11/12/2004
Ano 8 - Número 398

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

ASSIM SURGIU UM APRENDIZ DE ESCRITOR

 

Do meu amor pelo rádio todos que me lêem sabem muito bem. Que meu primeiro emprego na vida foi no rádio paraense, com apenas 17 anos, também devem se lembrar. Mas como surgiu o aprendiz de escritor, ou cronista?

Eu fizera um concurso para a Rádio Marajoara, que recém havia sido inaugurada em Belém, e pertencia aos Diários Associados. Eram 50 os candidatos, mas apenas dois foram aprovados: o Clodomir Colino, meu colega de classe no Colégio Nazaré, e que já era radio ator da Marajoara e.... eu.

Exultei, pois quando era criança eu chegara a criar minha própria rádio no porão de casa com latas perfuradas substituindo microfone, jornais, para ler noticiário de toda espécie, anúncios de propaganda, enfim, eu estava plantando uma semente que muitos anos depois acabou germinando.

Aprovado no concurso acima referido, fiquei sabendo que durante três meses eu e o Clodomir seríamos submetidos, sem receber salário, a um período de experiência, como locutores. E eles nos colocavam ora para a programação de abertura diária, das 6 às 8 horas, ora para o período de encerramento da programação, entre 22 e 24 horas. Naquele tempo as rádios não funcionavam em tempo integral.

Nós assumíamos nossas despesas de transporte, lanche e tudo o mais. Pelo menos, ao final do tal período experimental fomos ambos aprovados. Eu estava feliz. Enfim os meus sonhos de porão se concretizavam: eu era radialista.

Meus pais ficaram meio preocupados pois receavam que aquela minha atividade atrapalhasse, de alguma forma, os meus estudos, entretanto isto não aconteceu. E mais, a partir de um certo tempo meu bom pai português passou a ser o maior incentivador que tive. Mas, como entra o aprendiz de escritor nessa história?

Pois bem, naquele tempo, no rádio, nós éramos locutores, não comunicadores, como dizem agora. Éramos uma equipe e aquele que desempenhava o papel de chefe do grupo elaborava uma escala semanal. Nela, cada um de nós trabalhava ora num horário, ora em outro, ninguém tinha um horário determinado só para si, como hoje.

Quem iniciava seu trabalho às 18 horas tinha que ler sempre, na hora do Ângelus, um pequeno texto de um livro que já ficava no estúdio, sobre a nossa mesa de trabalho. Com o tempo os textos iam se repetindo, e não havia outro jeito de fazer. Eu achava aquilo muito monótono, cansativo mesmo especialmente para os ouvintes.

Surgiu-me então a idéia de redigir textos em casa, na velha máquina de escrever de meu pai e tentar lê-los na rádio. Ora, não havia dúvida de que eu iria cometer uma, digamos, insubordinação. Mas, eu estava decidido a arriscar.

Todo dia eu escrevia algo e levava aquela folha de papel no bolso, quando eu estava no horário das 18 horas, claro. Um pouco antes do horário eu trancava a porta do estúdio por dentro, colocava o texto na mesa, sobre o tal livro, e... pronto, lia algo de minha autoria. Eu achava o máximo. O contra-regra, que trabalhava na sala ao lado e era separado de mim por um grande vidro, tornou-se o meu “cúmplice”. Era a única testemunha do que eu fazia.

Certo dia a secretária do Diretor Artístico, que também era excelente rádio atriz, me chamou para uma conversa. Disse-me já haver percebido que quando eu trabalhava no horário das 18 horas algo de diferente acontecia. Afirmou que já sabia até de cor alguns dos textos do tal livro por onde os locutores tinham que ler as mensagens naquele horário, mas as que eu levava ao ar, segundo ela, eram completamente diferentes. Quis saber o que se passava.

Colocado o assunto com tanta clareza, com tanta convicção, não pude sequer “driblar” a afirmação da amiga e colega. Temi pelo pior. Afinal, até então, eu não tinha, da parte de ninguém, uma avaliação sobre os meus textos lidos na rádio. De qualquer forma não havia como negar e assumi a verdade.

Contei à ela o que eu estava fazendo e fui logo pedindo desculpas e prometendo que aquilo não mais se repetiria. Pois ela me surpreendeu ao me fitar com firmeza e afirmar que se eu parasse de ler os meus textos aí é que ela ficaria muito zangada. Nem acreditei, no primeiro instante, no que ouvia. Pedi que repetisse e ela o fez. Senti um imenso alívio e a paz me trouxe o equilíbrio emocional de volta.

Mais feliz fiquei quando a secretária do Diretor Artístico disse: “Já que se trata de um trabalho produzido por você, Simões, nada mais correto do que receber por ele.” Imaginem aquele jovem de 17 anos, em seu primeiro emprego, e já tendo a audácia de tomar uma iniciativa daquelas, ouvir uma declaração tão contundente de quem, momentos antes, eu julgara que iria ser o meu “carrasco”?!

Ela me prometeu que comunicaria tudo ao nosso Diretor Artístico, mas que faria a defesa da manutenção dos meus textos às 18 horas, e que também iria solicitar a devida remuneração, a mim, através de um cachê diário. E me perguntou: “Você poderia vir à rádio, mesmo não estando escalado naquele horário, para fazer a leitura das crônicas todos os dias. Você mesmo, claro?” Adivinhem que resposta eu dei?...

Como as crônicas eram lidas no horário do Ângelus, logo não faltou quem me apelidasse, no meio radiofônico, de “Moesim”, o poeta das montanhas... Explicaram que era uma mistura de Moisés com Simões. Grandes gozadores. Quando estive servindo ao exército, no CPOR de Belém, (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva) e ia acampar pelo interior do Estado, eu deixava todos os textos gravados. Onde eu estivesse, tinha sempre o radinho ao meu lado e os ouvia com muito orgulho e prazer. Havia sempre um pequeno “auditório” de colegas a ouvir junto comigo.

Pois é, e assim nasceu este aprendiz de escritor que depois ainda ousou enveredar pela poesia.

 
(
11 de dezembro/2004)
CooJornal no 398


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br