14/05/2005
Ano 8 - Número 420

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

TROPEÇANDO NA INSENSIBILIDADE


 

Outro dia quando eu dirigia rumo à casa da amiga Marlene, ao entrar na rua onde ela mora vimos um senhor que, distraído, acabou por chocar-se contra um obstáculo plantado mesmo no centro da calçada. Ele caiu ao chão, ferindo-se.

A culpa seria a distração daquele cidadão? Não, absolutamente. Há cerca de dois meses um amigo, aqui de Cabo Frio, ao manobrar seu veículo, próximo ao portão de uma garagem, abalroou a lateral direita do veículo em outro obstáculo semelhante ao do caso acima, também plantado no centro da calçada.

Vocês me perguntariam o que de importante esses fatos têm? Pois têm muito, amigos e amigas, têm muito. Lembrei-me deles ao perceber a magnífica interpretação do ator Marcos Frota na novela das 21 horas. Ele faz o papel de um deficiente visual. Mas, isso não é tudo. A autora dá ao personagem oportunidades de discutir as imensas dificuldades que alguém como ele tem para viver em cidades brasileiras.

O ator exerce a crítica e, de certa forma, propõe o debate desta questão: nossas cidades estão adaptadas para que nelas possam conviver tranqüilamente pessoas com variados tipos de deficiências? A resposta é triste e vergonhosa, mas não estão e nunca estiveram.

Em certa cena, Jatobá, personagem de Marcos Frota, choca-se contra um desses “orelhões” (telefone público) e se irrita profundamente. Em outra cena ele é recusado por um motorista de ônibus que não o deixa entrar no veículo. Cenas que ocorrem naturalmente no cotidiano de nossas cidades, não tenham dúvida.

O obstáculo a que me referi logo ao início deste texto, contra o qual chocara-se um senhor e também a lateral de um veículo, não era um “orelhão”, não, mas uma dessas lixeiras de ferro, hoje muito comuns, colocadas em frente a muitas casas.

Elas são importantes, com certeza, porque evitam que cães vadios e gatos que perambulam pelas ruas mexam nos sacos de lixo espalhando este pelas calçadas. Até aqui tudo certo. O que está completamente errado é que todo mundo, repito, todo mundo tem o mau hábito de mandar que as mesmas sejam colocadas no centro de suas calçadas. Armadilhas permanentes, especialmente para idosos, crianças e... deficientes visuais, claro.

Na semana passada um cidadão ofereceu à amiga Marlene uma dessas lixeiras. Mostrou o material, fez o preço e ela autorizou a colocação em frente à sua casa. Como eu estava lá naquele momento decidi acompanhar o trabalho do homem e dar-lhe a orientação sobre o local exato onde ele deveria instalar a lixeira.

Pedi-lhe que a colocasse a apenas um palmo da parede e paralela à mesma. O sujeito olhou-me com cara de espanto e argumentou: -- “Mas senhor, o normal é como todo mundo faz, a gente coloca no centro da calçada.” E acrescentou com um certo ar vitorioso: -- “Olhe só daqui pra lá, veja só, todas estão na mesma posição nesta rua.”

Respirei fundo, mas logo engoli em seco um desejo de fazer uma breve preleção àquele homem sobre o que era certo e o que era errado naquele caso. Troquei a preleção por apenas uma confirmação da ordem dada. Ele a cumpriu, mas deve ter saído dali pensando que ou eu era meio maluco ou exibicionista, pois afinal queria ser diferente de... “todo mundo”. Santa ignorância!

Do outro lado da mesma rua, instalaram uma lixeira entre a parede da casa e o poste. Este está na ponta da calçada. A lixeira foi colocada na vertical, em relação à calçada, ou seja, fecharam praticamente qualquer possibilidade de os transeuntes passarem por ali. Absurdos como este abundam por toda a nossa cidade, mas tenho certeza de que essas mazelas não são privilégio apenas nosso, neste país do “faz de conta”.

É também muito comum encontrarmos desníveis imensos no piso das calçadas a cada quarteirão. Alguns chegam a ter mais de um palmo. Em frente às entradas de garagem eles são mais comuns. Nenhum aviso, nenhuma faixa amarela para chamar a atenção dos passantes. Desrespeito total com seus semelhantes.

Pior: ninguém protesta contra essas irregularidades que, por vezes, atentam mesmo contra a vida de alguém, ou, no mínimo, contra sua integridade física. Como sempre digo, tanto quem faz a barbaridade como a vítima em potencial, carecem principalmente do básico: educação, amigos, educação, o que nos leva à cidadania.

Aqui em Cabo Frio, a Prefeitura, nos últimos anos, andou cuidando de adaptar muitas calçadas à necessidade de pessoas que usam obrigatoriamente cadeira de rodas. Em muitos pontos, especialmente próximo às faixas de travessia de pedestres, fizeram vários rebaixamentos no meio fio, devidamente sinalizados. Parabéns, porém isto acontece quase só no centro da cidade. Se nos afastamos dali a coisa muda.

E olha a falta de educação novamente. É comum vermos motoristas estacionarem seus carros obstruindo os tais rebaixamentos que deveriam favorecer aos deficientes físicos. Você perguntaria se não os multam, certo? Mas como se o contingente da polícia é pequeno e o interesse menor ainda? Esses motoristas não têm nenhum interesse em respeitar o direito dos que não podem usar as pernas como eles.

E vamos nós tropeçando na insensibilidade de autoridades displicentes, de pessoas egoístas e mal educadas, e em leis que adormecem em folhas de papel e raramente despertam para defender uma sociedade que está cercada de corrupção, violência, demagogia, impunidade, injustiças de toda ordem. Não se iludam, amigos e amigas, tudo está interligado, tudo faz parte de um todo que mais trama e discursa do que se preocupa em cumprir promessas de campanha. Deus nos proteja.

 
(14 de maio/2005)
CooJornal no 420


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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