22/04/2004
Ano 8 - Número 417

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

VOLTANDO AO ASSUNTO


 

Amigos, me desculpem, não tenho o hábito de insistir na mesma temática por duas ou três crônicas seguidas, mas, neste caso, julgo ser importante e mesmo oportuno, e deixá-la de lado, agora, poderia ser atirar fora a oportunidade que nos tem sido oferecida desde a crônica LATAS VAZIAS e agora em DO AMOR À VIOLÊNCIA.

Ambas foram divulgadas neste mesmo Coojornal em duas semanas consecutivas. Da lição de amor, como disseram alguns leitores, daquele senhor que recolhia latas vazias para ajudar no tratamento da saúde de sua esposa, ao assustador exemplo de violência que me foi contado pela amiga Neuza, fato ocorrido em S. José dos Campos (SP), vários outros comentários me fizeram pensar e repensar sobre o que escrever.

Decidi então que não podia ignorar alguns outros fatos a mim narrados e deles destaco mais dois. É muito difícil, muito complicado, ver-se crianças para as quais desejamos o melhor dos futuros, ainda que não sejam nossos filhos, com as quais convivemos e cujas famílias são vizinhas e amigas nossas.

De repente, em sua juventude, jogam por terra nossas esperanças de os ver alicerçar este país tão necessitado de brasileiros e brasileiras que ajudem a mudar, para melhor, o rumo que nossos políticos atuais não conseguem, ou não têm maior interesse em fazê-lo.

Foi o que me chegou de uma leitora amiga de uma cidade do interior catarinense. Ela se disse meio assustada ao testemunhar que algumas daquelas antigas e doces crianças, ao crescerem, agora descem ao inferno das drogas.

Pior: “Moro numa cidade pequena e que sempre foi pacata, porém certos jovens, cujos pais jamais poderiam supor, adentram casas por aqui, espancam idosos, como semana retrasada, por exemplo, pra levarem suas parcas aposentadorias.” – E mais adiante, de forma emocionada, ela afirma: -- “São meninos que eu vi crescer...” “... a dor daqueles pais é também a minha, porque lecionei pra muitos jovens e crianças de minha cidade.”

Sabe-se muito bem que hoje não é mais “privilégio” das grandes cidades conviver com essa violência urbana. Ela se tem espalhado pelo país afora, tem fincado raízes nos mais distantes rincões de nossa pátria. Antes esses fatos nos envergonhavam, agora nos assustam cada vez mais. Infelizmente algumas pessoas vão se acostumando e se alheando à realidade, numa atitude que condeno. Preferem até ignorá-la, enfiar a cabeça num buraco e fazer de conta que isto não tem nada a ver com elas.

Um dia, amigos e amigas, essa mesma violência que nos cerca nas ruas, à noite ou de dia, que nos tranca dentro de casa, que nos faz levantar grades à nossa volta, que nos aprisiona, poderá estar, apesar dos nossos cuidados, invadindo nossos castelos de areia. Muitos casos já comprovam o que digo, isto quando a violência não nasce, cresce e acaba por explodir no seio de tantas famílias.

Os noticiários andam a repetir com uma freqüência infernal casos em que pais matam filhos e vice-versa, netos assassinam avós, maridos contratam a morte de esposas e vice-versa, fora os estupros mais absurdos e condenáveis a ponto de a história ocorrida entre Abel e Caim virar conto para crianças...

Outra amiga, Cibeles, excelente escritora, que também me honra com sua leitura e seus comentários habitualmente, fala-me:

“Francisco, suas crônicas tocam em assuntos que vivemos ou ouvimos sempre. É como se muitos de nós estivéssemos vivendo o fato. Agora que já não tenho tanta força para sair correndo, parece que o medo aumenta. Não saio mais à noite. Mas acho que são um problema social, tanto a violência como o medo.”

O desânimo dessa boa amiga se resume nesta confissão: “Precisei sair de onde morava, de minha propriedade, para viver no centro, pagando aluguel. Não tinha mais condições de morar lá.” – Ela vive numa cidade do interior de S. Paulo.

Quando omito o nome da cidade, ou mesmo o de quem me escreve, o faço em respeito à solicitação a mim apresentada por quem me colocou a par dos fatos. Mas, hoje em dia, também não é tão importante registrar-se os locais onde a violência já chegou e está atuante. Afinal o difícil está sendo encontrar-se algum “paraíso” neste país, ou quiçá, neste mundo, se é que existe.

Claro que ganham mais destaques na imprensa nacional e até mundial as ocorrências de choques entre grupos rivais de traficantes, os assaltos seguidos de morte, especialmente de turistas estrangeiros, as chacinas, ora promovidas por bandidos, ora até por grupos de policiais que desmerecem a farda que vestem, quando ocorrem nas grandes metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Todavia não esqueçamos que também são violência a corrupção, a impunidade, especialmente nos crimes chamados de “colarinho branco” ou através de atos de corporativismo, conforme recentes (e maus) exemplos ocorridos no Rio de Janeiro, na ALERJ, o abismo da injustiça social que prevalece no Brasil, a falta de uma política séria para o emprego, para a saúde, para a educação, etc.

Entretanto, amigo, não se iluda, a violência já lançou, sim, suas garras aos mais longínquos recantos deste país. Na raiz dela rotineiramente estão as drogas. Nossa sociedade está doente, mas muitos ainda se recusam a admitir isso. A alguns eu peço : “Parem, por favor, de ficar a minimizar os fatos, este tipo de alheamento só contribui para sermos conduzidos a um futuro... provavelmente, sem futuro.”

Encerro este texto com esta sentença atribuída a Pitágoras: “Eduquem os meninos e não será preciso castigar os homens.”
 

 
(22 de abril/2005)
CooJornal no 417


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br