27/08/2005
Ano 8 - Número 439

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

33 POR 69

O título pode parecer estranho mas significa muito, muito mesmo, pelo menos para mim. E como gosto de fazer vou compartilhar com vocês uma das maiores alegrias, uma das mais fortes emoções positivas, que a vida já me proporcionou.

Os amigos mais chegados já sabiam que no dia 17 de agosto, deste ano, eu estava completando uma idade de responsa (como diz um amigo gozador)... 69 anos. Também significa sala de espera para os 70. Mas, e daí? Nunca me impressionei com esta ou aquela idade, apenas procuro viver e, tendo saúde, fica mais fácil. O resto a gente vai fazendo por merecer, vai tentando conquistar, como, por exemplo, amigos.

Tinha por hábito reuni-los aqui em casa, em Cabo Frio, já há muitos anos, exceção em 2003 quando faleceu minha saudosa esposa. Desta feita combináramos um jantar, às margens do Canal de Itajuru, no restaurante de um casal de amigos. O local é muito agradável, ainda mais em noite de lua cheia, como foi o caso.

Tudo acertado, nos encontraríamos lá por volta das 20:30 horas. Eu fizera as reservas para umas 15 a 17 pessoas. Quatro amigos viriam do Rio e se hospedariam cá em casa. Os demais são daqui mesmo. Tudo combinado, o tempo cooperava pois a tal frente fria se desviara para o oceano. Nada daria errado, e não deu mesmo, mas...

Agora é que vocês vão entender o título acima. Antes de sairmos de casa telefonei para meu amigo Edinho e de lá me informaram que ele já saíra e fora se encontrar com amigos num restaurante. Ora, tudo parecia, a mim, normalíssimo. No meu carro saímos eu e as amigas Mônica e Marlene. No carro do bom Tabajara, do Rio, ele e seu filho. Antes do restaurante, Marlene me pediu para darmos uma rápida passada na casa dela a fim de pegarmos Grasiele, sua filha e amiga do coração. Cumpri o pedido.

Chegando lá Marlene foi até à casa e logo depois me chamou querendo que eu fosse dar “uma força” a fim de fazer Grasiele terminar logo de se vestir, para não nos atrasarmos mais, pois ela costuma me dar ouvidos. Atendi à amiga e nem percebi que mais atrás de mim vinham andando devagar Mônica, Tabajara e seu filho que haviam ficado dentro dos respectivos carros. Ultrapassei o portão e atravessei a varanda.

Ao pôr o pé na sala... meu Deus, as luzes se acenderam de repente e lá estavam todos que deveriam ter-se dirigido ao restaurante além de muitos mais. A grande sala e a copa se encontravam enfeitadas com inúmeros balões coloridos, figuras variadas de personagens de desenhos animados e todos cantaram o “Parabéns a você”. A emoção foi muito forte, afinal uma grande e bela surpresa derrubara a organização que eu procurara dar ao acertar o tal jantar no restaurante. Que feliz “traição”!!

A mesa posta estava cheia de doces, salgadinhos e um bonito bolo. Confesso que balancei. Abaixei um pouco a cabeça numa reverência de agradecimento e também disfarçando uma teimosa lágrima que queria se sobressair. Eu não devia chorar, nem mesmo de alegria. Já chorei demais nos últimos tempos, era momento de sorrir, sentir a vida a pulsar e olhar cada um, amigo e amiga, que me desejava felicidade.

Muitos abraços e beijos, e quantos, e uma surpresa maior ao ver lá não 15 pessoas, mas... 33. Até neste número havia todo um clima emocional, pois além de ser meu número de sorte, ele representava, quando trabalhei no BB, no Treinamento de Pessoal (DESED), o que alguns consideravam o “grupo do absconso”. Eu era, segundo alguns colegas, um dos expoentes do referido grupo!! Feliz coincidência.

Preocupei-me pela reserva que fizera aos amigos, donos do restaurante, aonde deveríamos ter ido e logo fiquei sabendo de como se deu toda a “trama” que alterara os meus planos, confesso que para melhor. A idéia de tudo partira da cabeça de ouro da amiga Marlene. A ela se aliaram a cumplicidade do bom amigo Edinho, sua esposa Adriana, Grasiele e Julinho, filhos de Marlene, enfim, uma “quadrilha” com muito amor e amizade no coração e uma sensibilidade que, mais uma vez, me fazia feliz.

Mônica e Tabajara, que vieram do Rio, foram informados sobre tudo horas antes e devidamente “intimados” a também serem cúmplices, o que aceitaram prazerosamente. Tudo na surdina, no silêncio da surpresa que só visava passar tanto amor, tanta amizade, tanto carinho. Eu estava sendo enganado, felizmente “traído”. A reserva do restaurante Marlene se incumbira de cancelar, na véspera, explicando a razão. Os demais da “gang” puseram mãos à obra enchendo dezenas de balões, encomendando salgados e doces, arrumando todo o cenário no mesmo sábado.

Eles construíram tudo tal e qual durante muitos anos fizeram aqui em casa, na garagem, junto com minha saudosa Zezé. Antes era sempre uma “surpresa” mais do que anunciada, mas eu só podia ir até o ambiente da festa após me liberarem para isso. E eu gostava daquilo, não ia me sentindo mais velho, mas sim sempre feliz.

Naquela noite, porém, a surpresa me ofereceu um imenso prazer inesperado, uma espécie de gozo purificado que só tantos e sinceros amigos podem nos proporcionar. Lembrei-me de quantos que vivem no Rio, que são poucos, mas também fidelíssimos, eu gostaria de abraçar naquela noite, mas era impossível. Os que vivem em Portugal estavam ainda mais distantes, porém perto no meu coração, com certeza. Meus irmãos e irmãs, de S. Paulo a Belém, minha filha e minha neta.

Lembrei-me dos que tanto me têm prestigiado nesta internet e que justificam eu continuar acreditando no trabalho que desenvolvo e que não pretendo deixar de realizar. Que noite, amigos e amigas, que noite. Até a nossa querida dentista, a Dra. Andréa, que acabara de chegar do Rio, se fez presente com a simpatia e o carinho de sempre. E os amigos e amigas eram mesmo, ao todo, 33... Estava escrito, podem crer.

Outra coincidência era que neste mês de agosto está se completando um ano que a amiga Marlene adquiriu sua nova residência, o sonho de toda uma vida. Obrigado amigos e amigas, vocês que não me faltaram nas horas da angústia e do sofrimento mais cruel, vocês que ajudaram a me soerguer, a acreditar que eu podia, que eu conseguiria. Não os desapontarei jamais. Até a próxima, se Deus quiser.




(27 de agosto/2005)
CooJornal no 439


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br