26/03/2004
Ano 8 - Número 413

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

VÔOS DE PAPEL


 
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Aqui estou mais uma vez neste meio de tarde de um verão ameno com céu azul e um sol bem companheiro a essa hora no quintal da casa nova da amiga Marlene. Eu que fui criado em casa muito grande com três quintais, um dos quais tendo quase o tamanho de um campo de futebol, em Belém do Pará. Uma infância para nunca esquecer.

Pena que os meninos não estejam cá hoje. Afinal há um festival de pipas no ar, de todas as cores, de todos os tamanhos e para todos os gostos. Outro dia estávamos todos aqui, os filhos de Marlene, o namorado de Grasiele, três sobrinhos pequenos e quatro bons amigos. Pipa que ia, pipa que vinha, derrotas, vitórias e uma alegria que unia corações, mãos e mentes.

Postei-me no quintal por horas até o sol baixar definitivamente. Com o  horário de verão há clima para soltar pipas até cerca das 20 horas, aqui em  Cabo Frio, neste agradável bairro Jardim Náutilus. Nas três principais ruas  há apenas casas grandes, pequenas, algumas inacabadas, terrenos ainda vazios  e um silêncio que garante a paz dos moradores.

De repente percebo que numa pequena área do espaço há oito pipas em  tentativas de cruzas os mais variados. É emocionante, amigos, creiam. Se  você teve uma boa infância, completa, com certeza se familiarizou com este  "esporte". São os "vôos de papel" que descrevi em poema escrito em dezembro/1999.  Nele eu me dirijo a um menino.

Olho para o outro lado e vejo outras 6 pipas ainda se estudando, sem  partirem para as tentativas de confronto direto. Elas fazem que vão, mas  voltam, até tentarem novas investidas. Há que estudar bem a atitude dos  demais "concorrentes" posto que algumas vezes dois ou três dos que empinam  seus papagaios de papel fazem jogo de grupo. É verdade. Só se defrontam  quando não restam, digamos, “adversários”.

Gosto de apreciar as manobras, as piruetas, feitas geralmente com muita técnica, muita criatividade, muita perícia. Não basta apenas cruzar as linhas, não, há rituais de manobras a serem seguidos de acordo com a conveniência, o vento, forte ou fraco, o comportamento do concorrente, a altura das pipas, e o ambiente em volta. Muito cuidado também com árvores altas que podem interromper o sonho de uma vitória.

Ah, a torcida em que ficamos para que uma pipa com a linha cortada possa ser trazida pelo vento de presente para nós. No domingo passado, já carnaval, duas pousaram suavemente, uma no telhado, a outra, na mangueira, no quintal de Marlene. Pipas custam barato, mas quando as cortamos e aparamos elas sabem a troféu. Quando nos vêm “de presente” compensam as perdidas em batalhas tantas por este céu azul divino.

Por um momento mergulhei meus pensamentos no túnel do tempo e voei a um passado bem distante, muito distante mesmo. Recordei-me que quando era garoto, em certos domingos meu pai me levava para o alto de um prédio de uma conhecida empresa de Belém. Havia um imenso pátio a descoberto. A vista era deliciosa. Lá se reuniam muitos homens de negócio, além, de advogados, engenheiros, juízes, etc.

Se você imagina que havia algum tipo de assembléia, congresso, ou coisa parecida, para debaterem assuntos de alta relevância, enganou-se. Uns iam de bermuda, outros de short de praia, todos bem à vontade carregando suas imensas pipas, grandes carretéis de linha, rabiolas, prontas e por fazer, e indispensáveis sanduíches, refrigerantes, salgadinhos etc.

Para alçar as pipas não faziam nenhum tipo de esforço, pois ali, naquela  altura, o vento era um aliado constante e incansável. Lembro como se fosse hoje as expressões de alegria de meu pai, mas também os xingamentos  eventuais nas perdas quando todos gozavam o derrotado nos cruzas. Aquele  bando de homens sérios voltavam à infância por algumas horas e dava gosto  assistir a tudo aquilo.

Na grande casa em que vivi minha infância era fácil soltar pipas, ou pandorgas, ou papagaios. Os quintais eram mesmo muito grandes e o céu se espalhava em larga escala sobre nossas cabeças. Recordo-me de um rapaz, da Travessa do Humaitá, ali perto, que costumava mandar ao ar pipas imensas com rabiolas incríveis onde ele, maldosamente, escondia pedaços de gilete entre as tiras de papel.

Todos procuravam evitar confrontar-se com ele, mas nem sempre era possível fugir o tempo todo. Aquilo era uma deslealdade, mas enfim, não havia leis nem regulamentos a serem cumpridos que pudessem evitar tal comportamento. Além de que o sujeito tinha muita habilidade no manejo de seu gigantesco papagaio de papel.

Volto ao presente e percebo que o sol já se despede e vai descendo por trás de uma linda e grande casuarina. Até isto a nova casa de Marlene tem de agradável: um dos mais bonitos pôr-do-sol desta cidade.

Agora umas poucas pipas ainda permanecem no ar, mas logo estarão também se recolhendo como inúmeras aves que voam em bando dirigindo-se para um trecho do Canal de Itajuru. Há lá uma pequena ilha coberta de árvores, onde elas vão dormir por mais uma noite. A maioria se compõe de garças. É um espetáculo lindo.

Ainda deu tempo de eu ver uma bonita pipa, cortada, descer bem no meio da rua, em frente à casa de Marlene. Abri o portão para tentar pegá-la e dar de presente ao Julinho, filho da amiga, e um dos heróis naquela tarde. Pois sim, cinco rapazes já disputavam a posse do papagaio sem dono. Fui apenas um privilegiado espectador.

 



(26 de março/2005)
CooJornal no 413


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br