa à felicidade.

A paixão se sobrepõe, via de regra, à lucidez, à razão, e quanto à dor ela até a incrementa, a torna mais dolorida. A paixão é força, é energia, geralmente fora do alcance de um controle racional e por isso impeditiva do equilíbrio necessário à melhor percepção da realidade. Daí ela poder transformar alegria extrema em infelicidade geralmente através de um julgamento parcial e distorcido. A paixão autêntica dificilmente sedimenta a felicidade.

Sobre certos assuntos até se pode falar sem uma intimidade maior com aspectos a ele inerentes, embora isto represente um certo risco, mas falar sobre o amor, que me desculpem os da equipe da discordância, é fundamental tê-lo vivido, ter amado e sido amado, ou nos perderemos no labirinto de argumentos ilusórios e/ou inseguros, porque apoiados, geralmente, na experiência de outrem.

Eu não afirmaria, entretanto, que esta relação entre amor e dor seja apenas de começo e fim, não, absolutamente. Seria o mesmo que admitir que a dor apenas afligiria o estado de felicidade de um amor pela perda irreparável. Quem ama sabe que a dor pode surgir das mais variadas formas, e em qualquer tempo. Por exemplo, numa inesperada traição, numa atitude irracional de ciúme, na saudade de um adeus, mesmo que temporário, na doença, etc.

Amor e dor, lado a lado. Ainda que consideremos o amor como aquele “sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa” (conforme o dicionário, como lembra dal Prado) não se poderia alijar a dor da trajetória deste mesmo nobre sentimento de afeto, de afeição, de um bem querer que também está sujeito às leis da vida, e esta não é só um mar de rosas.

Aí está, caro Francisco, na minha modesta opinião, o amor entrelaçado com a dor, não a tendo como adversária ou inimiga, não, mas como uma “irmã gêmea”, e, quem sabe, também “uma sem a outra não exista, não consiga sobreviver”, tal qual você mesmo afirma, meu bom amigo.

Por tudo isso justifico a palavra que você trouxe à luz lá do fundo do seu coração, do mais recôndito e reservado dos seus sentimentos humanos: AMODOR.



 
(02 de outubro/2004)
CooJornal no 388


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br