04/06/2005
Ano 8 - Número 422

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

INSENSIBILIDADE E IRRESPONSABILIDADE


 

Outro dia divulguei a crônica “Tropeçando na Insensibilidade” na qual abordei o problema da colocação de verdadeiros obstáculos no meio das calçadas em frente a residências e condomínios sem nenhum respeito aos semelhantes que por ali transitam. Falei nas lixeiras de ferro, levantadas, e, de passagem, em outros tipos de trambolhos e degraus que ameaçam os transeuntes.

A repercussão, através de comentários de leitores, me trouxe a necessidade de voltar àquele assunto. De uma maneira geral as pessoas enalteceram e agradeceram a denúncia feita, mas também relataram-me ocorrências nas quais os próprios leitores foram as vítimas, ou parentes e conhecidos seus. Selecionei uns poucos.

O volume de mensagens confirmou a necessidade de não nos calarmos para não nos sentirmos cúmplices naquelas irregularidades, embora muitos prefiram enfiar a cabeça no buraco e deixar ficar, apesar de tudo. Aí a insensibilidade toca também a quem, mesmo vitimado, opta pela cumplicidade do silêncio. Pois é!

Emocionei-me com o relato de uma senhora, de idade avançada, portadora de pouca visão em uma das vistas, e que constantemente se sente ameaçada ao ter que ir à rua. Obstáculos de toda ordem, inclusive obras em residências, de forma desrespeitosa, tomam toda a calçada na proximidade de onde mora, obrigando-a a disputar o asfalto com os carros, ônibus, motos, bicicletas, etc. E a fiscalização municipal? Será que ela existe para além do papel?! D. Helga, a certa altura, contou-me:

“Outro dia, no caminho para o médico, caí num desses obstáculos (uma caixa) e até agora não posso dormir de noite de tanta dor no braço. Tenho 83 anos e uma caída dessas, na minha idade, pode custar minha independência.” – Pergunto: quantas outras pessoas já não passaram pelo mesmo dissabor desta senhora? Responsabilizar quem? A gente até sabe, mas infelizmente imperam a indiferença e a impunidade.

O excelente poeta paraense, Alberto Cohen, num comentário longo e bem fundamentado, iniciou dizendo: “Amigo Simões, não tenho certeza, mas acho que foi o Sartre quem comparou os franceses, depois de vencidos na 2ª Grande Guerra, com um ajuntamento de indivíduos, cada um se julgando uma cidadela inexpugnável em relação aos outros.”

”Se você olhar bem, as atitudes tão meticulosamente analisadas em sua crônica, refletem apenas essa mesma filosofia de "o que é bom para mim tem que ser bom para todos". Poucos são aqueles que tem uma visão do coletivo, do ideal comum, do melhor social.” – Cohen foi claro, direto, conciso, objetivo e perfeito em sua análise. Mais ao final de sua mensagem ele fez essas perguntas:

“Quantas vítimas de acidentes, que se tornaram deficientes físicos, reclamavam, antes da seqüela, de falta de condições de tráfego para cadeiras de rodas? Quem protesta contra a destruição de um telefone público por vândalos, sem que precise usá-lo? Quem contestou, além de você, as lixeiras no meio da calçada, que amanhã podem machucar uma criança? São perguntas até mesmo cruéis, mas como negar a realidade?” – O poeta valorizou o meu trabalho com sua sensibilidade e talento.

O leitor assíduo e bom amigo, Otávio Macedo, morador no Rio de Janeiro, lembrou-me daqueles obstáculos, que inclusive têm autorização das prefeituras para serem usados, feitos de cimento e conhecidos como “frades”. Na cidade “Maravilhosa” eles estão por toda parte, e o bom Otávio confessa já ter tropeçado neles algumas vezes. É algo até meio criminoso mas, autorizado. Então cada um os coloca onde bem entende.

Deve existir, em vigor, alguma lei da desordem ou do tipo “terra de ninguém”. Reclamar? A quem? Os deficientes visuais, as crianças, os idosos e outros que se danem. Pagamos impostos muito elevados e em grande quantidade não para termos retorno, como deveria ser, de direito, mas para ajudarmos autoridades pouco responsáveis e insensíveis a nos causarem tantos dissabores quantos lhes aprouver.

Outra leitora assídua, a amiga Nelli, em seu comentário narrou-me um fato que choca pela conseqüência quase mortal que vitimou uma criança. Leiam, por favor, as palavras da própria Nelli:

“... lembrei-me de um caso acontecido recentemente aqui em minha cidade. Eu sempre gostei de colecionar cartões telefônicos e ocasionalmente vinham em minha casa dois garotos trocar cartões mas, de repente, eles sumiram. Passado um certo tempo um deles apareceu em minha casa e perguntei pelo amiguinho.”

“Ele me disse, com um ar até de espanto: --“A senhora não sabe o que aconteceu com ele?” --Diante da minha negativa ele me contou que seu amigo esteve internado por um bom tempo devido a uma queda que ele sofreu em uma calçada, sabe, estes restos de construção que costumam deixar na calçada só que, pasme amigo, neste resto de construção havia uma ponte de ferro que rasgou o peito do garoto.”

“Ele ficou espetado, esteve entre a vida e a morte, pois faltou pouquíssimo para que a ponta do ferro o atingisse mortalmente no coração. E o pior, amigo: ninguém foi punido por isso...”

Que mais posso acrescentar? Tudo isto me dá apenas a certeza de que ao fazer a denúncia na crônica anterior não exagerei em nada, pelo contrário. Certamente alguns devem ter pensado que dei importância demais a um assunto “pequeno”, mas vê-se, pelos relatos acima e outros mais que guardei comigo, que os problemas criados para a população, no sentido coletivo, por estes obstáculos, alcançam o patamar de sérias ameaças à integridade física das pessoas, mas quantos realmente se importam com isso enquanto não sejam eles atingidos diretamente, ou parentes seus?

Aí temos exatamente o somatório da insensibilidade com a irresponsabilidade e algo mais bem expresso nessas palavras do poeta Alberto Cohen: “Poucos são aqueles que tem uma visão do coletivo, do ideal comum, do melhor social.”




(04 de junho/2005)
CooJornal no 422


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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