16/04/2004
Ano 8 - Número 416

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

DO AMOR À VIOLÊNCIA


 

Outro dia quando foi divulgada minha crônica “Latas Vazias”, no Coojornal, da revista virtual Rio Total, entre os vários comentários que recebi um se destacou pelo acontecimento narrado por minha amiga e leitora de uma cidade do interior de S. Paulo.

Neusa é daquelas pessoas que dificilmente deixa de dar alguma palavra sobre o meu trabalho, o que naturalmente faz muito bem a quem escreve, pois nos estimula a prosseguir e a tentar sempre fazer o melhor que pudermos.

Na mensagem dela, que me chegou com data de 12.04.05, o primeiro parágrafo já prenunciava algo muito preocupante, e que infelizmente vem se tornando rotina pelo Brasil afora, já não mais só nas grandes cidades.

Vou transcrevê-lo para vocês com a permissão dela: “Ao contrário do bom velhinho que pegava latas para vender e comprar medicamento para esposa doente, (ponto central daquela minha crônica) dois rapazes saudáveis e cheios de vida queriam ganhar dinheiro fácil.”

A seguir minha boa amiga iniciou a narrativa dramática por que tantas famílias têm passado atualmente. Sua filha, ao sair do trabalho e ir ao encontro do marido para almoçarem juntos, acabou por ser vítima de um desses chamados “seqüestros relâmpagos”. Notem que eram apenas cerca de 13 horas.

A jovem, indefesa, como vivemos todos nós neste país da corrupção, da impunidade, das injustiças sociais e mais recentemente da violência cruel e crescente, foi obrigada a entrar em seu próprio veículo em companhia dos marginais.

Evidentemente que como ela não comparecesse ao encontro com o marido e nem desse qualquer notícia surgiu a preocupação que foi, com o passar das horas, se transformando em angústia para a família inteira.

Ela fora obrigada a sacar dinheiro e entregá-lo aos seus algozes. Este fato foi logo percebido pelo marido ao procurar obter um extrato da conta deles. Este tipo de ação é chamada de “relâmpago” mas, para quem a sofre, com certeza parece durar uma eternidade.

Até porque os que a praticam procuram atemorizar a vítima de várias formas de modo a que ela fique ainda mais aterrorizada e colabore. Assim aconteceu. Aos gritos despejavam nos ouvidos da vítima palavras de ordem e ameaças de todo tipo.

O tempo fugia ligeiro nas aceleradas batidas dos corações de seus familiares. O silêncio aumentava a tortura psicológica de todos. A filha de minha amiga, por seu lado, procurava manter uma aparente calma que clamava silenciosamente por sua vida diante de tamanha agressividade.

Conforme a jovem contou depois, os marginais a obrigaram a levá-los em outra cidade próxima, quando então a libertaram da prisão covarde e torturante sob a mira de uma arma. Até aí decorreram pouco mais de três horas. Tempo que durou o drama de sua família e dela mesma, isto porque ainda a levaram em outros Bancos por não terem acreditado que naqueles ela não teria saldo.

Apoiada em sua inabalável fé em Deus e em sua bondade e humanismo, minha querida amiga disse não ter sentido ódio ou algo pior por aqueles jovens desencaminhados numa vida fora-da-lei. Reproduzo aqui mais algumas de suas palavras quase ao final da mensagem que me enviou:

“Sabe-se lá o quê se passa pela cabeça desses infelizes. Se expõem, correm risco e colocam a vida das pessoas que estão lutando para ganhar o pão de cada dia honestamente em risco igual ou ainda maior...”

Senti nas primeiras palavras da mensagem da amiga a intenção de estabelecer uma comparação entre os procedimentos completamente antagônicos entre os jovens que mergulharam na marginalidade em busca de obter dinheiro fácil, se é que podemos chamar assim, e o senhor, personagem central da crônica “Latas Vazias”, que recolhia as latinhas para ajudar na compra dos medicamentos que iriam ajudar a manter a saúde de sua esposa, também idosa, já que vive com salário mínimo.

Não vai aí nenhum sentido de crítica sobre a juventude de uma forma geral, absolutamente, até porque muitos dos nossos jovens felizmente não se incluem nos times que agridem pessoas gratuitamente, pelos mais fúteis motivos, ou nos que desgraçam sua vida ao enchafurdar-se pela senha do alcoolismo, das drogas e do crime.

Outros comentários que me foram dirigidos sobre “Latas Vazias” realçaram, no procedimento daquele senhor que recolhia as latinhas, o amor, o amor verdadeiro, traduzido no desprendimento dele ao buscar, numa atividade lícita, embora mais exercida por pessoas completamente carentes de tudo, o que lhe faltava para poder manter a saúde de sua esposa, através do equilíbrio emocional dela.

Amor que certamente não sensibilizaria os jovens seqüestradores da filha de minha amiga porque em seus corações não deve ter sobrado espaço para ele. É por essa e por outras que eu não aceito justificativas de que a pobreza, o desemprego, entre outras injustiças sociais de nosso país, levem pessoas ao crime, às drogas, etc. É uma farsa.

A maioria esmagadora da população carente deste Brasil sobrevive a duras penas mas jamais enveredou por caminhos tortuosos e fora-da-lei no afã de se manter viva. Ao contrário, os piores exemplos, desde a corrupção até os crimes hoje tão banalizados, vêm sendo praticados por pessoas da classe média nos seus variados níveis, inclusive em escalões do poder. Só não enxerga quem não quer ver a verdade.
 

 
(16 de abril/2005)
CooJornal no 416


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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