19/03/2004
Ano 8 - Número 412

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

AFINAL QUEM NÃO SABE VOTAR?!


 

Pois é, amigos, muitos de nós, brasileiros, temos o hábito de acusar o nosso próprio povo de não saber votar. Já abordei este assunto e deixei bem claro minha discordância quanto a esta convicção que a mim não convence.

Alguns parece que preferem não enxergar que a culpa recai muito mais sobre os políticos os quais, sem escrúpulo algum, sem qualquer pudicícia, mentem desavergonhadamente fazendo promessas, em campanha, que depois de eleitos lançam ao ostracismo politiqueiro.

Ora, o povo tem que acreditar em alguma coisa, e se considerarmos que até o mais ansiado, o mais esperado, o mais sonhado dos candidatos à presidência, mesmo ele, que levantou tanto a bandeira da esperança, por nós também içada, agora prova que está muito difícil, muito mesmo, se acreditar em palavra de político, como podemos ter a injusta capacidade de acusar nossa gente pelos erros que os eleitos cometem?

Mas, vejam só o que está ocorrendo nos EUA. Lá onde acreditamos que as pessoas têm maior grau de cidadania, são muito mais politizadas, reelegeram o Sr. Bush para um segundo mandato. Parecia inicialmente que ia ser uma disputa muito equilibrada entre ele e seu adversário democrata. Isto não se confirmou.

Lembro que, segundo informou largamente a imprensa americana, o Sr. Bush acabou por ter uma votação muito expressiva e, segundo salientaram, teria sido o maior número de votos, considerando-os unitariamente, que um candidato a presidente já teve naquela nação. Algo que parecia impossível de acontecer.

Até aí eu não tenho nada com isso, pois mesmo preferindo que ele não ganhasse há que respeitar democraticamente a vontade do povo americano. Quanto ao “resto do mundo” que se cuide. Toda atenção será pouca, garanto.

Bem, ocorre que agora no começo deste ano de 2005, alguns dias antes da posse de Bush para o seu segundo mandato, efetuaram pesquisas nos EUA buscando avaliar em que condições de apoio ele iria ser novamente empossado. Não sei se todos vocês acompanharam este fato.

Segundo foi divulgado pelo NYT e amplamente espalhado pela imprensa internacional, apenas, repito, apenas 49% dos americanos o estariam apoiando agora. Muitos eleitores de Bush teriam se confessado arrependidos de terem votado nele para o segundo mandato.

Ora, ora, ainda bem que arrependimento não mata, ou poderíamos ter uma espécie de “suicídio coletivo” ou algo parecido...

É aí que eu questiono o tal grau de politização daquele povo. A bem da verdade, o Sr. Bush andou repetindo, desde antes da segunda posse, o mesmo discurso, as mesmas promessas, as mesmas propostas que usou para angariar votos e se reeleger. Não nutro nenhuma simpatia por ele, pelo contrário, mas tenho que admitir que ele tem mantido coerência em palavras e atitudes, logo...

Votaram nele sabendo de suas idéias belicistas, embora sempre o diga que fará guerras, sim, se preciso for, mas para “defender a liberdade de povos oprimidos” por regimes que qualificou de tiranos. Claro que ele se auto elegeu também em juiz supremo e único com poderes totais para indicar quais serão esses países.

Votaram nele sabendo que, entre outras coisas que nos assustam, seu governo “irá espalhar a democracia para todas as nações e povos do planeta”. Votaram nele conhecendo suas intenções intervencionistas, colocando seu país como permanente alvo de terroristas e todo tipo de antiamericanismo.

Votaram nele sabendo que sua política externa se resume a promover guerras, incentivar rebeliões, como ele mesmo afirmou para os que supostamente não estiverem satisfeitos com seus governos. Palavras dele publicadas na imprensa internacional por ocasião da posse em 21.01.05 e dirigidas aos eventuais “insatisfeitos”: -- “Estaremos com vocês.” Isto soa mais como ameaça do que como alguma ajuda.

Votaram nele já o tendo ouvido dizer o que voltou a repetir na posse: --“- A melhor esperança de paz em nosso mundo é a expansão da liberdade por todo o planeta.”—Até seria mesmo, mas não quando um só poder, uma só nação, se arroga o direito de definir “liberdade” e também “democracia”, sob sua ótica, e tem a pretensão de nos ensinar como viver e sermos felizes.

E agora muitos de seus eleitores disseram naquela pesquisa estarem arrependidos do voto que deram, arrependimento que ocorreu em menos de 2 meses de ocorrida a eleição?! Perdão, bons amigos críticos, e o povo brasileiro é que não sabe votar, que não possui um grau de politização para eleger o que os senhores entendem serem as... “pessoas certas”?! Já se viu que não há “pessoas certas” quando a disputa é pelo poder. Aí estão os inúmeros exemplos a se repetirem.

Por favor, me desculpem, cansei deste tipo de preconceito. Nada mais tenho a acrescentar, mas os nossos críticos me fariam um grande favor respondendo, sem mágoas e com a maior das sinceridades: “Afinal quem não sabe votar?!”
 

 
(19 de março/2005)
CooJornal no 412


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br