18/12/2004
Ano 8 - Número 399

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

MEUS NATAIS

 

Evidentemente que não pretendo contrariar a alegria renovada daqueles que comemoram o Natal efusivamente a cada ano. Afinal cada qual tem o direito de extravasar seus sentimentos pela vivência, pela experiência de vida de cada um, por tudo enfim que o Natal lhe tenha representado de positivo ou de negativo no correr dos anos.

Participei com entusiasmo das festas natalinas quando de minha infância, e em parte de minha juventude. Papai Noel sempre foi muito bom para mim, assim como para meus irmãos, já que nossos pedidos jamais deixaram de ser atendidos. Meus pais deviam ter muito boa influência junto ao bom velhinho.

Já há muitas décadas, todavia, confesso que até as bonitas músicas natalinas me empurram muito mais para um certo estado de torpor do que para alguma vibração de felicidade. Ao ouvi-las me entristeço, percorre-me uma emoção que, se não me deprime, também não me facilita sentir a alegria que parece tomar conta da maioria das pessoas.

Ainda assim insisti, por anos, com o hábito de enviar mensagens natalinas a muitos amigos e amigas que afinal nada têm a ver com o eco de negatividade que reflete o meu íntimo naquele período. Até já ajudei a enfeitarem o nosso prédio em Ipanema, caprichando na ornamentação numa espécie de concorrência com os edifícios vizinhos. Cada qual procurava fazer o melhor. A rua ficava muito bonita.

Hoje mais me limito a responder agradecendo os votos de Feliz Natal que alguns bons amigos carinhosamente me mandam. Não mais envio cartões, em grande quantidade, como o fazia até há alguns anos atrás. Fica mais coerente com os meus sentimentos em relação ao Natal.

Sinto uma certa dificuldade íntima em comemorar aquela data como festa. Com toda a sinceridade. Isto já vem comigo há muitos anos, nada tem a ver com a perda de minha esposa, ano passado. Prefiro me dedicar a atividades solidárias que nesta época mais se acentuam. Por algumas vezes, junto com Zezé e nosso sobrinho Márcio, participei do que chamamos de Natal de famílias carentes, aqui em Cabo Frio.

Ver olhares ansiosos de seres pequeninos, ávidos por um gesto de carinho, de atenção, de amor, que explodem em felicidade com um abraço, com um beijo, ou um simples presente que um Papai Noel, para eles alguém mágico, saído de algum conto de fadas ou coisa parecida, nos emociona e dá mais sentido ao nosso viver.

A carência porém era imensa, a fome estava presente nos pequenos corpos, nos seus olhares, e nos de suas mães, acabamos então por incluir na relação do que distribuíamos muitas cestas básicas. Alguns amigos colaboraram e fizeram ser possível que algumas famílias, por demais carentes, tivessem pelo menos um Natal sem fome. Esse é o Natal que me reconforta o resto é mercantilismo, é ilusão, e boa dose de egocentrismo.

Fico imaginando como eu poderia desejar um Feliz Natal a cerca de um sexto da população mundial que vive à míngua de quase tudo. Isto representa mais de um bilhão de seres humanos em vários continentes. Como sorrir e levar festa para quem nasceu com fome, sobrevive com fome, e aguarda a morte com fome?!

Quantos padecem sob a tortura de doenças as mais cruéis enquanto a riqueza mundial faz questão de os ignorar, de esbanjar em mais riquezas ainda, reproduzindo fortunas que ficam nas mãos, nos cofres, nas contas de uns poucos, bem poucos mesmo.

Riquezas que também financiam armas, que patrocinam guerras, que corrompem consciências, que deturpam verdades para que suas mentiras se sobreponham a elas, para que seus instintos e ganância tenham carta branca para matar em nome de um deus, de uma causa, ou satisfazer os anseios de um homem, ou de um grupo, investidos de tal poder que tudo fazem porque julgam que tudo podem e que ninguém pode nada contra eles e seus desmandos, geralmente cruéis.

Seres humanos são tratados com a frieza de dados estatísticos e parece que nada mais valem do que isso. Lembram-se deles apenas para apresentar relatórios sobre a pobreza, sobre a miséria crescente e incontrolável em nosso planeta, mas apenas para nos dar conhecimento desse mal que nunca merece dos governos mais ricos atenção e ações realmente efetivas, já que seus investimentos buscam sempre é o lucro.

Por outro lado, aplicar na miséria só rende “dividendos” em época de eleições, mesmo assim o interesse político não costuma passar para além das poucas linhas dos discursos. Assim tem sido e creio que assim será sempre. Portanto me é penoso fingir que nada percebo, que nada sinto, e lançar o meu brado de “Feliz Natal” a tantos que, do Natal, no máximo percebem músicas no ar.

Querer que se sintam felizes julgo que é exigir-lhes demais. Não esqueçamos quantos ainda morrem diariamente com o continuar de guerras e mais guerras por este planeta afora. O som do Natal para esses pode ser o explodir de bombas, de mísseis, as rajadas de metralhadoras, o ranger de tanques blindados e as cores serão as das explosões sucessivas e intermináveis. A loucura segue vencendo o bom senso, a crueldade se empenha em abater a esperança e a fé que desmoronam indefesas.

Para não parecer totalmente amargo, embora esteja sendo apenas realista e vendo e sentindo nosso mundo com meu senso humanitário, aos amigos e amigas e aos meus familiares estendo meus votos de saúde, de paz e de felicidade, e que na intimidade de vossos lares ainda reine o amor que é a razão do bem maior, que é o alicerce mais forte da vida.

 

 
(
18 de dezembro/2004)
CooJornal no 399


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br