30/07/2005
Ano 8 - Número 435

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A VERDADE QUE ERA UMA VEZ...


 

Neste torvelinho que vem assolando nossas emoções, nossas convicções, nossas esperanças, decidi sair em busca da verdade. Não levei comigo nenhuma lanterna pois não procurava nenhum ser humano, não exigia encontrar nenhum exemplo maior de probidade, de honradez, ou virtuoso e casto, não. Ademais isto está ficando cada dia mais difícil de se conseguir.

Movia-me mesmo o desejo de encontrar a verdade, onde quer que ela estivesse, embora soubesse das dificuldades com que me defrontaria para alcançar este objetivo.

Ouvira dizer que ela se recolhera a um estado de solidão, muito deprimida, num abatimento cruel e injusto que lhe estava sendo imposto, mas não desisti.

Procurei e procurei e finalmente a encontrei. Foi um choque para mim. Ela estava irreconhecível. Foi fácil perceber seu estado de angústia, visivelmente humilhada, impiedosamente aviltada.

Eu que convivi com ela em momentos de verdade e em momentos de mentira (afinal sou humano e nunca pretendi ser santo), jamais a vira assim. Se lhe faltei com o respeito no correr de toda a minha vida, com certeza o fiz quase como todos os meus iguais, apenas em breves e eventuais momentos. Ou seja, como todo mundo.

Algumas vezes pude apresentar-lhe minhas desculpas, certo porém de que estive ao lado dela, caminhei com ela, lutei por ela na maior parte do meu viver.

Vê-la agora naquele estado foi chocante demais. Seu olhar, seu silêncio, sua inércia, próprias de alguém derrotado em todos os seus princípios, em suas convicções, afrontada por injúrias de toda espécie, espezinhada por vitupérios oriundos de mentes inescrupulosas que parecem querer derrotá-la para sempre, foi muito triste.

Derrota que, se acontecer, estabelecerá o fim da dicotomia entre a verdade e a mentira, em favor desta, naturalmente. Imposturas, falsidades ameaçam sua integridade, sua honradez, como que almejando impor-se acima da palavra, aquela que já foi a maior aliada da verdade em outros tempos.

Palavra agora manipulada sem honra, desavergonhadamente, com ares de insolência e requintes de deboche, manipulando fatos e tentando corromper consciências que ainda se mantêm fiéis aos princípios da verdade.

Mas ela também se mostrou surpresa com certos arautos da decência, da honra, que, falando em seu nome, não pestanejam em tirar vantagem da situação ainda que para isso tenham que travesti-la de uma mentira aparentemente menor, como que inocente, forjando situações e discursos que escondem seu caráter também inescrupuloso, temporariamente investidos de armas que defendem o bem.

Em suas lembranças de um passado não tão distante, a verdade se recorda de quantos levantaram a mão em nome também da honra, da pátria, da família, e dela mesma, e assim ajudaram a derrotar uma mentira bem maior que aquela que escondiam em sua desfaçatez ao se vestirem da verdade que pretendia ser autêntica e irretocável.

Mentirosos que estavam sendo úteis a serviço da lei, da sociedade, do país, das instituições. A verdade, a verdadeira, esta se calou. A mentira maior foi derrotada.

Pouco tempo depois, todavia, suas máscaras caíram e alguns deles foram apanhados no contra pé da desonra, da falsidade, da improbidade, e, com as mãos abaixadas sentiram o gosto do banimento que julgavam não os alcançaria depois de ato tão “patriótico”.

Neste momento de sua narrativa eu vi um leve, frágil e desanimado sorriso no rosto da verdade. Ela sabe que a história de certa forma se repete, e teme que a justiça deixe a desejar, de novo. Ela percebe estar sendo também manipulada ora em nome do decoro, da probidade, ora com o veneno de um revanchismo insatisfeito e preconceituoso.

Ela não tem grandes ilusões. Vê que muitos acreditam nela, mas se sente cercada de grupos diferentes de quadrilheiros a dirigir seus discursos, suas defesas, suas acusações, embaladas por segundas e/ou terceiras intenções, algumas inconfessáveis.

A verdade pára, respira fundo, e dá sinais de que, ainda vitoriosa, poderá contribuir para algo que ela não gostaria de presenciar. Não se importa para que lado os ventos, bons e maus, a levem agora. Sabe que não é mais aquela verdade que costumava pairar acima de qualquer suspeita, pois sente que semearam muita desconfiança, muita dúvida, em tantas mentes e corações. Pior: em seu nome, usando-a como escudo.

Ela própria já tem dificuldade em discernir, algumas vezes, a diferença fundamental entre verdade e mentira, entre ela e sua negação. Sua crise existencial vem se agravando a cada dia. Não sabe se sobreviverá pois, como se diz popularmente, ela já desconfia até de sua própria sombra.

Secando lágrimas de uma dor profunda, vendo morrer todas as suas ilusões, ela me disse que atualmente se sente ... a verdade que era uma vez.



(30 de julho/2005)
CooJornal no 435


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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