20/08/2005
Ano 8 - Número 438

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A RACIONALIDADE CRUEL


 

Já escrevi opinando sobre as famosas touradas acrescentando as muitas informações que obtive, tanto quando vivi na Europa por 4 longos períodos, como pelas que depois me enviou o bom amigo Manuel  Antônio Santos, que vive em Cascais, Portugal.

Lembro-me de ter contado sobre um pequeno grupo que vi, em 1995, talvez de umas 50 pessoas, caminhando pela Gran Via, em Madri, lançando, com pequenos cartazes e suas vozes, um brado de indignação contra a maldade feita com os animais para que os seres humanos se divirtam e curtam as touradas.

Já era um bom início de articulação contra aqueles “espetáculos”, o que veio a crescer nos anos seguintes. Sei que é muito difícil e talvez quase impossível alguém proibir o massacre cruel e covarde que fazem com os touros e mais triste ainda é ver que os homens que os torturam são considerados como “heróis”. Mas, já discorri sobre isso antes em setembro/2002 na crônica “Olé Touro” que se encontra em meu Arquivo.

Hoje move-me mostrar minha indignação sobre a maldade humana de seres ditos racionais quanto à impiedosa tortura a que submetem animais indefesos, como os gansos, para que pessoas fiquem ricas, façam fortuna. Recebi um apelo de meu bom amigo de longas décadas, o Orlando Barcelos, para que escrevesse sobre o assunto.

Vou me referir ao preparo do conhecido e muito valorizado patê de “foie gras” e à crueldade na conseqüente preparação do fígado de patos e marrecos para atingirem seus objetivos. Eu já ouvira falar neste assunto, porém jamais tivera informações tão precisas ilustradas por fotos realmente chocantes que denunciam a maldade do ser humano em atos da maior covardia contra pequenos seres ditos irracionais.

O amigo Orlando mandou-me uma seqüência de imagens que acompanham um magnífico texto, trabalho que tem a autoria de Liliana Louro, com a ajuda da LPDA. Ao final da apresentação você pode escolher, entre alguns vídeos, clicando em imagens, para ter uma idéia ainda mais completa desta realidade praticada por bárbaros insensíveis e desumanos, estes, entretanto, seres ditos racionais...

Vou transcrever aqui o primeiro parágrafo da mensagem a que me refiro acima e que recebi do amigo Orlando, também profundamente indignado:

“Imagine que acabou de comer uma enorme refeição. Sente-se cheio, a transbordar. Logo a seguir você é obrigado a repetir outra igual. Não agüenta mais. Mas, a seguir vem outra igual e depois outra. Sente-se inchado, a arrebentar. A agonia é tremenda, você não consegue se mexer e muito dificilmente respirar. Este é o terrível tratamento por que passam os patos e os gansos para a produção do patê de “ foie gras.”

Se o amigo ou a amiga já começa a perceber o alto grau de tortura a que submetem aqueles pequenos seres, saiba que o “tratamento” apenas está começando. Transcrevo agora o segundo parágrafo da mensagem em referência:

“O “foie gras” é o fígado inchado desses animais que é obtido através do método da alimentação forçada. Esta provoca uma distorção no corpo dos animais e um fígado sete vezes maior que um tamanho normal. Quanto maior o fígado, mais “foie gras” e obviamente mais lucro.”

Vejam esta breve descrição do tal “método de alimentação forçada” na continuação do texto da mensagem denunciante dessa barbárie:

“Dezesseis dias antes da matança, e a partir daí, diariamente, um funil de mais de quarenta centímetros de comprimento é empurrado por dentro do pescoço das aves. Então é forçada, pela garganta abaixo do animal, à máquina ou à mão, uma quantidade de cereais misturados com gordura que seria equivalente a doze quilos e meio de espaguete para um ser humano.”

E segue esta narrativa: “A partir do décimo segundo dia este processo é repetido de três em três horas, ou seja, oito vezes por dia. A esta altura, o corpo do animal já está completamente deformado, não se consegue mexer e respira com muita dificuldade. Ao décimo sétimo dia ... está morto.”

Se depois de saber desses procedimentos você ainda continuar a consumir o tal patê de fígado, desculpe, mas estará dando o seu apoio, o seu aval, a tanta crueldade e sua consciência deverá lhe cobrar esta cumplicidade com a racionalidade cruel.

Há alguns anos deixei de consumir patê de fígado animal para não provocar mais o grau do meu colesterol, até aqui comportado, mas já dando mostras de querer se expandir, o que procuro evitar. Todavia, conhecendo agora o “método de alimentação forçada”, mal comparando, uma espécie de câmara da morte nazista voltada para nossos irmãos irracionais, os pobres patos e marrecos, arrependo-me de ter feito uso daquele alimento antes e jamais o consumiria novamente. 

Quando vejo coisas deste tipo volto a me indagar: “Será que fomos mesmo feitos à imagem e semelhança de Deus?” Afinal, que Deus? Infelizmente já matamos tantos de nossos irmãos das mais variadas raças em muitas guerras, em tantas disputas de poder e pelos motivos os mais sórdidos, e continuamos a fazer isto em pleno século XXI, que para alguns pode parecer uma bobagem pessoas se preocuparem com a vida de gansos, de marrecos, ou de cachorros, de touros, de cavalos, etc.

Acontece que eu, meu amigo Orlando, e tantos outros já alinhados nesta campanha contra a barbaridade aqui denunciada, não nos “acostumamos”, e jamais nos acostumaríamos, com atos de desumanidade contra qualquer ser vivente.

Quem desejar conhecer o material por mim descrito pode me solicitar que o enviarei por e-mail, com certeza.



(20 de agosto/2005)
CooJornal no 438


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br