21/05/2005
Ano 8 - Número 421

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SOLITÁRIO


 

Ah este silêncio que não responde às minhas dúvidas, que não ouve os meus questionamentos, que ignora a incerteza de minha angústia.

Ah este sentimento de uma paz tão ilusória, paz que não acalma, que não gratifica, que não afasta a dor que me visita sem hora marcada, mas não falta.

Ah este olhar perdido que percebe tantas presenças, passando por elas sem se fixar em nada, numa busca incessante e impossível de ser satisfeita.

Ah estas imagens que me fitam sorrindo, porém caladas, definitivamente mudas de um sempre etéreo e sem retorno.

Ah esses passos surdos num caminhar incessante e sem destino que não saem da memória para a realidade, que não me encontram porque andam por perto, mas têm entre nós uma infinitude plena e inalcançável.

Ah esse coração que amou tanto, tanto, que conheceu a felicidade e conviveu com ela por longos anos, e que agora se doa, se debruça, se empenha denodadamente no viver solidário com a paz, com a alegria, com a dor alheia, pois entendeu que sem amar não sobreviveria.

Ah esses raios de um luar que continuam a banhar o mesmo leito, pela mesma janela, no mesmo quarto, sobre os mesmos lençóis que hoje cobrem apenas um corpo que dorme.

Ah essas noites que se repetem numa roda viva silente de momentos impregnados de lembranças e saudades tantas onde só a poesia pode mitigar uma realidade que de quando em vez só convida a chorar.

Ah essa vida real, finita, definida, marcada, escrita, limitada, que chega e que parte, que sorri e que chora, que luta, mas sempre perde para a morte.

Ah esse sorriso que me rodeia, que me cerca, que me fascina, que me fixa sereno, que parece querer me dizer algo de tanto que já me disse, de tanto que semeou de amor, de tanto que me consolou, de tanto que me reergueu, de tanto que me fez feliz, de tanto que me ensinou.

Ah essa chuva que cai das nuvens, que lava e conserva a vida, que rega a terra, mas que às vezes inunda e mata, que abençoa e que condena, que também chora em minha janela o pranto que se esconde no meu coração.

Ah esse frio outonal que enfim se apresenta e que também invade minha alma agora, mais do que nunca, carente de aconchego, do calor humano e amante, do sentir mãos e lábios que, em nome do amor, aqueciam os meus desejos.

Ah essa solidão das noites mais vazias quando a realidade me olha de frente e me segura, não me permitindo fugir para o mundo de sonho e de fantasia, atrasando o meu sono, detendo-me numa insônia indesejada, longa e martirizante.

Ah esse uivo do vento gelado que assobia entre minhas janelas a canção melancólica de uma saudade exilada da paz, do amor, do carinho, da ternura, e encarcerada numa invisível e sombria masmorra onde a ilusão impulsiona a vida que precisa continuar.

Ah essa música que vem de longe trazida pelo vento que a sabe de cor e que não ignora o quanto ela toca fundo neste coração solitário que ficou porque todos têm o seu tempo, e o meu ainda não me foi cobrado.



(21 de maio/2005)
CooJornal no 421


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br