Pois é, amigos, muitos de nós, brasileiros, temos o hábito de acusar o
nosso próprio povo de não saber votar. Já abordei este assunto e deixei
bem claro minha discordância quanto a esta convicção que a mim não
convence.
Alguns parece que preferem não enxergar que a culpa recai muito mais
sobre os políticos os quais, sem escrúpulo algum, sem qualquer
pudicícia, mentem desavergonhadamente fazendo promessas, em campanha,
que depois de eleitos lançam ao ostracismo politiqueiro.
Ora, o povo tem que acreditar em alguma coisa, e se considerarmos que
até o mais ansiado, o mais esperado, o mais sonhado dos candidatos à
presidência, mesmo ele, que levantou tanto a bandeira da esperança, por
nós também içada, agora prova que está muito difícil, muito mesmo, se
acreditar em palavra de político, como podemos ter a injusta capacidade
de acusar nossa gente pelos erros que os eleitos cometem?
Mas, vejam só o que está ocorrendo nos EUA. Lá onde acreditamos que as
pessoas têm maior grau de cidadania, são muito mais politizadas,
reelegeram o Sr. Bush para um segundo mandato. Parecia inicialmente que
ia ser uma disputa muito equilibrada entre ele e seu adversário
democrata. Isto não se confirmou.
Lembro que, segundo informou largamente a imprensa americana, o Sr.
Bush acabou por ter uma votação muito expressiva e, segundo
salientaram, teria sido o maior número de votos, considerando-os
unitariamente, que um candidato a presidente já teve naquela nação.
Algo que parecia impossível de acontecer.
Até aí eu não tenho nada com isso, pois mesmo preferindo que ele não
ganhasse há que respeitar democraticamente a vontade do povo americano.
Quanto ao “resto do mundo” que se cuide. Toda atenção será pouca,
garanto.
Bem, ocorre que agora no começo deste ano de 2005, alguns dias antes da
posse de Bush para o seu segundo mandato, efetuaram pesquisas nos EUA
buscando avaliar em que condições de apoio ele iria ser novamente
empossado. Não sei se todos vocês acompanharam este fato.
Segundo foi divulgado pelo NYT e amplamente espalhado pela imprensa
internacional, apenas, repito, apenas 49% dos americanos o estariam
apoiando agora. Muitos eleitores de Bush teriam se confessado
arrependidos de terem votado nele para o segundo mandato.
Ora, ora, ainda bem que arrependimento não mata, ou poderíamos ter uma
espécie de “suicídio coletivo” ou algo parecido...
É aí que eu questiono o tal grau de politização daquele povo. A bem da
verdade, o Sr. Bush andou repetindo, desde antes da segunda posse, o
mesmo discurso, as mesmas promessas, as mesmas propostas que usou para
angariar votos e se reeleger. Não nutro nenhuma simpatia por ele, pelo
contrário, mas tenho que admitir que ele tem mantido coerência em
palavras e atitudes, logo...
Votaram nele sabendo de suas idéias belicistas, embora sempre o diga
que fará guerras, sim, se preciso for, mas para “defender a liberdade
de povos oprimidos” por regimes que qualificou de tiranos. Claro que
ele se auto elegeu também em juiz supremo e único com poderes totais
para indicar quais serão esses países.
Votaram nele sabendo que, entre outras coisas que nos assustam, seu
governo “irá espalhar a democracia para todas as nações e povos do
planeta”. Votaram nele conhecendo suas intenções intervencionistas,
colocando seu país como permanente alvo de terroristas e todo tipo de
antiamericanismo.
Votaram nele sabendo que sua política externa se resume a promover
guerras, incentivar rebeliões, como ele mesmo afirmou para os que
supostamente não estiverem satisfeitos com seus governos. Palavras dele
publicadas na imprensa internacional por ocasião da posse em 21.01.05 e
dirigidas aos eventuais “insatisfeitos”: -- “Estaremos com vocês.” Isto
soa mais como ameaça do que como alguma ajuda.
Votaram nele já o tendo ouvido dizer o que voltou a repetir na posse:
--“- A melhor esperança de paz em nosso mundo é a expansão da liberdade
por todo o planeta.”—Até seria mesmo, mas não quando um só poder, uma
só nação, se arroga o direito de definir “liberdade” e também
“democracia”, sob sua ótica, e tem a pretensão de nos ensinar como
viver e sermos felizes.
E agora muitos de seus eleitores disseram naquela pesquisa estarem
arrependidos do voto que deram, arrependimento que ocorreu em menos de
2 meses de ocorrida a eleição?! Perdão, bons amigos críticos, e o povo
brasileiro é que não sabe votar, que não possui um grau de politização
para eleger o que os senhores entendem serem as... “pessoas certas”?!
Já se viu que não há “pessoas certas” quando a disputa é pelo poder. Aí
estão os inúmeros exemplos a se repetirem.
Por favor, me desculpem, cansei deste tipo de preconceito. Nada mais
tenho a acrescentar, mas os nossos críticos me fariam um grande favor
respondendo, sem mágoas e com a maior das sinceridades: “Afinal quem
não sabe votar?!”
(19 de março/2005)
CooJornal no 412
Francisco
Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br