05/03/2004
Ano 8 - Número 410

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

MISSÃO E EMOÇÃO


 

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Foi no ano de 1969. Eu trabalhava no Departamento de Treinamento de Pessoal, do Banco do Brasil, na Direção Geral. Ministrava aulas e coordenava cursos. Fui designado para comandar o primeiro deles realizado em Belém do Pará, minha terra natal, na Agência Centro local.

Deveria treinar um grupo de funcionários selecionados previamente para trabalha-rem depois como caixas-executivos. Era uma novida-de que o BB lançava, uma espécie de “teller”, o caixa que também conversava com os clientes e não continuaria  a ser aquela figura estática e programada apenas para receber e pagar. Hoje, não obstante a informática e a correria no atendimento, o “teller” ainda resiste.

Eu saíra de Belém em abril/1960 e retornava, com apenas 11 (onze) anos de Banco e 32 de vida, numa missão que muito me honrava. Foi bom ter como alunos “antigos” e novos colegas, alguns dos quais em trabalhara com eles entre os anos de 1957 (quando assumi no Banco) e 1960. O curso formou-se com uma turma de 40 alunos.

Também faziam parte da equipe de professores o meu bom amigo Renato Campos, professor de grafoscopia, e Vicente Costa, relações humanas. Todos os participantes tiveram um aproveitamento considerado, pela equipe, como excelente. Estavam, ao final do treinamento, preparados para passar da teoria à prática, desde que o intervalo entre uma e outra não fosse muito longo, claro.

Permaneci em Belém por mais de dois meses, pois ao final do curso fui destacado para outra missão tão ou mais emocionante, na mesma Agência. A ordem recebida do Rio de Janeiro era para eu tomar todas as providências a fim de implantar o sistema CAIEX imediatamente. Para os formandos isto era ótimo. Começar a atuar o quanto antes só os favorecia. A ordem chegara na hora certa.

Mas, e eu? Estaria preparado para agir como implantador de sistema? Na verdade esta tarefa era afeta a outro Departamento que dispunha de maravilhosa equipe de funcionários bem treinados para aquela missão. Eles haviam estado em Belém antes de mim e já tinham adotado as providências básicas para a implantação futura. Tendo convivido com alguns deles em várias oportunidades, em serviço, acabei por aprender muito da prática que desenvolviam. Foi útil para eu assumir a nova missão.

Não contava, porém, com a reação negativa do ilustre administrador local. Percebendo as dificuldades que se desenhavam à minha frente tratei de buscar respaldo na Direção Geral. Professor Admon Ganem, que posteriormente viria a ser Diretor de Pessoal do BB, confirmou a ordem que me fora passada. O apoio a mim concedido foi total e irrestrito. Jamais fui um servidor indisciplinado ou arrogante, por outro lado, nunca fugi da raia, como dizem, quando me apresentavam um desafio novo, estimulante.

Embora nos esforçássemos para manter um relacionamento amistoso com a gerência da filial, até em favor da missão que os novos caixas-executivos teriam pela frente, incompreensivelmente havia uma relutância que não queria calar, nem ceder. Felizmente todos os nossos “alunos”, embora funcionários daquela agência, cerraram fileira ao meu lado. Unidos metemos mãos à obra e deixei claro à administração que não atrasaria em nenhum dia a data de inauguração determinada pela Direção Geral. Afinal só queria cumprir com minha obrigação, nada mais.

Mesmo assim ainda tivemos que afastar algumas “pedras” do nosso caminho, todavia chegamos lá. Com bom humor comentávamos que se alguém rogava praga, visando ao nosso insucesso, teria que aceitar que, daquela vez, a união fez a diferença.

A missão, a cargo de 40 novos caixas-executivos e este aprendiz de implantador, alcançava seu ápice, carregando no bojo fortes emoções, não só pela árdua tarefa cumprida. Algumas vezes tivemos que entrar pela noite para poder transferir e adaptar arquivos de vários setores sem interferirmos na rotina diária dos mesmos. Trabalho realizado pelos alunos junto comigo.

Chegou enfim o dia da grande festa de inauguração. Presentes estavam o Governo do Estado do Pará, o Arcebispo, o Prefeito, o Inspetor Geral do BB, toda a Administração da Agência, inúmeros empresários, representantes de outros Bancos, imprensa em geral, etc. O grande saguão da Ag. Centro de Belém estava repleto.

Começaram os discursos. Por primeiro falaram as autoridades e o Gerente da Agência. Fui o último a fazer uso da palavra. Fiz uma explanação sobre o novo sistema de atendimento ao cliente, falei dos esforços da Direção do Banco visando à sua modernização, defini as etapas de treinamento de funcionários, falei da minha felicidade de estar ali, onde eu começara a trabalhar no BB apenas onze anos antes, e agradeci o empenho, a dedicação incansável dos novos caixas-executivos coroada, naquele momento, com a inauguração do novo sistema.

Bem, escolhi a foto ao lado para acompanhar este texto porque, entre tantas outras da cerimônia, ela registra, além da minha fala, a emoção que se escondia atrás de uma das grandes colunas do saguão ao lado esquerdo da imagem.

A emoção amiga, que me acompanhou a vida inteira, que nunca me faltou em momento algum com sua palavra de apoio, que foi crítica quando visava sempre me corrigir ajudando-me a não errar, que me amou como a todos os meus outros nove irmãos e irmãs: o meu pai, Manuel Mário, português.

Na foto ele está indicado por uma seta. Atento, olhar para o alto, de óculos, dedicava toda sua atenção às minhas palavras. Após a cerimônia ele foi me abraçar e, ainda comovido, disse ter deixado fugir algumas lágrimas de alegria emocionada e não queria que eu visse. Para mim isto foi a coroação maior do meu trabalho, daquela missão. Como dizem: recordar é viver.

 
(05 de março/2005)
CooJornal no 410


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br