02/07/2005
Ano 8 - Número 427

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE ÉTICA


 

Li certa vez, mas não me recordo o nome do autor: “O mal continuará a ser mal, ainda que todos o pratiquem, e o bem continuará a ser bem, mesmo que ninguém o pratique.” Permitam-me partir para algumas reflexões.

Para se acusar alguém de leviano ou imprudente há que sermos responsáveis, sérios, no caráter e na conduta, sempre.

Para se imputar a alguém a pecha de patife, velhaco, há que nunca termos pautado nosso proceder em consonância com a molecagem, com a velhacaria.

Para se afirmar que alguém seja devasso, libertino, há que termos nos mirado no espelho e nos certificado de que nós jamais cedemos à libertinagem, à devassidão.

Para defendermos com veemência a nossa própria honra ao apontarmos supostos desonrados, há que nunca a termos maculado, em hipótese alguma.

Para se indicar pessoas, incriminando-as como receptoras de suborno, há que não nos termos exposto à mesma condição ao longo de nossa vida.

Para denunciarmos, digamos, uma rede de corrupção, apontando eventuais corruptos, os nomeando a todos, há que jamais termos sujado nossas mãos e prostituído nossas consciências com atos semelhantes no passado.

Evidentemente que estes conceitos se pautam, se amparam, rigorosamente pela ética. Mesmo partindo da presunção de que quem acusa, denuncia, não apresente provas contra os denunciados, mas que sua palavra tenha fé reconhecida publicamente.

De outro modo, sem ela, sem a ética, qualquer um poderia, ou pode, dizer o que bem entender de qualquer outro, acusá-lo, denunciá-lo, ofendê-lo publicamente sem comprovar suas denúncias, sem qualquer comprometimento com a verdade que não seja a sua palavra, mas, e esta, quanto merecerá de crédito? Só a investigação séria e imparcial dos eventuais fatos deverá dizê-lo.

Um dos fatores mais preocupantes em acontecimentos recentes, entretanto, é, de repente, alguém, que estava a ser acusado de graves irregularidades por notícias saídas na mídia, em vez de empenhar-se na defesa de sua inocência, já que deveria acreditar nela, pelo menos imagino, lançar-se, entretanto, veementemente a acusações, as mais diversas e gravíssimas, apontando e “atirando” para todos os lados, não raras vezes, com um certo ar de deboche e superioridade.

Não o fez ao Ministério Público ou à Polícia Federal ou através de instrumento legal junto à Justiça, como deveria, para responder a tudo com seriedade, ética, comedimento e compostura, não, mas comportou-se bem à maneira de tantos políticos tupiniquins. Foi montada uma cena que em nada dignificou o nosso Congresso, não obstante tenha propiciado levantar um imenso tapete que vem encobrindo sujeira há muito, mas muito tempo.

Ainda mais preocupante, creio, foi a imediata repercussão das afirmações feitas, não que pudessem ser mentirosas, não, mas pela facilidade com que todos deram logo um imenso crédito a alguém que de acusado transmutara-se repentinamente em acusador e cujas assertivas não traziam nada de tão novo, pois afinal ele já conhecia os fatos há muito tempo, conforme afirmou, mas tornou-se cúmplice com seu silêncio ao não os revelar publicamente antes.

E não o fez agora como um dever patriótico, também não, mas buscando uma posição mais confortável para si num cenário em que também fora incluído por acusação de outrem, igualmente sem provas. Deste tiroteio, um autêntico e vulgar “bang-bang”, salva-se no momento a entrada, finalmente, tanto da Polícia Federal como do Ministério Público, e a criação das CPIs respectivas. Esses canais já deveriam ter sido acionados antes se enfim aprendêssemos a tratar com seriedade e ética assuntos da maior gravidade e do total interesse do povo brasileiro.

Ninguém pode deixar de condenar toda a sujeira que navega em nossa política ano após ano, governo após governo, seja qual for a cor da bandeira do partido, sejam quais forem os seus líderes, de esquerda, de direita, de centro. Ninguém pode deixar de exigir apurações sérias, imparciais, doa a quem doer, isto é lógico.

Investigações a serem feitas por quem tem competência para tal, repito, o Ministério Público e a Polícia Federal, que nunca antes estiveram tão atuantes como agora, verdade que também ninguém pode contestar, haja vista a grande quantidade de sindicâncias, inquéritos, processos que têm levado à prisão pessoas dos mais variados níveis de nossa sociedade. Os eventualmente libertados devem ter encontrado, pelos meios legais, formas e maneiras nas chamadas brechas da lei, como habitualmente.

Todavia, quando se viu o acusado, fosse ele quem fosse, virar acusador e quase ser elevado a “herói nacional”, numa precipitação, numa necessidade de acreditar em alguém que pudesse ou não merecer tanta fé em sua palavra, isto preocupa e muito. É como se estivéssemos a estabelecer um novo comportamento, daqui para a frente, à margem da ética, dos procedimentos legais, com tendência a linchamento e antes de qualquer culpa formada após um julgamento imparcial. Assusta também, e bastante.

Outro dia um amigo me escreveu a respeito deste clima de acusações sobre suborno, corrupções e afins, comentando um texto, de outro autor, que eu lhe enviara. É um patriota, íntegro, com brilhante carreira profissional, muito crítico quanto à política vigente de uma maneira geral. A certa altura ele fez esta afirmativa: "Há muito aprendi, de um amigo ligado as coisas teosóficas, que o maior erro é procurarmos buscar justificar nossos erros em função dos demais.”

Sábias palavras que me acordaram para este pensamento: em verdade aquela assertiva serve, com justeza, não só para definir a atitude do personagem acusador, acima referido, como para tantos outros senhores que andam a prestar depoimento, que fazem juras de inocência e logo adiante acabam desmascarados. Alguns não titubeiam em repartir a lama que os cobre com outros, também sem provas.

Mas, o que não admito e geralmente nem leio até o final, são mensagens, como muitas que circulam por esta internet, que tentam ter uma postura crítica aos acontecimentos de nossa política porém o fazem com palavras chulas, agredindo grosseiramente este ou aquele cidadão, deputado, senador, governador, ou Presidente da República, colocando-se normalmente em um nível ignóbil que desmerece o próprio teor da mensagem, ainda que carregue eventuais verdades.

Em algumas percebe-se claramente não o desejo que acode a maioria dos brasileiros, de mostrar sua indignação, de exigir investigação e punição para os corruptos, sonegadores, adeptos do suborno, etc. O que essas nos passam é um desejo de transpirar preconceitos, de usurpar direitos de defesa, de ajudar a acender uma fogueira, enfim, a qual poderia gerar um incêndio que, fugindo do controle, poria em risco nossas instituições.

Esses não somam nada e nem ajudam nos justos protestos de nossa sociedade, talvez porque também lhes falte a ética, a compostura, que não podemos perder mesmo na hora de manifestarmos nossa indignação. Essas eu reprovo e fico triste que alguns se valham deste veículo virtual sem mostrar competência sequer para levantar seu grito de revolta. Lamentável.

Parabéns aos autores de alguns textos que li, como o excelente artigo do meu bom amigo, de infância, Armando Avellar, Mestre em filosofia pela PUC-SP, Psicólogo (formação clínica) pela Universidade Federal do Pará, Licenciado em Teologia pela faculdade N. Senhora da Conceição-SP, Professor (aposentado) de Filosofia pela UFPA. Seu artigo, “Politicagem”, pode ser lido na edição atual do JORNAL ECOS, para onde também escrevo rotineiramente. Ele é articulista do jornal “O Liberal”, em Belém do Pará.

Não é uma questão de manter alguma pose, mas de não perder a compostura e a dignidade, de respeitar e observar a ética, sempre, quando se escreve publicamente ou se pretende fazê-lo. Aí está implícito também o inegociável respeito ao leitor.

 

(07 de julho/2005)
CooJornal no 427


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br