12/02/2004
Ano 8 - Número 407

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

INFERNO NO PARAÍSO

 

Nossa querida Cabo Frio tem uma população residente de cerca de 140.000 habitantes. Hoje pode-se dizer que está muito bem cuidada. Adoro viver aqui quase o ano inteiro. Eu disse... quase, claro.

Por mais que eu já tenha passado aqui muitos verões jamais irei me conformar com as tantas conseqüências da verdadeira invasão que a cada ano se repete de primeiro de janeiro até o carnaval. Segundo estatísticas oficiais chegamos a receber, ora quase um milhão de turistas, ora até um pouco mais.

Além de ser inevitável termos que considerar que a infra-estrutura da cidade, em geral, acaba por não suportar tanta gente, há inúmeros “inconvenientes”, só para ser educado, que temos que aturar dos “invasores”.

Grande parte deles, que realmente contribuem bastante com os cofres da Prefeitura, têm, entretanto, alguns maus hábitos e parece que, durante sua estada por aqui, querem fazer catarse de seus problemas familiares, emocionais, ou de qualquer ordem, porém usando métodos onde a educação, a civilidade, a polidez, o respeito para com a cidade e seus habitantes não têm qualquer espaço.

Muitos nos passam a impressão de que, para eles, férias, é pisar no jardim do seu vizinho, estacionar veículos bloqueando a garagem dos mesmos, obrigar-nos a ouvir o seu mau gosto musical (com o volume que alguns usam não dá para evitar), dirigir na contramão, falar sempre alto, inclusive na madrugada, exagerar no álcool e submeter nossos ouvidos e nossos olhos a tristes e degradantes exibições de etilismo.

A cidade os recebe cheia de amor e com aquele largo sorriso que vem do mar, das dunas, de nossas lindas praias, do primoroso pôr-do-sol, obra magnífica da natureza, mas muitos deles sequer têm tempo ou sensibilidade para apreciar tanta poesia, para deixar-se abraçar pela felicidade que mora aqui.

Há tanta beleza à nossa volta, não obstante a brutal interferência humana nas obras da natureza durante décadas. Consta nos livros de história que no ano de 1503, o navegador florentino, Américo Vespúcio, quando passava pela costa brasileira, ao largo do que hoje é Cabo Frio, teria afirmado a um de seus homens:

“Se o paraíso terrestre está localizado em alguma parte, julgo que não é muito distante desta região.”

Pois é, o bom Vespúcio viu, sentiu e enalteceu a beleza desta região, infelizmente muitos turistas que cá vêm de férias, pintam é de inferno este nosso paraíso.

Ora direis: “Bolas, deixai-os viver, se divertir.” Pois é, só que eles poderiam viver e se divertir em clima de férias, porém não com atitudes quase “belicistas”, cuspindo grosserias, zombando, algumas vezes, de quem, vivendo aqui, é feliz. Tornam-nos, por vezes, em alvo de sua falta de educação. E, acreditem, não são poucos os exemplos.

A beleza de nossas praias, sua areia branca e fina como talco, a poética muralha de dunas que ladeia as praias, a melodia enviada pelo mar através do marulho em coro de suas ondas, tudo isso é abafado, sufocado, quase apagado, pela quantidade absurdamente imensa de pernas, braços, cabeças, gritos e etc e tal, que assolam a paz, a tranqüilidade habitual daquela paisagem.

Quem se atreve a caminhar entre aquele exército de banhistas visitantes arrisca-se permanentemente a tomar com uma “bola perdida” no peito, na cabeça, nas costas, disparada de raquetes proibidas naquele horário, mas para as quais a fiscalização faz vista grossa. ---“Ora, deixa a turma se distrair”... Pois é, amigos, pois é. Se o alvo for você ou algum filho seu... será que ainda insistirá naquela afirmação?!

Nossa Prefeitura, há alguns anos, inventou uma festa que antecede ao carnaval em 15 dias. Falo do “Cabofolia”. Este ano durou 4 dias. Ela se realiza no mesmo local onde depois ocorre o desfile das Escolas na época momesca. Quem mora nas proximidades não consegue dormir, evidentemente. Deveria ser uma explosão de alegria, de festa, de confraternização, das 23 horas até quase o sol raiar. Pois, deveria...

Infelizmente, pelas informações que tenho, o local costuma virar cenário de brigas e mais brigas, gratuitas, até em camarotes. Não obstante o policiamento, naquele imenso “salão”, no asfalto, em frente à praia, ocorrem às vezes cenas deprimentes promovidas, em geral, por pessoas sob o efeito do álcool e/ou de outras drogas.

Sim, porque o álcool é também uma droga, só que privilegiada, afinal dispõe de grandes espaços em toda a mídia que, hipocritamente se faz de “conselheira” quando recomenda: “Beba com moderação”!! Pois olhem, moderação é o que a turma não carrega para a tal de Cabofolia. Este evento é voltado para a época de maior afluxo de visitantes em nossa cidade.

Não se trata de ser contra o turismo, o que seria um absurdo, porém absurdo ainda maior, infelizmente, é termos que nos conformar que nosso paraíso se transforme num inferno no período da alta temporada de verão. A imensa quantidade de visitantes acaba também por atrair, para nossa cidade, uma marginalidade que não nos perturba durante o resto do ano. A violência também vem “veranear” aqui.

Resta-nos a esperança de que no próximo verão tudo seja diferente. Bem, tudo não, seria impossível, mas que alguns não esqueçam de, ao arrumar suas malas, nelas incluir mais educação, mais civilidade, mais cortesia, mais solidariedade, e aquela alegria que enfeita o ambiente, não que o perturba. Seria pedir muito?

 
(
12 de janeiro/2005)
CooJornal no 407


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br