25/06/2005
Ano 8 - Número 426

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SENA, ESTA NOSSA MEGA


 

Já há muito tempo deixei de fazer aquela fezinha na famosa “mega-sena”. Desisti após refletir muito sobre a sistemática desse concurso, no que concerne ao estranho ritmo, com todo o respeito, entre premiações e acumulações de prêmios.

Já repararam que se passam muitos sorteios sem que ninguém acerte as 6 dezenas, de repente alguém, sabe-se lá quem, até porque havendo ganhador normalmente este não se deixa identificar, dá aquela baita sorte e... leva uma bolada das grandes... sempre?

Isto já vem me despertando uma curiosidade, apenas curiosidade, diga-se de passagem, porque mal alguém acerta, logo é retomado o ritmo de acumulações e mais acumulações. São muitos sorteios seguidos sem que ninguém, em todo este Brasil de quase 200 milhões de habitantes, de tantos milhões de apostadores, e tantos milhões e milhões de combinações de dezenas, consiga acertar nas sorteadas.

Está bem, claro que sei que isto é puramente aleatório, mas o curioso é que quando o prêmio alcança aquele patamar perto dos 30 a 40 milhões de reais... pimba, aparece um sortudo e abocanha tudo. Nem há tempo de se respirar e logo volta o ritmo de acumulações, como digo acima.

Há quanto tempo não se vê o prêmio ser pago em 4, ou 3, ou mesmo 2 sorteios seguidos?! Pelo jeito, com tanta gente a jogar e tantas combinações em jogo, os brasileiros e brasileiras andam muito mal de pontaria, pelo menos na sena, esta nossa mega, pois. Desculpem, mas sinto sim uma certa estranheza no comportamento desta estatística envolvendo as constantes acumulações de prêmios e os que são pagos.

Quem me lê sempre sabe que vivi por 4 longos períodos na Europa nos anos de 1989/1992/1995 e 1998. Além de procurar avançar no conhecimento da cultura e da história daqueles povos, o que me fascina, além de também me divertir um pouco, claro, acabava sobrando um tempinho para fazer uma fezinha por lá também..

Acompanhei mais de perto o comportamento dos sorteios dos jogos, equivalentes ao da nossa sena, em Portugal, na Espanha e na Itália. Qualquer desses países tem uma população bem menor que a do Brasil, e, logicamente, muito, mas muito menos apostadores. Saibam que por lá a rotina é justamente inversa.

Quero dizer que o pessoal acerta muito mais do que por aqui. O habitual é o prêmio semanal ser pago a alguém ou a alguns. O excepcional é o prêmio acumular 2, 3, 4 semanas ou mais.

Aliás, não é comum o prêmio não sair por muitas semanas acumulando fortunas, como ocorre por aqui. Percebem a diferença fundamental entre o que ocorre por lá e o que vemos acontecer nos sorteios da nossa sena?

Eu mesmo, no ano de 1989, com uma boa dose de sorte, cheguei a acertar 5 das 6 dezenas em determinado sorteio da Totoloto, a sena de Portugal. Foi um bom prêmio, porém a metade do que coube a quem acertou também nas 5 dezenas na semana seguinte, já que nesta apenas um acertou as 6 e no meu sorteio houve 4 ganhadores do prêmio maior.

Lá eles pagam premiações desde quem acerta o terno, ou 3 dezenas. Consegui, algumas vezes, salvar o meu jogo acertando alguns ternos e eventuais quadras. Aqui, entretanto, costumava “fazer água” com meus palpites, fácil, fácil, e sempre. Desisti.

Voltando ao meu raciocínio inicial lembro-lhes que o nosso querido Portugal, por exemplo, tem uma população inferior a 20 milhões de habitantes, ou cerca de 10 vezes menos a população brasileira. Sendo assim, temos que admitir que muito menos pessoas arriscam no jogo em terras lusitanas, e, portanto, muito, mas muito menos combinações de dezenas são anotadas como palpite.

Mesmo assim ganha-se muito mais vezes nos sorteios de lá do que nos de cá. A diferença é enorme. Entretanto, sei que logo virão os matemáticos a fazer cálculos e querer apresentar evidências que deverão comprovar ser perfeitamente normal o ritmo de premiações e acumulações da sena deste lado do Atlântico. Pois é.

No meu modesto raciocínio matemático, todavia, incluindo um certo sentido de lógica e excluindo qualquer ânimo de parcialidade, sinto que algo de indecifrável e inexplicável deve orientar o tal ritmo que mantém sempre a mesma coerência entre o pagamento de um grande prêmio e as seguidas acumulações até um patamar que se presta, e muito bem, aos objetivos da propaganda do mesmo jogo.

Sinto pena de ver tanta gente em pé numa fila, toda semana, a levar suas esperanças que, em seus sonhos, resolveriam todos os seus problemas, deixando nos guichês parte do pouco que muitos (a maioria, diga-se de passagem) recebe de salário neste país de abismais diferenças sociais.

E o jogo é proibido neste Brasil que talvez seja a nação que possui a maior variedade de jogos em todo o mundo, com a devida cobertura oficial. Incoerência que, sem qualquer pudor, sorri cinicamente, por exemplo, através da sena, esta nossa mega.

 

(25 de junho/2005)
CooJornal no 426


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br