30/04/2005
Ano 8 - Número 418

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A FUMAÇA ERA BRANCA, MAS...


 

Há dias atrás, não apenas um bilhão e cem mil católicos deste planeta, porém quase toda a humanidade estava com seu olhar atento para a chaminé do Vaticano. Todos viram que, se entre os Cardeais já havia uma decisão, a tal de fumaça, porém, hesitou, e hesitou durante um bom tempo entre o quase branco, o cinza e o quase negro.

Quando o fumo enfim se fez realmente branco não houve mais dúvidas: tínhamos um papa. Eu, ainda católico, assim como muitos outros cristãos, nutríamos uma tênue esperança de que os senhores Cardeais ousassem sem arriscar demais, claro. Perdemos. Pior: talvez não tenhamos tempo para um dia ganhar.

Pautarei meu texto, além da minha pessoal e modesta visão sobre este assunto, em cima da declaração de pessoas por quem tenho o maior respeito e admiração.

Transcrevo aqui palavras de Leonardo Boff à rádio CBN: -- “Recebi a notícia com perplexidade e surpresa porque uma Igreja conservadora chamou o guardião do conservadorismo para o papado.” Nem preciso acrescentar mais nada pois concordo com esta declaração de quem foi vítima, digamos assim, do próprio cardeal alemão, agora elevado a Papa. Isto ainda durante a nossa ditadura militar.

Leonardo Boff, ícone da Teologia da Libertação, no Brasil, acabou por sofrer um processo judicial no Vaticano, ano de 1984. Àquela época o organismo da Igreja Católica era dirigido pelo cardeal Ratzinger. Na continuação da entrevista acima referida, Leonardo Boff, a certa altura, relembrou: --“Eu fui interrogado por ele durante cerca de três horas e também fui por ele punido com o silêncio obsequioso, deposição da cátedra e proibição de escrever e falar.”

A entrevista foi longa e valeu a pena ouvi-la. Mas, como Boff teve aquela punição suspensa posteriormente? Vamos às suas próprias palavras: “Depois, por intervenção do Papa (João Paulo II), que não queria se equiparar aos líderes brasileiros que silenciavam jornalistas, ele permitiu que eu continuasse a falar e escrever”.

Na visão de muitos analistas, nacionais e internacionais, entretanto, pode ser que o atual papa Bento XVI, até por ter optado por este nome, como pontífice, entenda que uma das missões da Igreja seja mediar conflitos mundiais e ajudar, no que puder, pela paz. Não teria sido à toa que Ratzinger escolheu aquele nome, haja vista a atuação do Papa Bento XV que se empenhou em busca da paz em pleno tempo de guerra.

Leonardo Boff, mesmo com certa cautela, admitiu esta interpretação, e disse que se esse for o verdadeiro propósito, “Ratzinger poderá ter sido um nome bem escolhido.” É verdade que a Igreja Católica perdeu muitos e muitos adeptos, ou fiéis, especialmente na Europa, nos últimos anos. Aqui no Brasil também. O continente onde a Igreja mais cresceu, no mesmo período, segundo os noticiários internacionais mais confiáveis, foi na África.

Excelente, em todos os sentidos, foi também a longa entrevista concedida por Boff à competente equipe de jornalistas – analistas da Tv-Bandeirantes na noite de 24.04.05. Para não me alongar demais, realço apenas este pequeno detalhe extraído de uma riqueza imensa de informações, argumentos, fatos históricos, etc.

A certa altura quando debatiam sobre as repercussões, no Vaticano, nos anos 70, da Teologia da Libertação, Leonardo Boff afirmou: “A Igreja tem estado muito mais para os palácios dos Césares do que para o pequeno barco de Noé.” Na minha visão a Igreja, ou as Igrejas, falam em nome de Jesus, mas não se comportam como ele.

Eu e minha falecida esposa, por exemplo, como tantos outros casais deste planeta, decidimos ignorar proibições (dos homens que falam pela Igreja) para podermos continuar a receber o sacramento da eucaristia, o pão da alma, ou, o corpo de Jesus. Passamos a confessar ao nosso Deus de bondade, de amor e justiça, sem intermediários. Não se trata de uma pregação, mas de uma convicção muito íntima. Nossos 40 anos de união não tinham a bênção da Igreja. Eu era então divorciado e ela solteira, depois casamos no civil. Fomos felizes, isso é que importa.

Não se pode esquecer, por outro lado, que o atual Papa já teve posições radicais, intransigentes mesmo, sobre tantas questões que, na realidade atual, poderiam ter aproximado mais a Igreja da sociedade, mas aconteceu justamente o inverso, mesmo com a gestão de João Paulo II. Este, porém, tinha muito carisma e conseguiu, apesar de algumas posições também conservadoras, chamar de volta à Igreja muitos jovens pelo mundo afora. O atual Papa, acredita-se, terá que surpreender muito para ao menos se aproximar da atuação de seu antecessor. Promessas ele está fazendo.

Quanto aos que pensam que ele poderá se empenhar em fazer crescer o número atual de católicos, li informações de que o Sr. Ratzinger afirmara antes que é preferível uma Igreja com menos adeptos, porém mais autêntica, mais coesa em torno de princípios, de dogmas, etc. Só nos resta aguardar.

A outra opinião que desejo destacar aqui é a de Frei Beto, dada em entrevistas, especialmente ao jornal O Globo, em 21.04.05:

-- “Não poderia dizer que a Igreja Católica, em seu conjunto, está com os pobres, como exige Jesus. A inquietação do cardeal Ratzinger era ver os templos da Europa mais repletos de turistas que de fiéis. Se tivesse olhos para os países do Terceiro Mundo, veria o contrário. Fora dos pobres, a Igreja não tem salvação. E se a Igreja Católica lhes fecha as portas, eles vão a outras Igrejas.” -- Perfeito em sua análise e no expor preocupações realistas, sem discursos elaborados, sem se esconder em argumentos como faz boa parcela dos padres, bispos, digamos ...“engajados”.

Em certo momento, ao responder ao repórter sobre quem estaria em alta e quem estaria em baixa, Frei Beto foi incisivo: “É difícil prever, mas com certeza o Papa tornará nosso episcopado mais conservador, nomeando padres reacionários, medíocres, sem preparo intelectual e pastoral, para serem bispos.”

Ele disse também temer um fundamentalismo católico, “com fogueiras virtuais de Inquisição e muitos sendo acusados de heresia, como ocorreu no século XIX, quando Pio IX chegou ao ridículo de condenar o Estado laico, o progresso e até a luz elétrica.” Essas duas entrevistas por mim referidas, na minha visão, deveriam ser lidas e/ou ouvidas por todos que, pelo menos, ainda se dizem católicos e fazerem seus juízos.

Quando alguém me fala que as questões sociais não são prioridade da Igreja, eu digo que não aceito isto e que por isso a minha Igreja é a de D. Paulo Evaristo Arns, de Frei Beto, de Leonardo Boff, de D. Helder Câmera, de Madre Tereza de Calcutá, de Jesus, enfim, entre outros que defenderam direitos humanos, que se opuseram ao Estado autoritário, que, como Madre Tereza, dedicaram sua vida inteira a cuidar e tentar salvar seres humanos que sobrevivem à míngua de quase tudo. Esta é a minha Igreja, o meu Deus de bondade, de amor e de justiça. Ele também olha e se preocupa sim, com o que alguns, católicos, chamam de “coisas terrenas passageiras”.

Para encerrar faço referência a algo que nada tem a ver com o conservadorismo do Sr. Ratzinger, ou com as posições da Igreja em relação a vários problemas que, no entender de muitos, e meu também, deveria ter sua ativa participação em discussões, em debates, dando um passo largo à frente. Mas a Igreja deverá permanecer fechada, talvez ainda mais, porém não deixará de proibir, proibir e de calar vozes divergentes.

O fato é que a Igreja teve um Papa, Nicolau, que costumava ter visões das quais, ou pelas quais, fazia previsões. E fez muitas. Nem todos levavam isto a sério, mas consta ter ele acertado diversas vezes. Inclusive na descrição de Papas como João Paulo II, porém, dito há séculos passados. Certa vez, fazendo uma viagem, em outra visão ele tivera a certeza de que a Igreja, após ele, claro, iria ter apenas mais 112 Papas. Aí aconteceria o fim dos tempos. --“Deus separará os bons dos maus”, segundo ele.

Ocorre que João Paulo II foi o 110º Papa nessa relação. O atual, lógico, é o 111º. O que nos leva a entender que o próximo será... o 112º, depois do Papa Nicolau. Como elegeram agora um Cardeal com idade bem avançada, 78 anos, e saúde abalada, desde que teve um derrame em 1991, corremos o risco de termos um papado um tanto curto. Então logo podemos ter, como disse Nicolau, o “último dos Papas”...

Ninguém está obrigado a acreditar nessas previsões, mas que dá para ficar com um pé atrás, lá isso dá, ou não? Afinal não era um qualquer, o vidente, mas um legítimo Papa. Assim, vimos e voltaremos a ver outro dia que a fumaça era branca, mas... e o nosso mundo, afinal o que acontecerá com ele agora e depois?!
 

 
(30 de abril/2005)
CooJornal no 418


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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