06/11/2004
Ano 8 - Número 393

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

BATENDO CONTINÊNCIA

Remexendo nas minhas memórias, hoje lhes vou contar um pouco da minha passagem pelo CPOR, ou Centro Preparatório de Oficiais da Reserva, do Exército, de Belém do Pará. Aliás, quando fui chamado para me submeter aos exames de seleção houve quem garantisse que eu não seria convocado. Era muito magro e alguns não levavam fé em mim. Perderam, eu passei e fui servir. Isto no ano de 1955.

Tive direito a fazer o serviço militar no CPOR por estar cursando o científico, como se dizia à época, no Colégio Nazaré. Escolhi a Infantaria, logo o caminho mais duro, mais difícil, onde éramos bem mais exigidos do que na Artilharia. Por que fiz esta escolha? Não me lembro, mas valeu a pena. O curso era divido em duas etapas e, se aprovado ao final, saíamos como Aspirante a Oficial da Reserva. Eu consegui.

Durante os meses das férias escolares comparecíamos ao quartel diariamente, de segunda à sexta, e folgávamos no fim-de-semana, exceto quando éramos escalados para dar guarda. Nos meses de aula o comparecimento ao CPOR se dava apenas nos fins-de-semana. Era durante as férias escolares que costumávamos ir todos, Infantaria, Artilharia e Serviço Médico, para o meio do mato acampar ou acantonar.

Antes de embarcarmos para o primeiro acampamento tivemos que tomar 3 comprimidos, bem grandinhos e muito coloridos, que preveniriam eventuais doenças como impaludismo e outras. Ocorre que eu não conseguia engolir comprimidos e estava mal acostumado, em casa, a tomá-los, devidamente partidos, e disfarçados no meio de bananas amassadas... Um hábito que um dia teria que ser corrigido.

Já na fila, me aproximando do sargento que nos entregava as pílulas e um copo de groselha, suei frio, pois sabia que não poderia dar um vexame como o que se anunciava. Chegou a minha vez. O sargento perguntou se eu queria um comprimido de cada vez, mas numa decisão que até a mim surpreendeu, eu disse que queria, os três, de uma só vez. E quando menos esperava já os havia engolido com boa dose de groselha. Tudo muito rápido, sem tempo de pensar. Ali terminou meu “problema” e nunca mais ele voltou. Depois eu conseguia engolir comprimidos até só com a saliva.

Bem, quando acampávamos dormíamos em barracas de lona e fazíamos os mais variados exercícios como se estivéssemos em uma guerra. Essas manobras ocorriam normalmente de dia, mas eventualmente tínhamos algum exercício noturno. Neste caso podia ocorrer de termos que dormir dentro de trincheiras, ao relento, com a vantagem que o “exército inimigo” era formado por companheiros e amigos de farda.

Uma de nossas temporadas de acampamento ocorreu na cidade interiorana do Pará conhecida como “Peixe Boi”. O lugarejo era bem pequeno, passava uma linha férrea e havia uma ponte, bem grandinha, que cruzava o rio... Peixe Boi. Certo dia nosso bravo “chefe”, o capitão Peri, baixinho, magrinho, mas com uma disposição incrível e muito exigente no que concernia à disciplina, marcou uma longa caminhada.

Fardados, com mochila às costas, canil, espingarda ao ombro, calçando coturnos (bota militar), lá fomos nós marchando ao lado da linha férrea. Não sabíamos que mais à frente os trilhos cruzavam o rio, ele mesmo, o Peixe Boi, bem largo por sinal. Isto significava que deveria haver uma ponte. Algum tempo depois confirmamos nossas suspeitas. A ordem foi atravessá-la.

Parece fácil, mas a maldita ponte, se era feita de ferro na estrutura maior, o seu “piso” se compunha apenas de trilhos e... dormentes. Como define o dicionário, dormente é “uma peça, em geral de madeira, colocada transversalmente à via, e em que se assentam e fixam os trilhos das estradas de ferro”. Mais: entre eles havia um intervalo, vazio, de cerca de 30 a 40 centímetros... O rio passava por baixo a uma altura de uns quarenta metros. Eu já tinha vertigem de altura àquela época!!

Alguém lembrou que o nosso tenente Clóvis já confessara que também não era chegado a alturas. Eu e mais outros companheiros, carregando o mesmo fardo da tal “vertigem de altura”, o procuramos e falamos francamente. Ele disse que nosso bravo, e brabo, capitão Peri não admitira exceções e que o melhor era mesmo nos apoiarmos mutuamente. Neste apoio contamos então com a presença do solidário tenente no grupo da retaguarda. Procuramos não olhar para baixo, mas de quando em vez...

Já avançávamos pela ponte a dentro quando se ouviu um grito: um de nossos colegas, mais à frente, deixara o capacete escapulir e despencar até as águas do rio Peixe Boi. Felizmente ele conseguira se equilibrar e não cair. Foi só um susto, mas para quem já estava apavorado, imaginem o tamanho do sobressalto!!

Quando o grupo já estava reunido do outro lado do rio o capitão Peri advertiu o colega que perdera o capacete, alertando-o de que ou ele o recuperaria ou teria que ressarcir o exército pela perda do material. Para sorte do companheiro um pescador atento, que tudo observava, devolveu-lhe o objeto. E lá seguimos nós avançando na longa caminhada só parando para tomarmos o rancho (almoço).

Outro dia o capitão decidiu que teríamos que montar um posto de observação bem alto, por dentro de uma grande e frondosa árvore. Duro na queda, pequeno e magro, ele saiu na frente dando o exemplo para todos. Lançou uma corda grossa por entre os galhos e, de repente, lá estava ele a subir rápido e logo se instalando numa altura para ninguém botar defeito. Êta oficial brabo e competente, sôr!! Depois desceu com a mesma destreza e ordenou: “agora quero ver vocês, um por um”.

Apesar do constante “estímulo” do capitão nem todos conseguiram se desincumbir daquela missão. Nem perguntem se eu estava entre estes, sim? Até porque as linhas estão acabando e preciso encerrar este texto. Prometo que logo retornarei contando-lhes outras aventuras do meu tempo no CPOR, de Belém, em 1955. Até lá. Ufa...

 


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br