13/11/2004
Ano 8 - Número 393

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

E AGORA BIN?!

 

A eleição já passou... A votação terminou... A apuração confirmou... E o Kerry até chorou... Então você dissimulou... Então você cooperou... Até quando se pronunciou... Até quando ameaçou... Isso foi tudo que você ansiou... Você nem se escondeu, só esperou... Saiba, você nunca me enganou... Então, foi você quem ganhou?! E agora Bin?!

Sabe o que me parece? Mais do que nunca o mundo virou um brinquedo, um brinquedo desprotegido e à mercê da usura arrogante e do terror. Talvez mais de 6 bilhões de seres humanos que habitam este planeta estejam com sua sorte, seu destino, agora sentenciados por pouco mais de 60 milhões de pessoas que acreditaram em tantas mentiras, mentiras que você também ajudou a plantar.

A tabelinha usura arrogante – terror, que parecia antes algo saído de algum filme de ficção científica, agora mais se confirma num plano de realismo que possibilita mais guerras, mais vidas a serem ceifadas, ora em nome de algum deus, ora em nome de um poder insolente, dominador e unilateral. E agora Bin? Qual será o próximo lance?

Alguns analistas já admitem que vocês não conflitam, pelo contrário, se completam. O raciocínio é que um necessita do outro para sobreviver, para sustentar seu poder, seu convencimento, sua mentira, seu instinto, e assim ter sempre o fim que irá justificar todo e qualquer meio a ser empregado contra quem quer que seja.

Até dizem que um sem o outro poderia anular toda uma estratégia de uso da força, de intimidação, agora ainda mais bem delineada, autorizada, por mais incoerente que pareça, por um gesto ou uma decisão democrática: o voto. Todavia poucos decidiram contra a vontade de uma quase infinita maioria desse nosso ameaçado planeta.

De repente me acode uma dúvida: decidiram mesmo?! Interessante como errou feio aquele Instituto de Pesquisa, após fazer “boca de urna”... Estaria aquela “boca” com tão mau hálito assim?! Você sabia que ele é considerado o melhor dos Institutos do gênero por lá?! Pois dizem que é, mas sei que você não está interessado em cálculos que não levaram em conta, digamos, o... assente!

Parabéns por sua encenação, ela foi perfeita, coube na medida para que uma só carimbada validasse, como nunca antes, dois pleitos. Certamente Alá terá concordado com isso, não? Deve ter valido a pena tanta espera naquela caverna escura, fria e mal cheirosa... O que? Você não estava mais lá?... Ah, estava em... xiiiiii... deixe pra lá, não vamos mudar de assunto!

Tantas são as mentiras, tantos os conluios, tantas as conspirações, interesses mal revelados, mal confessados ou simplesmente camuflados que, no meu juízo, as verdades estão ficando cada vez mais enfraquecidas, desmoralizadas e sem força para se fazerem respeitar como tal. Por isso, desculpe minhas dúvidas, meu cepticismo.

Sabe, eu insisto em ainda acreditar em direitos humanos... não ria, por favor... tenho consciência de que direitos humanos será naturalmente uma espécie de “erva daninha” no vosso semear um misto de obscurantismo e fascismo neste imenso jardim que poderá ir mergulhando nas trevas do ódio, do preconceito, religioso e não, pois receio que vocês tudo façam para desmontar o que, mesmo de pouco, nossa humanidade vinha conseguindo construir de esperança num mundo melhor.

Para vocês, mundo melhor deve ser o que lhes favoreça na concretização de vossos instintos cruéis e belicosos e acredito que serão incansáveis no usar a voz do autoritarismo habitual de vossas pregações infiltradas sempre de ameaças, de intimidações, de acusações feitas unilateralmente e de sentenças sem julgamento.

Ademais, vocês têm uma visão tão diferente de mundo que possui, por exemplo, um poeta. É, um poeta. Este fala de amor e por amor, sentimento que, para vocês, deve ser algo esquisito, inusual, inútil até.

Afinal, quem dissemina o ódio declara guerra ao amor. Vocês são a negação da poesia, o silêncio do verso, a ruína do belo, o eclipse permanente da vida. Vocês falam em nome do deus de cada um, deus que abençoa a vingança e escreve com sangue suas leis. Esse deus só pode conduzir ao apocalipse.

Prefiro a visão do poeta, do nosso grande poeta Drummond de Andrade. Ele escreveu que “... só quem ama escutou o apelo da eternidade.” Mas sei que a idéia de eterno, para vocês, envolve matar, vingar, castigar, destruir, subjugar. É este o caminho do vosso deus para alcançar o paraíso, não é verdade? O deus do outro não é muito diferente, até o nomeia seu porta-voz na defesa de interesses belicistas!

É, fico mesmo com nosso mestre Drummond que também escreveu: “Amar se aprende amando”. Sei que é uma lição impossível de ser aprendida por quem passou a vida engolfado em interesses escusos e mesquinhos, ruminando e espalhando o ódio. Refiro-me a vocês dois, claro.

Assim, temendo o futuro e mergulhado na saudade do poeta, eu decido encerrar como comecei, nesta singela homenagem ao mestre, mas com palavras endereçadas a você:

“A eleição já passou... A votação terminou... A apuração confirmou... E o Kerry até chorou... Então você dissimulou... Então você cooperou... Até quando se pronunciou... Até quando ameaçou... Isso foi tudo que você ansiou... Você nem se escondeu, só esperou... Saiba, você nunca me enganou... Então, foi você quem ganhou?! E agora Bin?!”

 
(13 de novembro/2004)
CooJornal no 394


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br