18/06/2005
Ano 8 - Número 425

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

NÓS E O TEMPO


 

Em agosto de 2000 eu escrevia o poema “Passando o Tempo” justo na noite do meu aniversário. Como muitas vezes acontece ele veio de repente, sem dar aviso, enquanto eu estava olhando as árvores e as flores da praça interna de nosso condomínio, aqui em Cabo Frio. Foi por volta das 22:30 horas que eu comecei a sentir, digamos assim, “as dores do parto” e logo ele foi surgindo, vindo do nada, mas dizendo quase tudo.

Estava frio, era outono, eu completava 64 anos. Para não esquecer as palavras que fluíam aos borbotões lá de um recôndito da minha mente relaxada, mas atenta, comecei a escrevê-las. Seus primeiros versos diziam:

“O tempo tem todo o tempo que o tempo tem.
O tempo cabe no momento
Que se prolonga até a Eternidade.
O tempo tem a idade do infinito.”
 

Eternidade, infinito, estavam tão distantes de mim, da minha paz, da minha felicidade e ao mesmo tempo tão próximos sem que os percebesse. Agora, depois de tanto tempo, eu os sinto, quase os vejo, convivo com eles, de certa forma. Naquela noite tão absorto estava que nem percebi o presente trazendo, para me acariciar, as mãos da minha amada, da mulher que escrevia a vida junto comigo.

Um beijo discreto, um sorriso que correspondia a todos os meus desejos, a todo o amor que eu vivia. Seu sorriso iluminava minhas dúvidas, eventuais angústias, acalmava os meus temores. Era a felicidade que sorria sempre para mim. O tempo, se sempre passou muito rápido, não nos assustava. Estávamos juntos nele.

“O tempo guarda o passado, segue o presente
E traz permanentemente uma promessa de futuro.”

Pois é, mais adiante assim eu o digo naquele poema. “Promessa de futuro”, o que significava muita vida pela frente. E quem pode adivinhar o futuro? E quem sabe o que o espera amanhã? Saibamos então ao menos viver o presente que, num piscar de olhos, já mergulha no passado.

Aquela “promessa de futuro” não me revelara entretanto que em apenas um ano e meio mais ela começaria a se tornar uma séria incerteza, uma dúvida, que iriam aos poucos se transmutando numa certa desesperança. Esta conviveu conosco durante meses em cada dia, em cada minuto, de um presente que insistia em desmentir a tal “promessa de futuro”. Um engodo do tempo ditado em forma de poesia?

Outro verso tentava justificá-la, no mesmo poema, mas naquela fria noite de agosto/2000 eu não alcancei o seu significado. Diz ele:

“O tempo mede a vida com a régua do destino.”

E quem escreve o destino? Quem o determina? Podemos alterá-lo ou não? Diz também o dicionário que o destino é: “Sucessão de fatos que podem ou não ocorrer, e que constituem a vida do homem, considerados como resultantes de causas independentes de sua vontade; sorte, fado, fortuna.”

Fatos que podem ou não ocorrer, mas que via de regra nos surpreendem. Eu preferia que não tivesse acontecido, claro, porém, como diz a definição, suas causas são independentes de nossa vontade. Então que fazer para os evitar quando podem ser terríveis? Rezar? Mas, milagres nem sempre estão disponíveis, como pude comprovar, ou se aquele destino é a vontade de Deus, por razões que cada um explica de acordo com a sua fé, só resta nos conformarmos? Parece que sim.

Mais adiante no meu poema eu digo:

“No silêncio o tempo nunca se cala
Ele fala em nossos sonhos, recordações,
Nas angústias, nas emoções contidas,
Na mágoa que busca asilo num canto do coração.”

Naquele tempo, que hoje pertence ao meu passado, meus versos descreviam um futuro que adviria tão breve, e que em menos de três anos seria o meu presente a conviver com... a mágoa que buscava asilo num canto do coração. Mágoa sim, porque aceitar é uma coisa, mas conformar-se passivamente só nas palavras de consolo quando a dor não é nossa. Resignação exige tempo, muito tempo, para a cicatrização do que atinge a profundidade de nossa alma através do coração que se sente só.

A vida continua e há que vivê-la. O tempo voa afastando os fatos porém jamais apagando as marcas, as recordações, estas seguem conosco. E leio mais dois versos:

“O tempo abriga lembranças, conserva amizades,
Alimenta esperanças, quimeriza saudades.”

Saudade, a minha, que até tem data para não esquecer: 19/junho. A partir de quando tudo o mais virou lembranças. O tempo as levou com ele mas não pode impedir que retornem nas asas da imaginação e povoem minha mente de quando em vez. Este “reencontro” também se tem dado através dos sonhos. Lembranças foi o que me restou e me ajuda a viver, pois enfim elas me lembram que a vida e o amor valeram.

 “O tempo já me deu tanto! Quanto falta? Só o tempo sabe,
Pelo meu tempo vou passando até que o tempo em mim desabe.”

Até lá vou reconstruindo minha paz, minha felicidade, seguindo meu caminho, ouvindo o meu coração, apoiando-me no que tive, reconhecendo o que a vida agora me oferece. Quanto a nós, o tempo um dia se incumbirá, assim penso, de promover um reencontro. “Quanto falta? Só o tempo sabe...”

 

(18 de junho/2005)
CooJornal no 425


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br