30/10/2004
Ano 8 - Número 392

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

ONDE ESTÁ O BIN?

 

Hoje vou me referir à entrevista concedida pelo jornalista argelino, Mohamed Sifaoui, que vive em França, ao jornalista português Paulo Moura, à qual fiz citação em minha crônica da semana passada. Esta matéria foi veiculada no jornal “O Público”, edição de 25.04.2004, e poderá ser lida no site daquele jornal. Eu a tenho guardada em meu arquivo, na íntegra, desde abril p.p.

Decidi enfatizar esta entrevista porque a repercussão que ela teve na Europa não é de se desprezar. Observem que ela foi divulgada há mais de 6 meses, mas somente agora tenho lido alguns outros e poucos colunistas se reportarem a um uso eventual de uma captura do Bin com fins eleitorais.

Invencionice, fantasia, devaneio, não sei, só percebo que alguns estão começando agora a se dar conta desta possibilidade. Peço atenção, porém, para a coragem deste jornalista argelino no desempenho de sua função sem hesitar diante de dificuldades as mais diversas. Não nos compete confirmar nem desmentir nada, mas respeitar a opinião do profissional como uma hipótese possível, só isso.

Já que entramos na reta final das eleições americanas não custa estarmos atentos mesmo sabendo que, seja qual for o vencedor, talvez pouco mude na política externa americana atual. Quando muito talvez fique um pouco menos agressiva com uma eventual vitória do democrata John Kerry, mas...

A manchete que encabeçou a matéria foi esta: “Mohamed Sifaoui, o Homem Que Sabe Onde Está o Líder da Al-Qaeda: "Bin Laden Será Apanhado Quando os Americanos Quiserem”
Domingo, 25 de Abril de 2004

O autor da matéria, o jornalista português Paulo Moura, fez uma apresentação do entrevistado com estas palavras:

“Há dois anos, Mohamed Sifaoui, jornalista de origem argelina, tornou-se conhecido por se ter infiltrado numa célula da Al-Qaeda em Paris. Durante três meses, fez-se passar por fundamentalista convicto e viveu com um grupo de terroristas. Escreveu "Mes frères assassins", um livro que valeu a prisão dos seus protagonistas e uma série de ameaças de morte ao autor.”

“No ano passado, Sifaoui partiu para o Paquistão, à procura de Bin Laden. Falou com membros da polícia secreta, com líderes islamistas, com chefes tribais. Todos lhe indicaram um mesmo local: a província do Waziristão, perto da fronteira do Afeganistão, e a aldeia de Miranshah. Com dois guias locais, usando túnica tradicional e barba, Sifaoui partiu para Miranshah. Os obstáculos tornaram-se cada vez mais difíceis de transpor, até que, à entrada da aldeia um forte e hostil destacamento de polícias e guardas tribais o impediram de continuar... Toda a aventura está contada num livro ("Sur les Traces de Bin Laden") que acaba de ser lançado em França e será traduzido para português.”

Quando o entrevistador perguntou a Sifaoui se ele sabia onde se encontrava Bin Laden ele respondeu afirmativamente e deu detalhes, com total convicção, já que percorrera toda aquela região, conforme dito na apresentação acima. Estabeleceu muitos contatos e avançou o que pode no trabalho a que se havia determinado fazer.

Citou nomes de pessoas que acompanham permanentemente o Bin o que chegou a levar o jornalista português, ao ouvir as referências, a indagar se eles contavam com alguma cumplicidade da polícia secreta paquistanesa, ou mesmo do Governo do Paquistão. Eis a resposta dada por Sifaoui:

“Não é uma verdadeira cumplicidade. Os serviços secretos do Paquistão (ISI) são atravessados por uma corrente islamista. Há mesmo muitos responsáveis que aderem completamente aos ideais de Bin Laden, protegendo-o e impedindo que seja detido pelos americanos, mas por outro lado há uma relação íntima entre a ISI e a CIA americana, o que me faz estar convicto de que Bin Laden já podia ter sido preso, desde 2002. Não foi, por razões de oportunidade estratégica dos governos de Musharraf e de George W. Bush.”

Observem a convicção com que o jornalista argelino faz suas afirmações. Naturalmente não se trata de alguém leviano, até porque o seu trabalho profissional, como o apresenta na abertura desta reportagem o jornalista Paulo Moura, tem algo de um “agente secreto” que enfrenta os piores riscos sempre em busca não só da notícia, mas principalmente da verdade. É o que nos passa Mohamed Sifaoui em suas palavras e suas atitudes, profissionalmente falando, claro.

Ele justifica a não prisão de Bin até o momento para não dar, à opinião pública americana, a impressão de que o sério problema do terrorismo estaria resolvido, o que não seria verdade. Acrescenta ainda que caso Bin fosse preso no ano de 2002, “... seria muito difícil convencer as pessoas da necessidade de fazer a guerra no Iraque.”

O jornalista português, àquela altura, quis saber porque depois da guerra não o prenderam então? Sifaoui respondeu com lucidez, muita lógica e aparente convicção: “Para pôr em prática o resto da sua política, Bush terá de ser reeleito. Ora as sondagens não lhe estão a ser muito favoráveis. É portanto provável que Bin Laden seja preso numa data o mais próximo possível das eleições de Novembro.”

Na seqüência da entrevista, Sifaoui afirma, com todas as letras, que em contatos com elementos do serviço secreto paquistanês deles teria ouvido esta afirmativa: “Sabemos onde ele está, mas não temos ordens para o prender.” Isto mais nos estarrece e nos faz pensar. Se Sifaoui não merecesse credibilidade não estaria no foco de atenções como da imprensa européia, evidentemente.

Já ao final da entrevista, que no seu todo é um tanto longa, e apoiado em comentários feitos por Sifaoui, deixando crer que o governo americano não deveria ver com bons olhos o Bin ser preso e, quem sabe, julgado em algum Tribunal Internacional, o jornalista português perguntou se então o Bin não deverá ser apanhado vivo. Resposta de Sifaoui: “Vivo não interessaria a ninguém.”

De certa forma é fácil de entender pelo próprio histórico do relacionamento do terrorista com anteriores governos americanos e até também por sua origem, já que nasceu na Arábia Saudita, um grande aliado americano de várias guerras. Mas, convenhamos, só o tempo dirá se as suspeitas e/ou certezas de Mohamed Sifaoui se confirmarão ou não. Falta muito pouco.

Mas, ao fazer aquela última afirmação, Sifaoui se referia inclusive ao Governo do Paquistão e aos islamitas, estes desejosos talvez de fazer de Bin um mártir de sua causa. Por exemplos do passado não me surpreenderia se esta suspeita maior do jornalista argelino se confirmasse.

Temos que considerar, por outro lado, que com o crescimento desses rumores na imprensa internacional, e quiçá na americana, pode se tornar mais difícil executar um plano maquiavélico daqueles ainda que seja uma derradeira carta por baixo da manga para assegurar uma vitória republicana nessas eleições.

De qualquer forma, parece também não ser lá muito difícil convencer a opinião pública americana, ou boa parte dela, que seja melhor ter um belicista, armamentista, digamos, um “mini rambo” na Presidência, e dar-lhe carta branca para atacar quem ele deseje, desde que o mesmo considere tratar-se de uma ou de várias ameaças à segurança dos EUA, sem ter que prestar explicações à ONU ou a quem quer que seja.

Com poderes totais e uma visão por demais distorcida da realidade, dos verdadeiros e sérios problemas de nossa humanidade, poderemos começar a mergulhar num período muito escuro, sangrento, num renascer de autoritarismo que nos levará a um retrocesso, talvez global, que poderá frutificar e nos empurrar lentamente para o caos.

Sem pretender ser catastrofista, aguardarei ansioso o resultado das eleições esperando que a vontade do povo americano seja respeitada, eleja quem eleger, e que não se repitam fatos como na eleição anterior.
 

 
(30 de outubro/2004)
CooJornal no 392


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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