09/07/2005
Ano 8 - Número 428

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

VOCÊ JÁ FEZ SEU EXAME NO DETRAN?


 

A pergunta vale a partir de agora, ou do dia 20.06.05. Pois eu me submeti ao exame justo naquele dia, aqui em Cabo Frio (RJ). Como estava agendado anteriormente não precisei de fazer o tal teste escrito sobre regras de trânsito, primeiros socorros etc.

Não precisei, mas fiz questão de passar por ele, pela internet, no site do DETRAN. Qualquer pessoa pode fazer isto. Sem ler o manual deles obtive um excelente resultado, acertando 27 das 30 questões apresentadas em forma de múltipla escolha, isto é, 90% de acertos. Basta acertar 70% para ser aprovado, segundo me disseram.

As 3 perguntas que errei referiam-se a conhecimentos sobre primeiros socorros. Aliás, duas dessas questões estavam mal formuladas o que leva o candidato ao erro. Uma delas, conferi depois, sequer correspondia exatamente com o que reza na apostila. Refiro-me ao problema da respiração artificial, conhecida como “boca a boca”. Mas sobre este material de leitura e aprendizado tratarei em outra oportunidade.

Como sabem o DETRAN, entre as atuais inovações, agora seleciona e credencia certas clínicas que ficam incumbidas de examinar os candidatos à primeira habilitação ou à renovação de carteiras. A escolha da clínica para cada candidato é feita aleatoriamente no computador para evitar favorecimentos, segundo dizem. As clínicas não precisam ser especializadas em oftalmologia.

Eu compareci a uma que, em verdade, trata mesmo de ortopedia. Registre-se entretanto que elas são abastecidas com equipamento moderno e apropriado para os fins exigidos pelos DETRANs. Somos submetidos a exames de vista que agora, para além das letras de vários tamanhos, temos que identificar determinadas luzes, suas cores, número delas, movimentos, entre outros recursos.

Quanto a este novo sistema confesso que gostei, até o aprovei, sinceramente. Consegui acertar todas as letras, mesmo as mais pequenas, até quando era obrigado a identificá-las somente com um olho. Igual sucesso obtive no jogo das luzes. Estive calmo o tempo todo, não obstante a natural ansiedade por se tratar de novidade.

Ultrapassada esta etapa, o médico auscultou-me e verificou tanto a minha pulsação como a minha pressão. Embora eu esperasse que ele proferisse os números da minha pressão, nada disse. Apenas me encarou, perguntando: “O senhor usa algum remédio para pressão?” Fiquei surpreso e tratei de perguntar-lhe sobre o resultado da medição que  acabara de fazer.

Ele me fitou e disse: “12 por 8”. Bolas, consultei meus botões, querendo entender porque, com uma pressão daquelas, ele me fizera a pergunta acima?! Teria algo a ver com o fato de eu ter 68 anos?! Sim, claro, afinal tendo esta idade talvez eu “devesse” ter problema de saúde, qualquer problema, e como ele não estava encontrando nada... 

Vejam bem, amigos: minha vista cometera a “imprudência” de acertar tudo, meu organismo tivera o “atrevimento” de propiciar-lhe o susto de uma pressão de jovem, como dizem, e na minha ficha constava que eu tomo apenas medicamentos de homeopatia, o que é verdade, via de regra somente como preventivos, inclusive o saw palmeto em defesa da próstata. Doença crônica, nenhuma.

Pulmões e respiração, além do coração, em ordem, nenhum problema nas pernas... Vocês que me lêem sabem que faço regularmente longas caminhadas e algumas corridinhas, além de nunca abandonar os meus rituais de abdominais. Então, bolas, que “decepção”!!!... Para o sério doutor examinador, talvez, para mim nenhuma novidade. Bem, de qualquer forma eu vencera, pelo menos assim pensei.

Dias depois fui pegar minha nova habilitação. Até agora, que eu saiba, a regra funcionava assim: a pessoas com menos de 65 anos concediam 5 anos na carteira e para os com mais idade, apenas 3 anos. Pois é, então pousei meu olhar na nova habilitação e... surpresa?!  Validade: até 20.06.2006. Apenas um ano. Confesso que fiquei decepcionado, muito decepcionado. Pensei: afinal eu perdi?! Como e por quê?!

Fui até o escritório de um amigo que entende tudo de DETRAN. Ele me afirmou que a partir deste ano os DETRANs passaram a dar autonomia aos senhores médicos examinadores para que concedam o prazo, qualquer que seja. Até aceito, se em casos especiais, como pessoas com doenças em progressão e que poderão pôr em risco, em  curto tempo, a segurança do motorista e de outros,  no trânsito. Mas, no meu caso?

De certo outros por este Brasil afora estarão agora se fazendo a mesma pergunta. Não devo ser uma exceção, com certeza não sou, e justamente por isso estou abordando este assunto e com a necessária seriedade. Não se trata de assunto pessoal, não mesmo.  Previnam-se vocês também, amigos e amigas, como eu, que já viveram mais do que alguns julgam que deveríamos.      

Será que alguém consegue alguma explicação lógica? Em meu favor, todavia, exibo sempre a amigos, com certo orgulho, um documento que a Presidência do DETRAN do Rio de Janeiro me concedeu em agosto/2000. As primeiras palavras são estas:

“Prezado usuário: Em nosso banco de dados consta que nos últimos três anos o senhor não cometeu qualquer infração de trânsito. É preciso parabenizá-lo pois o seu comportamento no trânsito é motivo de orgulho para todos nós... O senhor é um exemplo...”  Fiquei muito lisonjeado e sei que outros, provavelmente não muitos, também o receberam. Bom seria que todos os motoristas o merecessem.

Mas, se eles fizessem hoje um levantamento retroativo, não a 3, mas a cerca de 30 anos, no banco de dados do DETRAN, iriam se surpreender que desde meados dos anos 70 eu não recebi qualquer tipo de multa de trânsito. Pois é, mas provavelmente porque cheguei aos 68 anos de idade, embora com a saúde em ordem, graças a Deus, sou “castigado” com uma habilitação válida por apenas... um ano!

Por outro lado, quem se julgue prejudicado no exame não tem sequer o direito a algum recurso pedindo a revisão do mesmo ou do resultado. Considero isto um fato sério, que o DETRAN deveria levar em conta, porém, pelo que sei, não o faz.

Os médicos examinadores fazem anotações em uma ficha, mas nós, os examinados, e eventualmente prejudicados, não recebemos cópia daquele documento. Por que não? Digamos que alguns se enganem nas anotações, refiro-me apenas a enganos, não estou admitindo má intenção, não. Isso pode acontecer. E aí? Como fazer segredo de algo que é de interesse absoluto daquele que se submete ao exame e que paga para isso?

Aliás, uma cópia das anotações deveria sim destinar-se ao examinado e logo no momento de encerrados os testes. Tudo às claras, sem subterfúgios. Por que não? Quem agora me explica e/ou justifica o referido médico examinador ter-me concedido apenas um ano de validade na habilitação? Ademais, em que tipo de conceitos eles agora se baseiam para reduzir tanto o prazo de validade do documento?

Por que o DETRAN, que tanto se empenhou em redigir um manual cobrindo as principais informações do Novo Código Brasileiro de Trânsito, que tanto difundiu a necessidade do teste escrito ou de uma freqüência em auto-escolas, que justificou em várias entrevistas esses procedimentos, não informou também que poderíamos estar sujeitos, agora, a prazos tão curtos de validade?

Por que não esclarecem a que regras devem obedecer os senhores médicos que nos examinam a fim de poderem fazer agora tão drásticas reduções no prazo de validade das habilitações? Por quê? Em que nível de interesse estaria o DETRAN, se for o caso, neste “pormenor”? Certamente não terei respostas. Enquanto isso vou guardando com muito orgulho o documento acima referido, e exposto, e que, este sim, ninguém pode desmentir.

 
 

(09 de julho/2005)
CooJornal no 428


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br