09/04/2004
Ano 8 - Número 415

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

LATAS VAZIAS


 

Habitualmente faço minhas compras para casa no Hiper Mercado ABC, aqui em Cabo Frio, duas vezes por mês. Sempre foi assim. Tenho lá alguns bons amigos que nos ajudam, à saída, ensacando tudo e levando até o carro, no estacionamento. Sempre os gratifico dignamente.

Hoje em dia, minha amiga e dama de companhia, a Marlene, é quem me acompanha e coordena a maior parte dos alimentos a serem adquiridos. Sem o controle dela eu estaria perdido. Cuido de coisas como bebidas (água mineral, refrigerantes e sucos), leite, queijos, enfim, a carga maior fica mesmo com minha boa amiga.

Ali por volta das 18 horas costumamos fazer uma pausa, indo “enganar” o estômago na lanchonete interna do ABC. Naquela tarde nós acabáramos de lanchar e Marlene se afastara para ir pegar mais alguns artigos. Eu permaneci sentado ocupando uma das mesas.

Estava mergulhado em meus pensamentos quando percebi, à distância, que um senhor, de estatura baixa, bem afeiçoado e bem vestido, cujos cabelos brancos o escalavam certamente para o “meu time” etário, movia-se lentamente de uma mesa a outra. Não percebi inicialmente o que ele fazia.

De repente, porém, tive a atenção despertada para um lindo bebê cujo carrinho haviam estacionado próximo a mim. Era o outro extremo da vida. Sorri para ele, mas percebi que a mãe não aprovara minha iniciativa. Certo, afinal hoje em dia anda a ocorrer tanta violência, incluindo o seqüestro de bebês, que entendi a posição dela.

Procurava disfarçar quando ouvi uma voz, à minha esquerda: “O senhor se importaria de me dar essas latinhas que estão sobre a sua mesa?” Reparei tratar-se justamente do senhor a que aludi acima. Não hesitei e logo lhe entreguei a primeira e como a outra ainda contivesse guaraná “diet” derramei o líquido no meu copo e passei às mãos dele a segunda latinha.

Ele as pegou com a mão direita e as colocou numa sacola de compras que segurava com a mão esquerda. Enquanto o senhor me agradecia fiquei imaginando o que levaria uma pessoa como aquele cidadão, repito, bem vestido, bem afeiçoado, sem qualquer vestígio de mendicância, por exemplo, a recolher latinhas vazias!

Eu já vi, muitas vezes, especialmente na praia, pessoas que recorrem a este tipo de trabalho para melhorarem a sua renda familiar. Ocorre que ele realmente não tinha o tipo de alguém que necessite de tal atividade para sobreviver.

Nada falei àquele senhor, mas creio que o silêncio de minha interrogação, para ele que me olhava nos olhos naquele momento, deve ter falado muito alto ao bom observador e sensível homem. Ele me endereçou um sorriso sereno e triste e falou a seguir:

- “Essas latinhas, amigo, vão me ajudar a comprar o medicamento, antidepressivo, que minha mulher necessita tomar diariamente. É a vida, os preços vivem a subir e o salário de um aposentado, como eu, não os alcança nunca. Faço tudo que for preciso fazer para não ver minha mulher piorar, como já aconteceu há um ano atrás.” -

Uma emoção silenciosa muito forte percorreu meu sistema nervoso abalando a tranqüilidade em que me encontrava até então. Lembrei que também sou aposentado, mas que estou em outro nível social bem diferente e não só por eventuais méritos de toda uma vida de trabalho, mas porque o destino escreveu para mim um script bem diferente do que coubera àquele amigo.

Cheguei a pensar em oferecer-lhe alguma ajuda em dinheiro, porém como ele nada pedisse fiquei com receio de que este gesto pudesse muito mais soar como certa ofensa do que ajuda. Uma senhora, certa vez, recusou minha oferta em situação idêntica.

Ele se despediu e foi à mesa ao lado onde haviam deixado também duas latas de refrigerantes e a seguir se dirigiu ao latão que estava logo atrás de nós. Procurou mais algumas latinhas ali depositadas e seguiu seu caminho se afastando da lanchonete. Eu o acompanhei com os olhos.

A uma certa distância ele voltou-se para mim e me acenou levando junto o mesmo sorriso morno e triste, carregando no peito, certamente, um coração magoado, sofrido, mas sem expressar a revolta a que tinha todo o direito.

Quando Marlene retornou e me chamou para continuarmos nossa andança pelos corredores do ABC pedi-lhe que sentasse mais um pouco e contei-lhe a história que acabara de se desenrolar à volta de mim. Ela teve um passado bem longo de lutas e sofrimentos, sem que a vida lhe facilitasse nada, pelo contrário. Ela entendia bem.

Sensível que sou aos sentimentos humanos, costumo ser tocado no fundo de minha emoção quando presencio ou participo dessa rotina de injustiças que a vida impõe a tanta gente que parece ser “castigada” por um destino que jamais revela suas razões.

Naquele momento senti-me uma lata vazia, impotente para entender ou mudar a má sorte daquele senhor que deveria carregar com ele uma justificada sede de felicidade que lhe está a ser negada quando a vida já lhe impõe um peso de idade em que é difícil, muito difícil, semear alguma esperança de ainda poder alcançá-la um dia.
 

 
(09 de abril/2005)
CooJornal no 415


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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