09/10/2004
Ano 8 - Número 389

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

 SOLIDARIEDADE E CULTURA

 



Confesso que não sou chegado às tais “correntes” que muitos fazem circular por esta internet ou mesmo fora dela. Em poucas, muito poucas, reconheço alguma utilidade ou identifico uma seriedade de propósito que, certas vezes, me fazem balançar na minha decisão de não participar delas. Afinal também não sou radical.

Entre tantas mensagens que recebo diariamente, seja comentando meus trabalhos, seja apenas uma conversa amiga, ou alguma troca de informações, de repente lá surge uma que sai da rotina e, via de regra, me emociona.

Outro dia eu estava a responder mensagens quando dei uma parada e fui ver se havia alguma comunicação nova para mim. Entrou um pequeno e-mail. Ele vinha bem de longe, de uma cidade do interior de Minas Gerais, terra pela qual tenho muito apreço.

Até aí nada demais, dirão alguns. Concordo, mas reparei que não conhecia o autor daquela mensagem com tão poucas palavras, mas com um pedido, uma solicitação, que me tocou profundamente e me fez ver, mais uma vez, que afinal o mundo não está perdido, ainda, e que se há tantos a fazer mal aos seus semelhantes, há outros que só pensam em lhes levar o bem.

O mal tanto vem da violência consentida, desregrada e impiedosa, como da política insensível aos gritos de nossa gente, seja das cidades, seja dos campos, etc. Estes só ouvem a voz do povo às vésperas de eleições, como acaba de acontecer, embora o façam por pura encenação, pelo menos a maioria dos tais candidatos a cargos eletivos.

Voltando à mensagem que eu acabara de receber, digo-lhes que a li, reli, e, emocionado, a comentei com minha amiga Marlene. Antes de responder ao autor fiz uma longa parada e respirei fundo. Eu queria acreditar no que havia lido e me refazer da emoção que me causou.

Alguém poderá até pensar eu sou um bobo sentimental e emotivo, pois o sou mesmo, com toda a honra, assim como já me confessei anteriormente um incorrigível utópico. E daí? Jamais aceitarei como fato consumado esta realidade que nos vêm impondo de cima para baixo, tanto a nível nacional como internacional, e até mesmo aqui pelo nosso “quintal”, no Rio de Janeiro. Vade retro Satana...

Alguns já devem estar chegando ao limite de sua curiosidade, de sua ansiedade, e eu aqui a escrever, escrever, sem nada dizer sobre o teor da mensagem a que me refiro neste texto. Calma, gente, calma que eu chego lá. Garanto que vale a pena esperar sem pular linhas na leitura, hein?!

Afinal o que me solicitavam naquele e-mail? Pois agora eu lhes digo: um livro... Acreditem, um livro usado. E o autor da mensagem o pedia mas não para ele, e sim para poder ajudar à sua comunidade. Não entenderam? Pois lhes vou revelar a íntegra da solicitação de quem logo considerei um novo amigo. Escreveu-me ele:

“Procurando ser útil, em tempo de voluntariado, resolvi abrir minha pequena biblioteca às pessoas de minha comunidade, tão carente em termos de leitura e conhecimentos. De tal forma a demanda aumentou que tive que adquirir mais livros em Sebos (por causa do custo!), recebendo, ainda, doação de livros dos amigos. Venho pedir-lhe um livro usado.”

Leram agora?? Que coisa mágica, que gesto maravilhosamente solidário. Acredito que o amigo até faça idéia do que agora vou dizer, mas vocês já se deram conta se muita gente tomasse esta mesma iniciativa pelo Brasil afora? Como poderíamos ajudar e muito no sarar este mal que aflige a tantos brasileiros largados à míngua de quase tudo? No caso em questão, “carentes em termos de leitura e conhecimentos”?

A desinformação, a aculturação, a carência de leitura em geral, são males sérios, muito graves, mas podem ter cura sim. É claro que há pessoas inescrupulosas que não desejam ver nosso povo alcançando um bom nível de aprendizagem, de cultura, de informação porque lhes interessa manipular nossa gente, boa e amiga, fazendo-a submeter-se a seus inconfessáveis interesses. Infelizmente nosso país ainda tem disso.

O autor da mensagem é o Sr. Edison Sampaio que me autorizou a revelar seu nome. Eu não o conhecia, e não sei se ele escrevera para outros fazendo o mesmo pedido. Aliás, se não o fez deveria tê-lo feito, claro. Sei que ele não pensou em tocar este assunto em forma de “corrente”, método que não costuma me agradar, como já disse.

Já separei, não um, mas vários livros sobre contos, romances, crônicas, poesias, etc, para enviar ao Sr. Edison nos próximos dias. Entretanto, não quero ter o privilégio egoísta de ser o único a atendê-lo, não, de forma alguma, e sei que quantos livros mais ele receber maior o número de pessoas a serem beneficiadas.

Por isso me valho desta oportunidade para estender a solicitação deste bom mineiro, da cidade de Presidente Olegário (MG), deste brasileiro que merece o nosso respeito e os nossos aplausos, a todas as pessoas que possam repetir o mesmo gesto. Vamos nos unir à solidariedade do Sr. Edison Sampaio? Lembrem, amigos e amigas, basta ser apenas um livro usado. Aquele que você já leu e acabou esquecido em sua estante.

O endereço para a remessa do livro é este: “EDISON SAMPAIO, Rua Abílio de Lélis Vieira, 35 - Presidente Olegário (MG) - cep: 38750-000”

Eu jamais transformaria minha coluna em balcão de negócios, claro, mas também nunca me furtaria a dar a mão, ou emprestar minha palavra a alguém que, de certa forma “quixotescamente”, empenha-se em reduzir a falta de saber, a ausência de conhecimentos de nossa gente levando-lhes cultura e informação através da leitura.

Abençoado Sr. Edison Sampaio, obrigado por seu dignificante exemplo.

 

 
(09 de outubro/2004)
CooJornal no 389


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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