04/12/2004
Ano 8 - Número 397

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A MUDANÇA

 

Enfim chegara o dia, o grande dia tão esperado por toda a família. Quem vivera com dificuldades a vida inteira, quem jamais pensara ver um dia concretizado seu maior sonho, o de ter o seu canto para morar, só seu, julgava estar realmente sonhando. Eles moraram quase 20 anos numa casa de caseiro, algo um pouco melhor que um barraco, no fundo da casa principal.

Esta pertencia a uma família que “contratara” D. Helena como caseira. Ela vivia então com seu casal de filhos além de um marido que pouco ajudava porque de há muito elegera o álcool como seu melhor amigo, seu objetivo de vida. Já o fazia há anos e recusava qualquer tipo de tratamento, orientação, ajuda, etc.

Eu digo “contratara” porque a eles, os donos da casa grande nada pagavam, apenas os deixavam viver na casinha dos fundos. Consideravam uma justa troca de favores e assim D. Helena olhava pela segurança da casa da frente e cuidava da aparência em volta da mesma. Ela podia ter empregos e nem lhe podiam impedir isto.

D. Helena viera como que fugindo lá de sua terra natal para Cabo Frio com seus dois filhos, à época, ainda pequenos, para tentar uma melhor sorte. Ela tanto avisara o marido, tanto lhe implorara que a ajudasse a salvar o casamento, mas ele já não assumia suas obrigações em família, pois desde o quarto ano de casados passara a não mais beber socialmente, porém rotineiramente.

Todas as tentativas para Sérgio, o marido, se submeter a tratamento médico, psicológico, a ter uma assistência de grupo especializado em atender pessoas dependentes de algum vício, eram por ele recusadas. O pior doente é aquele que não se quer curar. Lamentavelmente ele passava a aumentar esta lista. Já se escoaram, até agora, 25 anos.

Vinte cinco anos, bodas de prata para alguns, para ela, D. Helena, a esposa e mãe, um rosário de recordações tristes, mas também muito orgulho pela luta incansável que nunca a abateu. Ela sempre procurou trabalhar e, sozinha durante algum tempo, cuidou e sustentou seu casal de filhos, então bem crianças.

Um belo dia seu marido veio ao encontro dela, cheio de promessas de se corrigir, não mais beber etc, e eles voltaram a viver juntos. Infelizmente o prometido caiu no esquecimento e assim ele saltava de emprego para emprego, jogando fora boas oportunidades de trabalho, pois era um profissional bem qualificado.

O tempo passou, as crianças cresceram e logo mostraram ter herdado muito mais do caráter da mãe, felizmente. Estudam e trabalham. Mesmo ela tendo desejado afastá-los das cenas deprimentes a que eram submetidos antes, na terra natal, essas voltaram a ocorrer na “nova” fase da vida em comum.

Mas, naquele dia, 27/novembro, sábado, todos estavam unidos pela alegria de finalmente mudar para uma casa deles, só deles, o “canto” tão sonhado e bem maior do que o esperado. O terreno tem, ao todo, 360 metros quadrados. No caminhão alguns móveis, muita coisa miúda, e a cadela Thuany. Os móveis novos já haviam sido entregues no novo endereço nos dias anteriores.

Nos corações e mentes de cada um não havia espaço naquele momento para tristezas, para saudades, e se em seus olhos surgiam algumas lágrimas a responsável era indiscutivelmente a imensa felicidade que os dominava.

Durante algumas semanas os braços da família, nas horas vagas, haviam se juntado aos de alguns amigos que, num mutirão solidário, limparam o jardim, pintaram paredes, colunas, caibros, trocaram canos, revestiram o piso, as paredes dos banheiros, da cozinha, e de quebra colheram muitas frutas que os aguardavam, maduras, como que a lhes dar as boas vindas.

Há várias árvores frutíferas no terreno e também um grande espaço já separado para a tão sonhada horta que D. Helena sempre desejou plantar. Sem agrotóxicos.

A mudança ia se completando aos poucos e então eles se deram conta de que agora moravam na bonita casa grande, a da frente. Se nos fundos havia também uma casa de caseiro, completa, sala, quarto, cozinha e banheiro, ela iria ser reformada com o tempo para que Júlio, o filho, agora com 23 anos, morasse e tivesse uma certa independência. A escolha fora dele mesmo.

As horas se passavam, mas o cansaço não derrubava ninguém. Havia muito, muito mesmo que arrumar, que montar, que instalar. A mudança entrou pela noite e invadiu a madrugada daquele sábado, seguramente um dos mais felizes de suas vidas.

Até Sérgio mudara radicalmente sua rotina diária habitual. Sábado, domingo e segunda não saiu de casa. Só uma ida rápida à mercearia para comprar algo e... bem, aí fraquejou e tomou a maldita branquinha, só uma. Mas estava contente e prometendo que a partir de agora iria se controlar e sair do vício. Tomara que seja sincero, sua família merece tê-lo de volta como nos primeiros anos do casamento.

Dizem que “casa nova, vida nova”. Torço por eles. Até a mudança ficar completada ainda se passarão alguns dias ou semanas. Há muitos detalhes para pôr em ordem e deixar o novo lar definitivamente com a cara dos novos e felizes proprietários. Que Deus os abençoe e proteja.

(Esta história é verdadeira, apenas os nomes dos personagens foram trocados.)
 

 
(
04 de dezembro/2004)
CooJornal no 397


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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