19/02/2004
Ano 8 - Número 408

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

O QUE A MEDICINA NÃO EXPLICA


 

Costumo brincar dizendo que, por certos fatos que já aconteceram durante a minha vida, desde jovem, creio não ser deste planeta... Algumas visões, antecipações de fatos, alergia com a energia do chuveiro elétrico, entre outros pequenos fenômenos me levam, digamos, a esta “conclusão”.

Brincadeiras à parte, a verdade é que mais de uma vez já fiquei sem uma solução lógica e científica, por parte da medicina, para determinado problema. Em outros textos tenho comentado a respeito.

O fato a que vou me referir hoje começou a ser observado ainda durante a minha juventude, em Belém do Pará, minha terra natal. Os cinemas, nos anos 50, não dispunham de ar condicionado e em Belém faz um respeitável calor durante a maior parte do ano, ou quase o ano inteiro.

Tinha eu meus 14 ou 15 anos quando, em certo domingo à tarde, fora ao Cinema Iracema com uma namoradinha. Ele se localizava na Av. Nazaré e próximo à imensa Basílica da nossa santa padroeira. Havia ventiladores no grande ambiente do cinema mas eles eram insuficientes para refrescar a todos, claro.

Suar era uma coisa muito natural enquanto se assistia à uma sessão cinematográfica. Bem, suar sim, mas só de um lado do corpo, aí já fugia à lógica e denotava alguma anormalidade no meu corpo físico.

Foi minha namorada quem me chamou a atenção para o fato. Saíamos por um corredor lateral do cinema quando ela fez a observação. Julguei que ela estivesse brincando, mas logo pude comprovar que não. Tanto na parte de trás da camisa, quanto na parte da frente, havia uma nítida divisão entre o seco e o molhado.

Cheguei a retirá-la para melhor visualizar o verdadeiro “fenômeno”. O mais curioso ainda, e que só depois acabamos por concluir, é que o lado em que se encontrava sentada minha garota, ou seja, o meu lado esquerdo, era exatamente o que se encontrava seco, isto mesmo, completamente seco. O lado direito, entretanto, estava todo molhado de suor.

Havia no tecido da camisa uma divisão perfeita entre as partes de cima até embaixo. O fato inusitado provocou-nos risos e julgamos que fora apenas uma coincidência, naquele dia, e que algum fator, fora do nosso alcance, tivera sido o motivo daquilo. Até podia ser, mas na semana seguinte, o fato se repetiu e, daquela feita, minha namorada se posicionara do outro lado, ou, do direito.

Ao final da sessão lá estava eu com a camisa toda suada do lado esquerdo e completamente seca do lado ... direito. Não havia mais dúvidas de que se tratava de algo estranho e aparentemente inexplicável. A partir daquele dia passei a observar atentamente o tal “fenômeno” e, creiam, mesmo eu trocando de garota, o fato sempre se repetia dentro daquela regra: seco do lado onde estava sentada a pessoa e suado do lado oposto. A lógica indicava que deveria ser o contrário, mas, que lógica?!

Com o passar do tempo acabei comprovando que o fato ocorria qualquer que fosse a pessoa que estivesse ao meu lado e desde que meu corpo tivesse necessidade de suar. A descoberta se deu em um cinema, mas o lugar, em verdade, também não importava qual fosse, evidentemente.

Explique-se que se eu estiver sozinho, por exemplo, fazendo ginástica, suarei normalmente dos dois lados do corpo. Em qualquer outra situação em que eu sinta calor, estando só, suarei também em ambos os lados, isto é fato. A questão é por que tendo alguém perto de mim, ali ao meu lado, suo apenas do lado oposto?

Nunca, até hoje, encontrei alguém que tenha passado pela mesma situação. Com o tempo, e estando já no Rio, trabalhando no Departamento Médico do BB, levei o assunto a alguns médicos que eu consultara por outra razão qualquer. Nenhum deles teve resposta ou explicação científica para o que me acontecia. Apenas se mostravam curiosos, pediam detalhes, mas não chegavam à causa alguma.

Durante os quase 40 anos que convivi com minha Zezé pudemos nos divertir, digamos assim, percebendo meu corpo todo molhado de suor de um lado enquanto no outro, se colocássemos a mão, ela sairia totalmente seca. Incrível, fantástico, extraordinário?!

Parece algo sem importância, talvez até seja, para você que é normal, que jamais suou de um lado só. Para mim, entretanto, o fato carrega em si aquela curiosidade, aquele desejo de ouvir uma explicação, física ou não, científica ou não. Mas nada, permaneço com a interrogação que me acompanha a vida inteira, desde jovem.

Afinal este é apenas um de vários “fenômenos” com os quais tenho convivido, tanto interna quanto externamente, como ainda ontem de madrugada eu presenciei tendo apenas por testemunha o meu bom amigo Touche. Ele, que estando sempre vigilante, me chamara a atenção para algo que não conseguira identificar.

Eu dormia e ele me acordou por volta das 4 da madrugada com seguidos latidos e uma agitação característica de quando Touche me quer alertar sobre alguma coisa. Mas isto é outra história e qualquer dia eu a conto.

Por hoje fiquemos apenas com a problemática inexplicável do meu “Humor aquoso incolor, de odor particular, segregado pelas glândulas sudoríparas e eliminado através dos poros da pele”, como define o dicionário a palavra suor. A inteiro, ou a meio!!

 

 
(
19 de janeiro/2005)
CooJornal no 408


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br